Grupo nazista tinha planta do Planalto e planejava bombas em debate

Grupo nazista tinha planta do Planalto e planejava bombas em debate

Ciberlab do Ministério da Justiça interceptou conversas de 600 suspeitos que trocavam guias de bombas e plantas de prédios públicos.

Sede do Poder Executivo em Brasília teve plantas baixas compartilhadas em grupo neonazista no Telegram. Foto: Divulgação
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Brasília, DF – Uma operação coordenada pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública desarticulou uma célula nazista que utilizava a plataforma Telegram para planejar atentados terroristas em larga escala no Brasil. A investigação, conduzida pelo Laboratório de Operações Cibernéticas (Ciberlab), revelou que o grupo possuía plantas baixas do Palácio do Planalto, do Congresso Nacional e do Supremo Tribunal Federal (STF), além de arquitetar um ataque a bomba no prédio onde seria realizado o debate presencial do segundo turno das eleições presidenciais para assassinar candidatos.

As ações ostensivas resultaram no cumprimento de mandados de busca e apreensão em municípios espalhados pelos estados de São Paulo, Santa Catarina, Paraná, Rio Grande do Sul e Pernambuco. Todo o material eletrônico, incluindo computadores e telefones celulares recolhidos nos endereços dos suspeitos, passará por perícia técnica.

De acordo com o monitoramento do Ciberlab, a rede criminosa reunia cerca de 600 integrantes em um canal aberto no Telegram. O espaço funcionava como uma triagem: os usuários mais assíduos e radicais eram convidados a migrar para uma comunidade restrita, composta por 46 pessoas, que trazia a imagem do ditador Adolf Hitler como foto de capa. Nesse ambiente fechado, os membros trocavam tutoriais para a confecção de artefatos explosivos e detalhavam a execução dos crimes.

A investigação apurou que os integrantes eram homens com idades entre 19 e 31 anos que não se conheciam pessoalmente. Nas mensagens interceptadas, o grupo debatia estratégias de ataque. Um dos usuários defendeu que o grupo deveria “listar os principais alvos para garantir o sucesso da revolução”, enquanto outro ressaltou que “muito dificilmente nossos inimigos estão concentrados em um único lugar”.

Diante disso, o plano traçado visava “explodir o edifício do debate onde os eleitos do 2º turno irão debater”, além de investidas contra a sede do Poder Executivo federal. Segundo todas as pesquisas de intenção de voto divulgadas para o pleito presencial, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva liderava a disputa com mais chances de figurar no eventual segundo turno.

Plantas dos Poderes e monitoramento de inteligência

As conversas eram acompanhadas em tempo real pela equipe do Ciberlab, unidade de acesso restrito mantida pelo Ministério da Justiça para a identificação de redes terroristas, neonazistas, racistas e de perfis falsos dedicados a práticas criminosas na internet.

O delegado Maurício Coelho, da Divisão de Inteligência da Polícia Civil do Distrito Federal, confirmou que os investigados obtiveram o mapeamento estrutural das sedes dos Três Poderes e dos ministérios. “Chegaram, inclusive, a compartilhar a planta baixa do Palácio do Planalto, para mostrar lá: ‘A planta deles é assim, a gente pode entrar por aqui, sair por aqui’”, afirmou o delegado, destacando a gravidade do cenário: “A gente acredita que eles levariam [o plano] à frente. E a nossa teoria aqui é que a gente não vai pagar para ver”.

O ministro da Justiça e Segurança Pública, Wellington César Lima e Silva, reforçou que a intervenção policial ocorreu para neutralizar uma ameaça real e iminente. “Não eram práticas inocentes. O que estava ali sendo engendrado eram atentados sérios”, pontuou o ministro.

Críticas às plataformas digitais e cenário político

A desarticulação da célula reacendeu o debate institucional sobre a regulação das redes sociais e a responsabilidade de aplicativos de mensagem no combate a crimes de ódio. O ministro Wellington César ressaltou que a internet permanece como terreno para manifestações fascistas e que o país não avançou na legislação aplicável após intensas campanhas promovidas por empresas de tecnologia contra o Projeto de Lei de Combate às Fake News.

O deputado federal Orlando Silva (PCdoB-SP), que atuou como relator da proposta na Câmara dos Deputados, classificou as revelações como um episódio “gravíssimo”. “Os criminosos tinham até a planta do Palácio do Planalto, onde intencionavam colocar bombas. É inaceitável a omissão cúmplice do Telegram”, declarou o parlamentar, acrescentando que “o bolsonarismo abriu o bueiro em que se escondiam esses vermes. É preciso derrotá-los de uma vez por todas!”.

Historicamente, o Telegram tem utilizado o argumento de defesa irrestrita da liberdade de expressão para resistir ao cumprimento de decisões judiciais no Brasil, tendo acumulado sanções financeiras anteriores por descumprir ordens de bloqueio de canais sob investigação.

O plano identificado pelo Ciberlab guarda semelhança com antecedentes recentes registrados no país. Em 2022, investigações apontaram a articulação de um grupo ligado ao ex-presidente Jair Bolsonaro que planejou atos golpistas prevendo o assassinato do presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva, do vice-presidente Geraldo Alckmin e do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal.


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