Aposentados protestam contra crise das aposentadorias na Argentina

Aposentados protestam contra crise das aposentadorias na Argentina

Manifestantes denunciam perda do poder de compra da renda mínima e desmonte do atendimento médico básico no contexto da crise das aposentadorias na Argentina.

Manifestantes protestam em Buenos Aires contra cortes previdenciários. Foto: Reprodução.
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BUENOS AIRES, Argentina — Uma onda de protestos voltou a tomar as ruas em frente ao Congresso Nacional contra a política econômica e a repressão do governo argentino, em meio a um cenário de crescente mobilização social referente à crise das aposentadorias na Argentina. Milhares de manifestantes, convocados por centrais sindicais, movimentos sociais e partidos políticos, marcharam para denunciar os sucessivos cortes na Previdência Social, o arrocho nas aposentadorias e o avanço de medidas de austeridade fiscal vinculadas aos acordos com o Fundo Monetário Internacional (FMI).

A mobilização semanal ocorreu sob forte aparato policial. Dados compilados pelo Centro de Estudos Jurídicos e Sociais (CELS) apontam que, ao longo de 43 operações de segurança, as forças estatais utilizaram gás lacrimogêneo, spray de pimenta, cacetetes e jatos de água contra os manifestantes — em sua maioria idosos —, resultando em mais de 500 pessoas feridas. As operações policiais somaram um custo estimado de dois bilhões de pesos (cerca de R$ 6,8 milhões). “Para a repressão não há motosserra”, criticou Victoria Darraidou, coordenadora do CELS, ao destacar o contraste entre o corte de gastos públicos e o financiamento de ações de contenção nas ruas.

Além de rejeitarem o arrocho financeiro, as entidades protestam contra o sucateamento do Instituto Nacional de Serviços Sociais para Aposentados e Pensionistas (Pami) e a interrupção no fornecimento gratuito de medicamentos essenciais. Outro ponto central das reivindicações é a oposição à reforma trabalhista e ao Fundo de Assistência Laboral (FAL), mecanismo acusado pelos trabalhadores de desviar recursos do sistema previdenciário e comprometer a sustentabilidade das aposentadorias futuras.

Protestos combatem crise das aposentadorias na Argentina

A permanência das manifestações tem sido apontada pelos dirigentes como elemento crucial de resistência popular. Olivia Ruiz, secretária de Previdência Social da Central de Trabalhadores da Argentina Autônoma (CTA-A), enfatizou a relevância da mobilização contínua. “Não abandonar as ruas, mesmo que uma vez por semana, vai gerando a consciência necessária para que a reivindicação não seja somente dos aposentados e pensionistas, mas que envolva toda a classe trabalhadora”, afirmou.

Olivia Ruiz também pontuou que o bônus extraordinário pago pela Administração Nacional da Previdência Social (Anses) não passa por reajustes desde 2024 e denunciou o fim da moratória previdenciária expirada em março de 2025. “A cobertura integral de medicamentos foi suspensa, os agendamentos médicos para todos os tipos de atendimento foram adiados e acabou a possibilidade de pagar os anos que faltam para se aposentar ao atingir a idade de aposentadoria”, declarou. A dirigente chamou a atenção para o impacto social severo das medidas, associando o desmonte da assistência pública ao aumento do sofrimento e de mortes por desassistência, e defendeu a negação do voto à atual gestão para a construção de um projeto progressista, público e distributivo.

A situação econômica dos aposentados reflete um cenário de extrema vulnerabilidade. Segundo dados da Anses, 65% dos 7,9 milhões de beneficiários do sistema (cerca de 5,1 milhões de pessoas) receberam a aposentadoria mínima de $ 411.989,33 (R$ 1.411), acrescida de um bônus de $ 70.000 (R$ 239,80), somando $ 481.989,33 (R$ 1.651). O valor se mostra insuficiente frente ao custo de vida, no qual produtos básicos como o quilo de café ultrapassam a marca de $ 60 mil (R$ 205,00).

