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Carta aberta à Conferência de São Vicente de Paulo em Colinas do Tocantins.

Por Rafael Clabonde
10/04/2021 - 03:13
em Geral
Foto: Reprodução

Foto: Reprodução

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Por Marco Roberto de Souza Albuquerque.

Há países que não se lançaram à compra de vacinas porque não tem dinheiro para isso; mas esse não é o nosso caso

Colinas do Tocantins, 2021: sábado da segunda semana da Quaresma

(06 de março).

Meus irmãos: consócias e confrades caríssimos.

Pax Domini Vosbiscum.

Partilho convosco uma reflexão que me ocorreu depois de assistir à alocução de nosso Presidente, durante a cerimônia, realizada ontem em Goiás, de inauguração de um terminal da ferrovia Norte-Sul [trecho São Simão (GO)–Estrela d’ Oeste (SP)] – acerca das medidas estaduais e municipais em favor da contenção da circulação de pessoas com vistas à diminuição do contágio do SARS-COV2 (o vírus responsável pela atual pandemia).

Devo dizer que minha primeira reação foi indignar-me, uma vez que o Governo federal, desde o princípio de nossa crise sanitária, vem reiteradamente “remando contra a corrente”. Verdade é que, no início da pandemia, todos os países tiveram muita dificuldade em aplicar as medidas de desmobilização do ir e vir de suas respectivas populações. Recordo-me de uma campanha da prefeitura de Milão (primeiro epicentro da crise na Europa) que, taxativamente, exclamava: “Milão não pode parar!”. Mas, quando a Itália foi varrida pelo contágio, e seus habitantes levaram seu sistema de saúde à absoluta saturação, não só o prefeito voltou atrás (obedecendo pontualmente às recomendações sanitárias impostas a todo o país), senão também reconheceu o erro de sua postura inicial.

Ao longo do ano passado, mesmo países a que se costuma associar predicativos como “socialmente mais maduros” ou “culturalmente mais civilizados”, também tiveram dificuldades em implementar as necessárias restrições sanitárias. Fixe-se aqui, como exemplo, o apelo enfaticamente emocionado da chanceler Angela Merkel a seus concidadãos: implorava ela aos alemães que se privassem dos contatos sociais e aglomerações durante as festividades de fim de ano.

E mesmo Boris Johnson, primeiro-ministro britânico, que, no início da crise, optou por salvaguardar a economia (buscando menoscabar a importância das medidas restritivas ou intentando relativizar sua aplicação) – não tardou a voltar atrás: tão logo reconhecera haver contraído a Covid-19, passou a solidarizar-se com a implementação dos incentivos à desmobilização da circulação e aglomeração de pessoas. Se os britânicos – especialmente os mais jovens – mostraram-se desrespeitosos, especialmente por ocasião das festas de fim de ano, não foi por se sentirem encorajados pelas autoridades.

Entre os países com preeminência econômica internacional, somente os Estados Unidos amargaram dificuldades em mobilizar a adesão de sua população em prol da adoção dos cuidados sanitários, não só por conta de sua grande população (quase trezentos e trinta milhões de habitantes), senão também pelas declarações e atitudes de seu então presidente, o qual, com vistas a manter-se no poder à força da propagação de teorias conspiratórias e do fortalecimento de agremiações paranóides (como as de adeptos de seitas seculares, tais como a “Q Anon”), não poupou esforços por ridicularizar as iniciativas de contenção da disseminação da doença por meio das restrições à circulação de pessoas.

Todavia, o mais grave, no caso do governo federal brasileiro, foi sua incúria num momento decisivo: o investimento na aquisição de vacinas. Nesse ponto, nem o governo de um homem moralmente reprovável, como Donald Trump, ousou recalcitrar. Como se sabe, no ano passado, diferentes laboratórios e centros de pesquisas dedicaram-se ao desenvolvimento de imunizantes: foi a primeira experiência internacional de um empreendimento científico- industrial em escala verdadeiramente globalizada. Por isso, em tempo recorde, diferentes imunizantes já estavam em via de aprovação para seu efetivo uso em massa.

