Curitiba (PR) — Após conquistar a condição de área livre de febre aftosa sem vacinação, o Paraná volta a concentrar esforços em outro desafio sanitário considerado estratégico para a pecuária estadual: o controle e a erradicação da brucelose bovina.
O tema mobilizou representantes do Sistema FAEP, produtores rurais, pesquisadores, universidades e órgãos de fiscalização durante uma reunião realizada no início de junho. O encontro definiu a reativação imediata do comitê estadual responsável por discutir medidas de enfrentamento à doença e construir um plano de ação que deverá ser apresentado ainda neste mês.
Para o presidente do Sistema FAEP, Ágide Eduardo Meneguette, o momento exige rapidez e articulação entre os diferentes setores envolvidos.
“Vencemos a batalha contra a febre aftosa. Agora temos como desafio essa nova missão, erradicar a brucelose. Precisamos, urgentemente, avançar”, afirmou.
A preocupação não é pequena. Dados da Agência de Defesa Agropecuária do Paraná (Adapar) mostram que o Estado possui cerca de 155,7 mil propriedades com criação de bovinos. Apesar disso, apenas 124 são oficialmente certificadas como livres de brucelose e tuberculose.
Em 2025, foram registrados 102 focos da doença e 266 casos confirmados. Somente nos quatro primeiros meses deste ano, outros 45 focos já haviam sido identificados.
Um problema que vai além da porteira
A brucelose é uma enfermidade que provoca prejuízos econômicos aos produtores, reduz a produtividade dos rebanhos e também representa um problema de saúde pública, já que pode ser transmitida aos seres humanos.
Por isso, especialistas defendem que o enfrentamento da doença não pode ficar restrito à vacinação.
O consultor do Sistema FAEP e coordenador-geral da Aliança Láctea Sul Brasileira, Ronei Volpi, destacou que o Paraná precisa abandonar a postura de espera e avançar em medidas permanentes de prevenção e conscientização.
“Precisamos sair da inércia para erradicar, de vez, a brucelose. Entre outras medidas, precisamos manter uma campanha contínua de educação sanitária e de saúde pública. O Sistema FAEP dá todo o suporte para que a Adapar possa executar essa e outras medidas necessárias”, declarou.
A avaliação é compartilhada por pesquisadores que acompanham o tema em âmbito nacional.
Para a professora Elaine Maria Seles Dorneles, da Universidade Federal de Lavras (UFLA), cada Estado precisa compreender suas particularidades e construir estratégias adequadas à própria realidade.
“Pensar apenas na vacinação não é suficiente para alcançar a erradicação. É preciso ter outras ferramentas que venham ajudar”, ressaltou.
Segundo a pesquisadora, a vigilância ativa, a modernização das normas sanitárias e o acompanhamento permanente das áreas mais vulneráveis precisam integrar qualquer plano de combate à doença.
Fronteiras abertas ampliam preocupação
Embora o Paraná seja considerado referência nacional em defesa agropecuária, a reabertura do trânsito de animais provenientes de outros Estados tem aumentado a atenção das autoridades sanitárias.
O diretor-presidente da Adapar, Otamir Cesar Martins, destacou que o Paraná possui iniciativas pioneiras, inclusive na produção de insumos para diagnóstico da doença, mas reconheceu que ainda existem desafios importantes.
“Temos o laboratório da Tecpar desenvolvendo um antígeno para fornecer a todo o país. Porém, seguimos preocupados, em especial com o gado de corte, pelas fronteiras que voltaram a abrir a animais de outras unidades federativas. As mais críticas são Mato Grosso e Mato Grosso do Sul”, afirmou.
Para ele, além do reforço nas ações sanitárias, é necessário tornar os processos mais modernos e menos burocráticos.
“Precisamos modernizar e desburocratizar esse processo”, acrescentou.
Hoje, a meta estadual é ampliar a cobertura vacinal para pelo menos 80% dos animais. O Paraná foi o primeiro Estado brasileiro a tornar obrigatória a vacinação contra a brucelose.
Desafio nacional
Mesmo após décadas de políticas de controle, a erradicação da doença continua sendo um desafio para a pecuária brasileira.
Maria Goretti Borcath, representante da Superintendência Federal de Agricultura do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) no Paraná, reconhece os avanços obtidos nas últimas décadas, mas avalia que ainda há espaço para aperfeiçoamentos.
“Em 25 anos de Programa Nacional de Controle e Erradicação da Brucelose e da Tuberculose Animal, muitas foram as conquistas. Mas reconhecemos que existem pontos que podem ser melhorados”, afirmou.
Outro problema apontado pelos especialistas é a dificuldade de acesso às vacinas em determinadas regiões.
Segundo Elaine Dorneles, falhas na distribuição comprometem a confiança dos produtores e enfraquecem os resultados dos programas sanitários.
“O desabastecimento e a distribuição irregular comprometem, inclusive, a confiança do produtor no programa”, alertou.
Ela também destacou o protagonismo do Paraná na cadeia pecuária nacional.
“A cadeia do Paraná é muito importante, organizada e tem força política que pode incentivar outros Estados. O que o setor do Paraná faz é replicado”, concluiu.
A expectativa é que o grupo de trabalho apresente ainda neste mês um conjunto de medidas concretas para acelerar o combate à doença. O desafio é grande, mas o setor produtivo avalia que a experiência acumulada na erradicação da febre aftosa pode servir de caminho para uma nova conquista sanitária da pecuária paranaense.



