No primeiro trimestre do ano, os repasses previdenciários federais registraram uma queda real de 41,3% em relação ao mesmo período do ano anterior. A interrupção de transferências financeiras gerou um endividamento acumulado de 500 bilhões de pesos (R$ 1,72 bilhão) com prestadores de serviço, acarretando o adiamento de cirurgias, suspensão de tratamentos oncológicos e sobrecarga de 30% na rede hospitalar das províncias. Em contrapartida, declarações do ministro da Saúde, Mario Iván Lugones, geraram forte reação ao classificar o envelhecimento da população atendida pelo Pami — que inclui cerca de um milhão de pessoas acima dos 80 anos — como “um fardo muito grande”.

As paralisações nos pagamentos afetaram diretamente o fornecimento de remédios nas farmácias. Estima-se que uma em cada quatro receitas médicas deixou de ser aviada no país por razões financeiras, afetando principalmente tratamentos contínuos de doenças crônicas e oncologia.

Sindicatos enfrentam crise das aposentadorias na Argentina

No âmbito produtivo e empregatício, as centrais denunciam um processo acelerado de desindustrialização. Jorge Sola, integrante da diretoria da Confederação Geral do Trabalho (CGT), apontou o impacto direto das políticas macroeconômicas na atividade econômica. De acordo com Sola, “foram perdidos mais de 300 mil empregos e fechadas mais de 23 mil pequenas e médias empresas”, quadro agravado pelo abandono do incentivo à produção industrial e pelo crescimento da informalidade.

A articulação entre as diferentes centrais sindicais busca ampliar a pressão social e institucional. Hugo “Cachorro” Godoy, secretário-geral da CTA-A, elogiou a persistência dos manifestantes e defendeu a convocação de uma greve nacional para enfrentar as reformas. “Os aposentados são um exemplo da dignidade do nosso povo e esta etapa do plano de luta liderada pelas três centrais vem se inspirar no seu exemplo e nos unir a eles para que nos guiem nesta tarefa”, frisou Godoy.

No campo parlamentar, Hugo Yasky, secretário-geral da CTA-T e deputado federal, alertou para os compromissos assumidos pelo Executivo argentino junto ao FMI de privatizar o sistema de previdência social. Yasky destacou que, sem resistência, “os argentinos estariam vivendo a contagem regressiva para o fim da aposentadoria pública e solidária”. O parlamentar também condenou a redução do programa “Remediar” — que teve sua cesta de medicamentos gratuitos cortada de 79 para apenas três itens básicos — e o desmantelamento do programa “Voltar ao Trabalho”, que atendia 900 mil pessoas com repasses mensais de 78 mil pesos [FONTE A CONFIRMAR para o total atualizado de cortes], definindo a medida como “um ataque nefasto” contra a população em situação de indigência.

A aliança sindical conta também com a participação ostensiva do setor de transportes e de serviços públicos. Pablo Moyano, secretário-geral adjunto do Sindicato dos Caminhoneiros e liderança da CGT, afirmou que o acompanhamento das mobilizações é uma responsabilidade direta das entidades organizadas. “Esperamos que este seja o início da derrota deste governo que está nos causando tanto dano. Que seja o aprofundamento de uma resistência”, declarou Moyano durante o ato.

Por sua vez, Daniel Catalano, presidente da ATE Capital e secretário-geral adjunto da CTA-T, chamou atenção para os impactos regionais do encerramento de programas sociais e dos cortes previdenciários nas feiras e no comércio de bairro. “Esse dinheiro ia diretamente para a mercearia, para o quiosque, para a feira do bairro, e hoje não estará mais lá”, apontou Catalano, ao ressaltar a relevância dos bloqueios de rodovias promovidos em todo o país e reafirmar que a luta pela garantia de alimentação e moradia digna para os idosos continuará unificada.


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