BRASÍLIA, DF — O ex-comandante da Aeronáutica, tenente-brigadeiro Carlos Baptista Junior, detalha em livro os bastidores das pressões exercidas pelo ex-presidente Jair Bolsonaro para a efetivação de um golpe de Estado no Brasil, bem como a firme resistência da maioria da cúpula das Forças Armadas para impedir a ruptura democrática. A obra intitulada “Eu disse NÃO: uma trincheira antigolpista”, publicada pela Autêntica Editora, tem lançamento marcado para setembro e revela como o autodenominado papel institucional das Forças impediu a consumação das investidas antidemocráticas no país.
Alertas de prisão e divisões no comando das Forças
No livro, o ex-comandante da Força Aérea Brasileira (FAB) narra as reuniões estratégicas promovidas por Jair Bolsonaro no Palácio do Alvorada e no Ministério da Defesa. Segundo o relato, o ex-presidente apresentou à cúpula militar relatórios com alegações falsas do Instituto Voto Legal sobre as urnas eletrônicas e minutas de decretos que previam a anulação do pleito de 2022, além da prisão de autoridades do Supremo Tribunal Federal (STF) e do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
As declarações de Baptista Junior, somadas aos depoimentos do general Freire Gomes (então comandante do Exército), integraram as investigações judiciais que apuravam a trama golpista. O texto relata o momento em que Freire Gomes advertiu abertamente o então presidente da República de que ele receberia voz de prisão caso prosseguisse com os planos de subversão da ordem constitucional. Em contrapartida, Baptista Junior confirma que o almirante Almir Garnier, comandante da Marinha à época, aderiu integralmente à proposta de golpe e colocou tropas à disposição de Bolsonaro.
Discurso pós-eleição e incitação aos atos extremistas
Baptista Junior explica que a decisão de publicar a obra amadureceu após a divulgação de dados da pesquisa AtlasIntel, na qual cerca de 40% dos entrevistados manifestaram desconfiança na vitória eleitoral de Luiz Inácio Lula da Silva, com 36,8% defendendo abertamente uma intervenção militar. “Juntei todos esses fatos e decidi dar minha contribuição para que os acontecimentos fossem disponibilizados mais claramente a toda a população e, principalmente, às gerações futuras. Concluí que este livro seria a melhor opção”, argumenta o militar.
Um dos trechos da obra recupera o ambiente no Palácio do Alvorada no dia 1º de novembro de 2022, dois dias após o segundo turno das eleições. O oficial relembra o momento em que assessores e ministros redigiram um pronunciamento e sugeriram que os comandantes das Forças acompanhassem o presidente na declaração pública. A cúpula militar recusou o convite para permanecer na biblioteca do palácio, visando preservar a neutralidade das Forças Armadas.
Ladeado por aliados, parlamentares, pelo filho Eduardo Bolsonaro e pelo general Walter Braga Netto, Jair Bolsonaro leu um discurso de dois minutos. No texto lido aos jornalistas, o ex-presidente declarou: “Quero começar agradecendo os 58 milhões de brasileiros que votaram em mim, no último dia 30 de outubro. Os atuais movimentos populares são fruto de indignação e sentimento de injustiça de como se deu o processo eleitoral. As manifestações pacíficas sempre serão bem-vindas, mas os nossos métodos não podem ser os da esquerda, que sempre prejudicaram a população, como invasão de propriedades, destruição de patrimônio e cerceamento do direito de ir e vir.”
Bolsonaro acrescentou na ocasião que a direita havia surgido de forma consolidada no país e ressaltou a atuação de parlamentares alinhados à pauta defensora de valores religiosos e da família. “Mesmo enfrentando todo o sistema, superamos uma pandemia e as consequências de uma guerra. Sempre fui rotulado como antidemocrático e, ao contrário dos meus acusadores, sempre joguei dentro das quatro linhas da Constituição. Nunca falei em controlar ou censurar a mídia e as redes sociais. Enquanto presidente da República e cidadão, continuarei cumprindo todos os mandamentos da nossa Constituição”, afirmou o ex-mandatário no pronunciamento reproduzido na obra.
Baptista Junior analisa que a fala do ex-presidente evitou desmobilizar os manifestantes que bloqueavam rodovias e acampavam em frente a quartéis por todo o país. O ex-comandante define a declaração não como um ponto final, mas como “reticências potencialmente perigosas” que buscavam transferir a responsabilidade da crise política aos militares. O oficial conclui a narrativa lembrando o início de sua gestão, em março de 2021, ressaltando os desafios de manter a postura institucional da Força Aérea em meio à escalada de tensão política no país.




















