Foz do Iguaçu (PR) – Muito além das manchetes sobre ocupação irregular, barro e falta de infraestrutura, existe um Bubas construído diariamente por mulheres que trabalham, criam seus filhos e sustentam suas famílias. São essas histórias que um grupo de estudantes do curso de Jornalismo do Centro Universitário Dinâmica das Cataratas (UDC) decidiu registrar em um projeto acadêmico que transforma a universidade em ponte entre o conhecimento e um dos territórios mais estigmatizados de Foz do Iguaçu.
Intitulado “Mães do Bubas”, o trabalho foi desenvolvido pelas acadêmicas Natália Brazão, Maria Luiza Barros, Maria Clara Ferreira e Sabrina Hoepers na disciplina de Comunicação e Meio Ambiente, ministrada pela professora Nara Regina Olmedo de Oliveira. A proposta nasceu da intenção de aproximar a formação universitária da realidade social da cidade, utilizando o jornalismo como ferramenta de escuta, reconhecimento e valorização de histórias que raramente ocupam espaço no noticiário.
Antes de iniciar as entrevistas, as estudantes pesquisaram a trajetória da comunidade e passaram um dia acompanhando a rotina do bairro. A imersão permitiu conhecer de perto o cotidiano de cinco mulheres, mães e moradoras do Bubas, que compartilharam experiências marcadas por desafios, afetos, espiritualidade, trabalho, maternidade e esperança.
Em vez de contar essa realidade por um único formato, o grupo optou por reunir diferentes linguagens jornalísticas. O projeto resultou em um vídeo-documentário, uma grande reportagem, um podcast, um ensaio fotográfico e uma ilustração artística inspirada nas vivências da comunidade. Cada produção aborda um aspecto distinto do território, compondo um retrato coletivo construído a partir da voz das próprias moradoras.
O documentário apresenta os depoimentos das entrevistadas sobre os desafios enfrentados e as expectativas para o futuro. A reportagem escrita utiliza uma narrativa literária para abordar temas como cotidiano, espiritualidade e saúde. O podcast incorpora sons captados durante a visita ao bairro para aproximar o público da realidade local, enquanto o ensaio fotográfico registra paisagens, moradias e detalhes que ajudam a compreender o Bubas para além das imagens normalmente associadas à ocupação.
A ilustração, desenvolvida em formato de vitral, reúne símbolos observados durante a imersão. O barro, presente nas ruas e na rotina das famílias, aparece como um dos principais elementos da composição, representando tanto as dificuldades estruturais enfrentadas pelos moradores quanto a capacidade de resistência e reconstrução da comunidade.
Para a coordenadora do curso de Comunicação Social da UDC, Francielle Lopes, iniciativas como essa reforçam o compromisso social da universidade e demonstram que a formação jornalística vai além da aprendizagem técnica.
“Mais do que aprender técnicas e formatos, é importante compreender que o jornalismo tem o papel de ouvir pessoas, dar visibilidade a histórias e contribuir para uma sociedade mais informada e consciente.”
As estudantes também afirmam que a experiência transformou a forma como passaram a enxergar o território. Segundo Maria Luiza Barros, a convivência com as moradoras ampliou a compreensão sobre uma realidade frequentemente resumida por estigmas.
“Foi um projeto essencial para o nosso repertório acadêmico e, com certeza, seguirá presente em nossa memória.”
Localizada na região do Porto Meira, a Comunidade Bubas surgiu em 2013 em resposta ao déficit habitacional de Foz do Iguaçu. Hoje considerada a maior ocupação urbana do Paraná, reúne entre 1,8 mil e 2 mil famílias e passa por um processo gradual de urbanização, resultado da mobilização dos moradores e de investimentos públicos realizados nos últimos anos. Apesar dos avanços, o território ainda enfrenta desafios relacionados à infraestrutura, saneamento, mobilidade e acesso a serviços públicos.
Ao registrar histórias de mulheres que raramente aparecem nas páginas dos jornais, o projeto amplia o olhar sobre o Bubas e convida a cidade a enxergar o território para além das dificuldades que marcaram sua trajetória. Ao mesmo tempo, evidencia o papel da universidade na formação de profissionais comprometidos com a escuta, a produção de conhecimento e a aproximação entre o jornalismo e as comunidades.
Mais do que reunir diferentes linguagens jornalísticas, “Mães do Bubas” demonstra que a universidade também cumpre sua função social quando sai da sala de aula para conhecer, compreender e dar visibilidade às pessoas que constroem a cidade todos os dias. Ao preservar as memórias dessas mulheres, o projeto fortalece o reconhecimento de um território que faz parte da história de Foz do Iguaçu e reafirma o jornalismo como instrumento de diálogo, cidadania e transformação social.
Projeto completo:
https://xn--mesdobubashistriasdeumterritrio-tuc55coa.my.canva.site/
Vídeo-documentário:
https://www.instagram.com/p/DZ5IVpyRRO5/


















