Comércio regional do Nordeste se fortalece, mas estrutura produtiva segue concentrada

Comércio regional do Nordeste se fortalece, mas estrutura produtiva segue concentrada

Vista parcial do Complexo Industrial Portuário de Suape, em Pernambuco: exemplo de dinamização produtiva. Foto: Reprodução/Unicamp
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Campinas–SP – O Nordeste brasileiro ampliou sua presença no comércio internacional e fortaleceu as relações econômicas dentro da própria região nas últimas décadas, mas segue enfrentando limitações estruturais que impedem a internalização de ganhos de produtividade, tecnologia e inovação. Essa é a principal conclusão da dissertação “O comércio internacional da região Nordeste do Brasil: competitividade e padrão de especialização (2000–2019)”, de Abimael Francisco de Souza, defendida no Instituto de Economia (IE) da Unicamp, sob orientação do professor Antônio Carlos Diegues.

O estudo analisou a evolução da inserção internacional e regional do Nordeste nas duas primeiras décadas do século XXI e mostrou que, apesar do aumento do número de parceiros comerciais e do volume exportado, a estrutura produtiva da região permaneceu fortemente concentrada em bens primários e produtos de baixo valor agregado. Entre 2000 e 2019, o Nordeste respondeu, em média, por 7,6% das exportações brasileiras, com destaque para soja, algodão, minério de ferro e frutas tropicais.

Fortalecimento do comércio regional

Os dados indicam, contudo, um movimento recente de desconcentração comercial e fortalecimento das relações intrarregionais. Segundo Souza, o Nordeste passou a vender mais para si próprio e a reduzir, proporcionalmente, sua dependência do Sudeste — embora este ainda ocupe posição dominante na estrutura produtiva nacional.

“A região vem estabelecendo mais relações com as demais regiões e consigo mesma, o que revela um movimento de desconcentração produtiva e comercial”, afirma o pesquisador.

Entre 1975 e 2021, a participação do Sudeste nas vendas nordestinas caiu de 47,6% para 32,7%, enquanto o comércio intrarregional aumentou de 43,5% para 44,4%. Nas compras, o Sudeste ainda responde por 42,4%, mas esse percentual já foi de 66,5% em 1975. No mesmo período, o próprio Nordeste elevou sua participação de 25,3% para 32,9%.

Esse movimento, embora insuficiente para romper a dependência estrutural, aponta para um processo gradual de reintegração econômica regional, com expansão dos mercados internos e fortalecimento de cadeias produtivas locais.

Crescimento sem transformação estrutural

Apesar da ampliação dos mercados, a diversificação produtiva segue limitada. Entre 2000 e 2019, o número de países para os quais o Nordeste exportou passou de 130 para 191, e a China substituiu os Estados Unidos como principal destino das exportações. Ainda assim, apenas 35% dos produtos exportados apresentaram vantagem comparativa revelada, índice considerado baixo para uma região com grande peso populacional e econômico.

Além disso, os 15 principais produtos exportados em 2019 são praticamente os mesmos do início do período analisado, indicando persistência da especialização primário-exportadora. Os produtos nordestinos também apresentam valor unitário inferior à média das exportações brasileiras e globais, o que posiciona a região de forma periférica nas cadeias internacionais de valor.

“Há um processo de inserção comercial sem emancipação produtiva”, resume Souza.

Agronegócio, grandes empresas e dependência

O estudo aponta o papel ambíguo das grandes corporações e do agronegócio na economia regional. Segundo o autor, esses agentes atuam simultaneamente como motores de crescimento e reprodutores da dependência estrutural.

“A entrada de grandes empresas gerou empregos e alguns encadeamentos locais, mas não foi suficiente para transformar a base produtiva”, explica.

No campo agrícola, o avanço do Matopiba (Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia) e da fruticultura irrigada do Vale do São Francisco elevou a produtividade e ampliou a inserção internacional, mas também reforçou a especialização em commodities.

“Esses fenômenos aumentam renda e produção, mas não garantem autonomia produtiva nem complexificação da matriz econômica”, observa o pesquisador.

Caminhos para o desenvolvimento

Para reverter esse padrão, Souza defende uma política industrial e regional ativa, articulada por cadeias produtivas estratégicas e voltada à agregação de valor. Entre as medidas sugeridas estão a integração entre financiamento, infraestrutura, inovação, conteúdo local e demanda pública, além da vinculação de incentivos fiscais e crédito à contratação de insumos regionais e à capacitação tecnológica de pequenas empresas.

O pesquisador avalia que essas diretrizes convergem com a atualização do Plano Regional de Desenvolvimento do Nordeste (PRDNE) e com a nova política industrial nacional, que abrem uma janela de oportunidade para mudanças estruturais, desde que haja coordenação com a Política Nacional de Desenvolvimento Regional (PNDR).

Experiências regionais bem-sucedidas

A pesquisa também identificou iniciativas locais e estaduais que contribuíram para a diversificação produtiva e a competitividade regional. Entre os exemplos estão a fruticultura irrigada do Vale do São Francisco, o Polo Petroquímico de Camaçari e os setores automotivo e metalmecânico na Bahia, o Complexo Industrial Portuário de Suape, em Pernambuco, e o polo de confecções do Agreste.

“Essas iniciativas demonstram que o Nordeste dispõe de uma base real sobre a qual políticas bem coordenadas podem construir um desenvolvimento mais integrado, inovador e competitivo”, conclui Souza.


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