Buenos Aires, Argentina – Docentes e trabalhadores técnico-administrativos de todo o país cruzaram os braços e paralisaram as universidades públicas da Argentina nesta quarta-feira (12). A greve nacional, promovida no início do segundo semestre letivo, foi convocada para exigir que o governo do presidente Javier Milei cumpra a Lei de Financiamento Universitário, aprovada pelo Congresso Nacional há quase 300 dias e validada pela Justiça Federal em múltiplas instâncias.
Apesar das decisões judiciais favoráveis à educação, a gestão Milei recusa-se a executar a legislação por meio de decretos e tecnicismos orçamentários. O estrangulamento financeiro afeta diretamente o funcionamento das instituições, o pagamento dos salários e a produção científica nacional.
A paralisação teve convocação da Frente Sindical de Universidades Nacionais, com adesão destacada dos sindicatos da Universidade de Buenos Aires (UBA): a Associação de Docentes (Aduba) e a associação dos técnico-administrativos (Apuba). As entidades denunciam o chamado “triplo descumprimento”:
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A não execução da lei de financiamento aprovada pelo Poder Legislativo;
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O congelamento das verbas operacionais de custeio e de repasses aos hospitais universitários;
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O desrespeito à medida cautelar confirmada pela Corte Suprema de Justiça, que obriga o governo a atualizar os salários tomando como base os valores de novembro de 2023.
Arraso na ciência e perdas de empregos
A crise orçamentária atinge duramente a pesquisa científica no país. Estimativas do setor indicam que, desde dezembro de 2023, cerca de sete postos de trabalho foram perdidos por dia na área de pesquisa. Além disso, o investimento projetado em ciência e educação para 2026 é de apenas 0,14% do Produto Interno Bruto (PIB) – o menor patamar registrado desde 1972.
Como parte dos cortes de recursos para o setor, o Conselho Nacional de Investigações Científicas e Técnicas (Conicet) anunciou recentemente que não renovará as bolsas de pós-doutorado de 379 pesquisadores que haviam concluído a formação no país após anos de investimento público.
“Este governo não quer, por decisão política, que a ciência ou a educação existam neste país. E é por isso que estamos aqui hoje”, afirmou a pesquisadora Rocío, ex-bolsista de pós-doutorado do Conicet, durante manifestação nas imediações do Obelisco, em Buenos Aires. Exibindo um cartaz com os dizeres “A descontinuidade mata a ciência. 400 novos desempregados na Argentina”, ela convocou a população a apoiar a causa.
Defasagem salarial e sucateamento hospitalar
De acordo com levantamentos sindicais, a defasagem salarial acumulada da categoria já ultrapassa os 28%. O reajuste de 21,3% concedido em julho por reitores e federações – apresentado pelo Poder Executivo como uma concessão generosa – não cobre sequer metade da perda inflacionária real sofrida pelos trabalhadores.
Paralelamente, a escassez de verbas inviabiliza a concessão de bolsas estudantis e compromete a operação dos hospitais universitários, responsáveis pelo atendimento de milhões de pessoas que dependem da rede pública de saúde.
O secretário-geral da Aduba, Emiliano Cagnacci, ressaltou em nota oficial que a postura do governo reflete uma indiferença sem limites. Segundo Cagnacci, a administração federal ignora a sociedade argentina – que já realizou quatro grandes mobilizações de rua em defesa do ensino público –, o Congresso Nacional que sancionou a lei, e o Poder Judiciário que confirmou sua legalidade.
Mobilização nacional e novas paralisações
O protesto desta quarta-feira representa a oitava rodada de paralisações promovida pelo setor universitário em 2026, alternando paralisações de 24 e 48 horas e suspensão integral de aulas por semanas.
O calendário de mobilizações continuará a se intensificar. A UBA confirmou uma nova greve nacional docente que suspenderá as atividades acadêmicas por seis dias consecutivos, entre segunda-feira (18) e sábado (22).
A articulação em defesa do setor ultrapassa os limites dos campi. Em Resistencia, na província de Chaco, a Associação de Professores e Pesquisadores da Universidade Nacional do Nordeste realizou um buzinaço ao meio-dia. O ato contou com o apoio de trabalhadores do Conicet, do Instituto Nacional de Tecnologia Agropecuária (Inta) e do Instituto Nacional de Tecnologia Industrial (Inti), evidenciando a união das comunidades científica, educacional e tecnológica contra o sucateamento do estado.




















