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Lula rebate ofensa capacitista de Flávio Bolsonaro em debate da TV

Candidato da extrema direita atacou mutilação sofrida por Lula como metalúrgico; petista reagiu apontando histórico de trabalho e classe.

Lula cobra pedido de desculpas de Flávio Bolsonaro durante debate decisivo na TV Globo. Foto: Ricardo Stuckert

Rio de Janeiro, RJ – O último debate presidencial antes do segundo turno das eleições de 2026, promovido pela TV Globo nesta sexta-feira (23), foi marcado pelo confronto direto entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), candidato à reeleição, e o senador Flávio Bolsonaro (PL), representante da extrema direita.

A tensão atingiu o ponto mais crítico da noite quando o senador utilizou a expressão “nove dedos” para se referir ao adversário. Mediado pelo jornalista César Tralli, a dois dias da votação decisiva pelo Palácio do Planalto, o encontro concedeu direito de resposta a Lula, que cobrou retratação pública e resgatou sua origem operária para denunciar acidentes de trabalho no país.

Ao reagir à ofensa nos estúdios da emissora, o presidente contrapôs sua trajetória nas fábricas ao histórico profissional e político de Flávio, citando o passado do adversário como assessor parlamentar indicado pelo pai enquanto cursava faculdade presencial em outro estado.

“Ele disse uma grande asneira, e eu não vou levar pra casa. Ele me chamou de nove dedos. E eu quero que ele saiba de uma coisa: se tem aqui nesse público alguém que sabe o que é o mundo do trabalho, sou eu. Se tem alguém que perdeu o dedo com 17 anos, fui eu, trabalhando à noite quando não podia trabalhar. Não vou permitir que um miliciano me chame de nove dedos.”

Lula contextualizou que a amputação ocorreu na juventude, durante uma madrugada na indústria, vinculando o episódio à vulnerabilidade imposta à classe trabalhadora pela exploração econômica e pela falta de segurança nos postos de serviço.

“Ele nunca trabalhou na vida, não sabe o que é uma carteira profissional. O primeiro emprego que ele teve foi um emprego falso pelo pai dele. Você vai ter que pedir desculpas. Porque o povo trabalhador está vendo. Milhões de trabalhadores se acidentam por irresponsabilidade patronal, que obriga a gente a trabalhar em jornada que a gente tem que trabalhar. Eu era de menor e trabalhava à noite, porque ou trabalhava, ou não comia. E não posso aceitar que um granfino, com uma prática política muito duvidosa, venha me chamar de nove dedos.”

O acidente rememorado ocorreu quando Lula tinha 17 anos e atuava como torneiro mecânico. Em relato concedido ao apresentador Jô Soares em 2002, o petista detalhou que tentava recolocar um parafuso fabricado por ele mesmo para ajustar uma prensa com defeito por volta das 3 horas da madrugada.

O colega responsável pela operação soltou acidentalmente o braço do maquinário pesado, esmagando o dedo mindinho de sua mão esquerda. O socorro médico formal só aconteceu quatro horas depois, às 7 horas da manhã, deixando sequelas físicas que o petista declarou ter tido vergonha de expor por vários anos.

Pressionado em rede nacional, o candidato do PL recuou e apresentou um pedido de desculpas, mas tentou mudar o foco da discussão para desgastes sociais e econômicos da atual gestão federal.

“Lula, se eu te ofendi porque te chamei de nove dedos, te peço desculpas, de verdade, não quis te ofender.”

Na tréplica, o senador questionou se o presidente também se desculparia com a população brasileira por índices de endividamento familiar, aumento no preço dos alimentos, casos de violência contra a mulher e avanço de pessoas em situação de rua nos centros urbanos.

Flávio também criticou o reajuste do Bolsa Família anunciado a 17 dias do primeiro turno e apontou as intervenções policiais e sanitárias realizadas na Cracolândia pelo governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), como referência de política pública para usuários de drogas.

Ao rebater os questionamentos, Lula sustentou as medidas sociais de seus mandatos, declarou que o governo tem ações adicionais em andamento e direcionou a responsabilidade histórica pelas disparidades econômicas do país às classes dominantes.

“Quem tem que pedir desculpa ao Brasil é a elite brasileira.”

Amilton Farias

Amilton Farias é jornalista, fundador e editor do portal Fronteira Livre. Com vivência em diferentes países da América Latina e atuação voltada ao jornalismo territorial, dedica sua escrita à análise política, social e cultural das fronteiras, dos territórios e das realidades que marcam a vida dos povos latino-americanos.

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