Curitiba, PR – Empresas flagradas vendendo agrotóxicos de forma irregular no Paraná estão bancando, por meio de multas convertidas pelo Ministério Público estadual, um projeto-piloto de monitoramento de defensivos em hidropônicos no Paraná. A iniciativa começa em agosto na Região Metropolitana de Curitiba (RMC) com 30 agricultores selecionados pela Ceasa e pela Agência de Defesa Agropecuária do Paraná (Adapar), que coordena o programa.
O método é inédito no estado por dois motivos. Primeiro, porque ataca um ponto cego da fiscalização: a produção hidropônica — cultivo de vegetais em estufa com água e nutrientes, sem solo — cresceu rápido no Paraná nos últimos anos, mas o controle sobre o uso de defensivos nesse sistema ainda é irregular e fragmentado. Diferente do plantio convencional, onde o solo funciona como filtro natural, na hidroponia qualquer resíduo químico aplicado incorretamente vai direto para a água que a planta absorve. O risco de contaminação é maior, e a tolerância, menor. Segundo, porque financia a solução com o dinheiro de quem descumpriu a lei.
A engenharia financeira do projeto é o seu traço mais original. Os recursos saem de empresas autuadas em inquérito civil do Ministério Público do Paraná por comercializar defensivos agrícolas de forma irregular. Em vez de as multas virarem receita genérica do caixa estadual, o MP carimbou a verba para custear um programa coordenado de prevenção. A punição vira investimento direto na segurança alimentar — e o consumidor final é quem mais ganha.
O projeto tem três etapas. Na primeira, entre agosto e outubro, o Instituto de Tecnologia do Paraná (Tecpar) coleta amostras das colheitas dos 30 produtores selecionados e mede os níveis de resíduos de defensivos nas espécies cultivadas. Com o diagnóstico em mãos, a Adapar e o Sistema FAEP desenham um plano de correção individualizado por propriedade.
Na segunda etapa, os produtores passam por oficinas de capacitação técnica promovidas pelo Sistema FAEP, abertas também aos agrônomos que prestam assistência nas propriedades. O treinamento cobre boas práticas agrícolas, manejo correto de defensivos e adequação às normas sanitárias — e pode se estender até o início de 2027.
“A capacitação é o caminho mais eficiente para garantir uma produção segura, sustentável e de alta qualidade. Ao apoiar essa iniciativa, o Sistema FAEP reforça seu compromisso de levar conhecimento técnico ao produtor”, afirma Ágide Eduardo Meneguette, presidente do Sistema FAEP.
Na terceira etapa, uma nova bateria de análises do Tecpar verifica o quanto os agricultores incorporaram o treinamento na rotina da lavoura. Quem comprovar conformidade com as normas de qualidade recebe um selo da Adapar — um atestado visível ao consumidor de que aquele alimento foi produzido dentro dos padrões.
“É um trabalho preventivo. O agricultor vai ter a oportunidade de receber um selo da Adapar se estiver em conformidade com as normas de qualidade. Esse selo atesta ao consumidor que aquele alimento foi produzido com boas práticas agrícolas”, explica Leandro Dadalt, chefe da Divisão de Controle de Agrotóxicos da Adapar.
O selo não é apenas um distintivo. Para o produtor, significa acesso diferencial a mercados mais exigentes — supermercados, redes de distribuição e consumo institucional que cada vez mais pedem rastreabilidade. Para o consumidor, é a garantia de que o vegetal hidropônico na prateleira passou por controle laboratorial e segue regras definidas por um órgão de defesa agropecuária.
Se o modelo se mostrar eficaz na RMC, o projeto-piloto pode ser expandido para outras regiões do estado. O Paraná é um dos maiores produtores de hortaliças do país, e a hidroponia responde por uma fatia crescente desse mercado. O que começa como uma experiência com 30 agricultores pode se tornar política pública de referência para o setor.



