E, como não se cansavam de alertar os especialistas (inclusive no Brasil), aquele era o momento de adquirir as doses: claro, isso implicava certo risco (mais ou menos como comprar uma safra de soja quando ainda na fase de plantio); contudo parâmetros internacionais de acompanhamento técnico-científico, referendados por grandes universidades e centros de pesquisa, ofereciam diuturnamente meios de acompanhar a confiabilidade dos procedimentos desenvolvidos na fabricação dos imunizantes.

E mais: tornou-se consenso, entre as autoridades médicas e científicas, que o mais acertado aos governos seria adquirir uma “cesta de imunizantes” uma vez que nenhuma indústria farmacêutica teria condições técnico-operacionais de, sozinha, atender à demanda por seu produto. Tudo isso somado tornaria a aquisição mais barata e garantiria uma imunização o mais rápida possível, evitando, como agora, o constrangimento de ficar à espera de novos lotes, uma vez que já se comprou o que havia disponível. Para ter-se uma ideia, só o Canadá comprou uma quantidade de doses que corresponde ao quíntuplo de sua população (cinco doses por habitante). Reino Unido, Alemanha, Estados Unidos e outras nações industrializadas fizeram o mesmo.

Verdade é que há países que não se lançaram à compra de vacinas porque não tem dinheiro para isso; mas esse não é o caso de nosso país, cuja riqueza, como sabemos, nos põe entre as dez nações mais ricas de todo o planeta.

Portanto, como dizia no início, assistir ao nosso Presidente da República reiterar um discurso equivocado, que culmina uma série de atitudes e pronunciamentos que vem colaborando diretamente para o Brasil estar “na contramão da história”, uma vez que vive um momento de

aceleração dos contágios e mortes justamente quando, no restante do mundo, já se avizinha o fim da pandemia (pois os dados, no conjunto dos outros países, é o de desaceleração) – despertou em mim, não indignação (corrijo-me), e sim ira: senti ódio por esse homem.

No entanto, recordando-me dos ensinamentos de HaRabbuni (“o Mestre”), especialmente a parte enfática de suas palavras, que assumem o imperativo de mitzvot (“mandamentos”), retrato-me publicamente diante de Nosso Senhor: odiar a Jair Bolsonoro ou hostilizar a seus apoiadores não é uma conduta cristãmente aceitável – e por isso não existencialmente a mais eficaz. Perdoar a nossos inimigos ou suportar-lhes as hostilidades e violências, por exemplo, não são iniciativas que se circunscrevem ao âmbito do “bom-mocismo”: são atitudes EFICIENTES para a superação de conflitos e a não propagação de discórdias e violências. Creio mesmo – e a Razão, a Sensibilidade, a Experiência e a História (os quatros Guardiões de minhas experiências de fé) parecem-me afiançar semelhante crença – que tais atitudes sejam as únicas verdadeiramente eficazes no que tangem ao nosso empenho por dar continuidade à obra iniciada por HaRabbuni: construir, entre nós, neste plano temporal, o Reino de Deus, que ademais de alicerçar-se na Justiça (Mt 6, 33), é a herdade dos mansos e dos misericordiosos (Mt 5, 4.7).

Logo, confrades e consócias, irmãos meus caríssimos, ao fim e ao cabo, de que valem estas linhas, além de um ensejo para o desabafo de minha contrariedade e a confissão de meu pecado? Para que tenha valido minimamente a pena o me terdes lido até aqui, exorto-vos a orar e agir em favor da Vida:

