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Carne bovina enviada pelo Brasil à China em setembro pode ser incinerada

Por Amilton Farias
09/10/2021 - 20:40
em Geral
Foto: Reprodução

Foto: Reprodução

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Cerca de 60% das 218,6 mil toneladas de carne bovina exportadas pelo Brasil em setembro, quando os embarques bateram o recorde da série histórica, podem virar cinzas, caso o governo chinês decida impedir que entrem no país as cargas enviadas após 4 do mês passado, quando os embarques foram suspensos automaticamente devido à confirmação de dois casos atípicos de mal da vaca louca em Minas Gerais e Mato Grosso. Os embarques só para o mercado chinês em setembro somaram 132,455 mil toneladas.

A estimativa é de que 130 mil a 150 mil toneladas de carne bovina estejam paradas em portos chineses ou a caminho, aguardando liberação. Embora o Brasil tenha suspendido a certificação para a exportação no dia 4 de setembro, como determina o protocolo sanitário bilateral firmado com a China, a demora na liberação de cargas nos portos brasileiros, em meio à falta de contêineres, gerou um atraso (“delay”) nos embarques do que havia sido certificado em agosto.

“Esse dado de exportação in natura mostra um retrato antigo, não é necessariamente carne que foi embarcada apenas em setembro, computa o resultado operacional completo. Foi carne provavelmente que foi inspecionada em agosto e já estava liberada no serviço de inspeção federal há mais tempo”, explica o analista de proteína animal da Safras&Mercado, Fernando Iglesias ao alertar para o risco que a situação representa.

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“Se essa carne chegar no porto, como ela não tem mais a certificação para entrar na China, o que poderia acontecer é essa carne ser considerado clandestina e ser até mesmo incinerada neste tipo de situação”, observa o analista. Outra possibilidade seria essa carne ser enviada de volta ao Brasil, o que também ocasionaria custos logísticos adicionais, além de derrubar os preços no mercado interno.

“Isso traria consequências para o resto do setor carnes e poderia gerar toda uma série de transtornos aqui no nosso mercado doméstico. A indústria teria que arcar com prejuízos grandes porque ela pagou um boi caro. Essa carne que está parada vem de um boi de R$ 315 a R$ 320 por arroba. Então, não foram operações baratas para adquirir essa matéria prima”, explica Iglesias.

De acordo com o presidente do Sindicato das Indústrias de Frigoríficos do Estado de Mato Grosso (Sindifrigo-MT), Paulo Belicanta, havia cargas com atraso de até 17 dias nos portos brasileiros. “Tinha um estoque [de certificados de exportação] já emitido muito grande e isso foi o grande diferencial desse aumento de volume, porque não houve sequer um contêiner certificado pelo Ministério da Agricultura a partir do dia 4 [de setembro]”, explica. Ele compara a situação com a frenagem de um veículo pesado. “Uma carreta, você precisa de alguma tempo para que

Como as certificações ocorreram antes da suspensão, Belicanta afirma estar seguro de que haverá a liberação dos produtos enviados à China no último mês. “O Brasil está autorizado a emitir seus certificados dos produtos produzidos dentro de um protocolo entre Brasil e China e esses produtos que estão lá, ou indo para lá, têm esse aval, essa garantia e essa segurança. E a gente tem essa tranquilidade. Apenas o que pode estar ocorrendo é uma interpretação não correta da nossa parte de algum documento ou de alguma determinação que pudessem estar esperando”, explica.

Compasso de espera

Há mais de um mês suspensa, a exportação brasileira de carne bovina para a China gera apreensão no setor. Entre as causas para a demora, Belicanta destaca a própria pandemia, uma sequência de feriados no país asiático e desafios relacionados à comunicação com as autoridades chinesas.  “Nós temos que ter a consciência de que ainda encontramos muita dificuldade nas traduções e na comunicação entre Brasil e China”, pondera o empresário ao explicar que “algumas interpretações, em alguns, momentos dão um certo delay nas operações”.

Ainda de acordo com o presidente do Sindifrigo-MT, as expectativas são de que as conversas com a China sejam retomadas a partir desda sexta-feira (8/10), quando termina o feriado no país. “A nossa expectativa é de que neste final de semana, com o término deste feriado, a gente já tenha boas notícias”, afirma Belicanta. A retomada, contudo, não resolverá a lacuna gerada por mais de 30 dias de suspensão das certificações para exportação. O impacto deve ser sentido agora em outubro e será “muito grande” e “significativo”, na avaliação do presidente do Sindifrigo-MT.

O analista da Safras&Mercado Fernando Iglesias destaca ainda que a retomada será lenta e gradual. “Não vai ser imediatamente porque tem toda essa logística para resolver antes. Vai gerar uma fila de embarques, uma necessidade muito grande de contêineres, então é mais produto que vai estar em falta na retomada”, observa, ao lembrar, também, das dificuldades para obter insumos necessários para a produção antes e depois da porteira. “Está bem complicado o cenário internacional, tumultuado para dizer o mínimo”, completa o analista.

Diante das incertezas, pelo menos 14 frigoríficos já decretaram férias coletivas no país, segundo número divulgado pela consultoria Agrifatto. O ajuste na operação diante da ausência do principal comprador internacional da carne bovina brasileira fez o preço da arroba desabar no país, chegando a ser cotada a R$ 280 em São Paulo após atingir máximas de R$ 320. O mesmo, acredita-se, ocorrerá com os preços para venda ao mercado chinês após a tão esperada reabertura.

“O que a China está buscando, de fato, é renegociar contratos e baixar preço de proteína animal. E isso é uma oportunidade. Claro que vai depender dos contratos que os importadores chineses vão firmar com os frigoríficos brasileiros, mas a tendencia é que ela consiga preços melhores, sim, depois de tudo isso que aconteceu”, aponta Iglesias.

Veja também

https://www.fronteiralivre.com.br/flexibilizacao-de-areas-de-preservacao-permanente-pode-deixar-a-populacao-mais-exposta-a-desastres-naturais-e-crise-hidrica/

Tags: Geral
Amilton Farias

Amilton Farias

Amilton Farias é jornalista e editor do Fronteira Livre

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