  1. Sejamos solidários às iniciativas governamentais de desmobilização da circulação de pessoas: – Não marquemos reuniões com amigos neste e nos próximos fins de semana; evitemos práticas esportivas, como jogos em quadras, porque sabemos que os praticantes não usam máscara durante as partidas; em vez de nos reunirmos em bares, restaurantes e congêneres, lancemos mão dos serviços de entrega; se é imperioso fazer compras, que vá apenas um membro da família, e munido de uma lista do que efetivamente precisa comprar a fim de não se demorar senão o estritamente necessário. Quanto a ir, por exemplo, às Missas ou celebrações da Palavra, desde que não haja suspeita de contágio, não posso recomendar mais do que já temos feito, e bem: mantenhamos as medidas que exemplarmente tenho constatado em nossa paróquia.
  2. Sejamos intransigentes com a propagação de notícias falsas e comentários irresponsáveis: – Não disseminemos vídeos nem áudios que corroborem teorias conspiratórias nem que disseminem dúvidas infundadas sobre a segurança ou eficácia dos imunizantes. Fazer-se vacinar não é uma questão de foro íntimo ou de decisão soberanamente individual: cada pessoa que, podendo e devendo imunizar-se, não o faz – abre “brechas” na barreira de imunização, de modo que dificulta a contenção da propagação do patógeno. Veja-se que a tão propalada “imunidade de rebanho” se mostrou uma falácia, pois – como houve uma insuficiente adesão aos cuidados sanitários em prol do distanciamento social (principalmente após as últimas eleições municipais, “emendando” o relaxamento com os protocolos por conta das festas de fim de ano) – acelerou-se o processo de mutação do vírus, de modo que (como se vê em minha terra natal: Manaus) os índices de reinfecção chegaram a níveis de desespero social.
  3. Sejamos defensores públicos da imunização: – Em todos os meios que estejam à nossa disposição, pressionemos nossas autoridades a lutar pela imunização em massa de nossa população – inclusive estabelecendo a devida racionalidade na distribuição de doses: escalonando, com transparência política e racionalidade administrativa, os grupos prioritários (idosos, portadores de doenças crônicas agravadas com o contágio do SARS-COV2, profissionais da saúde, profissionais da educação, etc.). É uma vergonha um país como o Brasil, paradigma de excelência na imunização de sua população a partir da década de oitenta, hoje veicule, inclusive pela boca de seu Presidente da República, negacionismos que desencorajam a adesão às campanhas de vacinação – e, o que é mais grave, não apresente um efetivo plano de imunização à altura da urgência exigida pelo enfrentamento da pandemia.

Por fim, caríssimos, é preciso que eu encerre estas considerações, que já se fazem demasiado longas para a atenção geralmente dispensada em publicações feitas nas redes sociais – deixando claro que não sou indiferente à defesa da “saúde da economia”. Trabalho num colégio particular e sou sensível aos esforços de seus proprietários por manter o estabelecimento aberto e, assim, garantir os empregos de seus funcionários – inclusive buscando honrar pontualmente o pagamento dos salários. Vivemos numa sociedade de trocas: isso não é uma ideologia, é uma realidade.

E registro, como forma de reconhecimento, seja pelo investimento na aquisição de produtos, materiais e equipamentos necessários à descontaminação de ambientes e à proteção de empregados e clientes, seja pelo incentivo diuturno ao respeito dos protocolos de segurança sanitária (extensivo a todos: funcionários, professores e alunos) – que sou testemunha da responsabilidade com que a hierarquia de direção e coordenação das atividades do colégio onde trabalho, vem conduzindo a viabilidade das aulas presenciais, sempre respeitando a escolha dos pais e responsáveis que optem por manter seus filhos ou tutelados no regime de ensino- aprendizagem à distância.

Ainda que eu almeje (aliás, como a maioria das pessoas, senão todas) que o aspecto econômico de nossa civilização ganhe configurações e contornos mais justos, ampliando o acesso ao sistema social de oportunidades – acesso esse que se vem afunilando e hierarquizando à medida que o processo de globalização se vai ampliando e consolidando, a mim não me parece que hostilizar a realidade mercantil de nossas relações de produção e circulação de riquezas seja o caminho mais oportuno e frutuoso.

No entanto, neste momento, não é nem mesmo ECONOMICAMENTE SUSTENTÁVEL favorecer a propagação da Covid-19: o colapso no sistema de saúde, ademais da perda de vidas, também implica o aumento de custos com insumos e equipamentos. Afinal, a “lei da oferta e da procura” também incide sobre a produção e o consumo de produtos hospitalares. Inflar as UTIs, por

exemplo, forçando os estabelecimentos médico-hospitalares a comprar, e de modo imprevisto, cilindros de oxigênio e máquinas para a manutenção da vida dos internados – só aumenta os déficits nas contas dessas instituições.

E os custos de seguridade social advindos dos pagamentos de pensões e aposentadorias por invalidez por conta das mortes e sequelas advindas do contágio da Covid-19? Não é um custo que vai onerar as contas públicas?

Nem vou deter-me mais em considerações que tais: já estamos no plano do óbvio. Até porque outros, com mais propriedade técnica e intelectual do que eu, têm demonstrado a INVIABILIDADE ECONÔMICA de desconsiderar as medidas de controle social. Não é por falta de informações nem de alertas que temos visto e vivido os tristes resultados de uma negligência motivada por políticos e empresários: a razão de semelhante conduta (imoral, para dizer o mínimo) reside em outro ponto do espectro psíquico de tais homens, que não sua faculdade cognoscente.

Não vou despedir-me sem, antes, convidar-vos, minhas consócias e confrades, a manter, não só na luta pela superação de nossa atual (e gravíssima) crise sanitária, senão também na suportação e enfrentamento das agruras econômicas que já nos acometem, mas se estenderão mesmo quando a pandemia for sobrepujada (porque ela será: não haja dúvida) – condutas consoantes nossa condição de servos de um Deus que, ao longo de toda a história da Revelação, vem inspirando aos que nEle creem pensamento e ações adversos à mútua hostilidade e aos sentimentos de revanchismo e ressentimento.

Portanto não nos empenhemos em açodar discordâncias partidárias nem em insuflar polarizações ideológicas: aderir aos protocolos de distanciamento social e desmobilização da aglomeração de pessoas, bem como reivindicar a imunização de nossa população, não é uma questão partidária nem ideológica: todos os países que têm vencido o SARS-COV2 – e não são poucos, porque, como já disse, com exceção quiçá só do Brasil, as demais nações (pelo menos as de maior notoriedade econômica ou relevância demográfica) já vislumbram o fim da pandemia – devem seu êxito justamente à tentativa de seguir (apesar das sabidas dificuldades) as medidas restritivas e de priorizar os esforços por imunizar sua população.

Que o Ruach Hakodesh (o Espírito Santo), como o qual HaBoer (o Criador) renova e revivifica sua Criação, não nos deixe de inspirar, não só respeito à Vida (a começar pelos que vivem com mais privação e menos dignidade), senão também confiança no conhecimento científico e nos procedimentos sanitários comprovadamente respaldados pela razão e pela pesquisa empírica. Deixo, a respeito, a exortação do grande sábio israelita, e homônimo de Nosso Senhor, Yehoshua Ben Sirah:

“Filho, não te revoltes na tua doença, mas reza a Adonai, e ele te curará. Evita as faltas, conserva as mãos puras, purifica o coração de todo o pecado (…) Depois dá lugar ao médico, porque Adonai também o criou: não o afastes de ti, porque dele tens necessidade.” (Eclo, 38, 9-10.12.)

Ora, meus irmãos caríssimos, se esse célebre Chacham (“Sábio”) se deu o trabalho de escrever todo um capítulo (o trinta e oito do Livro do Eclesiástico) para exortar seus contemporâneos a dar ouvidos à ciência médica de seu tempo (século II a. C.), é porque não é de hoje que pessoas põem em risco a própria vida e a dos que os cercam por se aferrarem a propalar negacionismos e outras formas de disseminação da desinformação e do ludíbrio.

Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo.

Shabbath Shalom.

Atenciosamente,

Marco Roberto de Souza Albuquerque.

(https://www.youtube.com/watch?v=YK5JLiE2ip0)

____________________________________________

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor (a) e não refletem necessariamente a política editorial do Fronteira Livre

Tags: Geral
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