Brasília (DF) — Enquanto milhões de crianças deveriam estar ocupando salas de aula, espaços de convivência, quadras esportivas e ambientes de lazer, milhares delas ainda são encontradas trabalhando em atividades que colocam em risco sua saúde, sua segurança e seu desenvolvimento.
Dados divulgados pelo Ministério do Trabalho e Emprego neste Dia Mundial e Nacional de Combate ao Trabalho Infantil mostram que 4.318 crianças e adolescentes foram afastados de situações de trabalho infantil em todo o Brasil durante 2025. O resultado é fruto de mais de dez mil ações de fiscalização realizadas pela Auditoria Fiscal do Trabalho e representa o maior número de resgates registrados na última década.
Por trás da estatística, porém, existe uma realidade que continua atravessando diferentes regiões do país.
São crianças encontradas em oficinas mecânicas, restaurantes, supermercados, comércios, serviços ambulantes de alimentação e outras atividades que, muitas vezes, passam despercebidas no cotidiano das cidades. Em muitos casos, o trabalho aparece disfarçado de ajuda familiar, complemento de renda ou necessidade econômica, mas acaba privando crianças e adolescentes de direitos fundamentais.
Os dados mostram que mais de 70% dos casos identificados envolviam as chamadas piores formas de trabalho infantil — atividades que apresentam riscos físicos, psicológicos ou morais e que podem comprometer o desenvolvimento de crianças e adolescentes.
Nos primeiros meses de 2026, o cenário continua exigindo atenção. Entre janeiro e abril, as fiscalizações afastaram outras 1.108 crianças e adolescentes de situações de trabalho infantil. Desse total, quase 77% estavam submetidos justamente às atividades classificadas como mais graves.
Embora o trabalho infantil seja proibido pela legislação brasileira, especialistas apontam que a exploração da mão de obra infantil permanece diretamente associada à pobreza, à desigualdade social e à ausência de oportunidades para milhares de famílias.
Em muitos casos, crianças ingressam precocemente no mercado de trabalho para complementar a renda doméstica ou ajudar na sobrevivência familiar. O resultado costuma ser o afastamento da escola, dificuldades de aprendizagem, exposição a acidentes e impactos duradouros na vida adulta. O problema não se limita a uma região específica do país.
Em 2025, os maiores números de afastamentos foram registrados em estados como Minas Gerais, São Paulo, Mato Grosso do Sul, Pernambuco, Rio Grande do Sul, Espírito Santo, Bahia e Rio de Janeiro. Já nos primeiros meses de 2026, Minas Gerais, São Paulo, Mato Grosso do Sul, Pernambuco e Paraná aparecem entre os estados com mais ocorrências identificadas pelas equipes de fiscalização. Os números revelam que o trabalho infantil continua presente tanto em áreas urbanas quanto rurais, atingindo diferentes setores da economia.
Para autoridades e organizações que atuam na defesa dos direitos da infância, retirar crianças do trabalho é apenas uma etapa do enfrentamento ao problema. A interrupção da exploração precisa ser acompanhada por políticas públicas capazes de garantir acesso à educação, assistência social, saúde, alimentação adequada e proteção familiar.
A atuação dos auditores-fiscais ocorre em articulação com conselhos tutelares, órgãos de assistência social e instituições da rede de proteção, buscando evitar que crianças e adolescentes retornem às situações de vulnerabilidade que favoreceram sua inserção precoce no trabalho.
Segundo Roberto Padilha Guimarães, coordenador de Erradicação e Fiscalização do Trabalho Infantil da Secretaria de Inspeção do Trabalho, as ações de fiscalização seguem sendo uma ferramenta essencial para identificar situações de exploração e interromper violações de direitos.
Apesar dos avanços registrados pelas fiscalizações, os números também revelam que o trabalho infantil permanece como um desafio social relevante no Brasil. Mais do que uma infração trabalhista, trata-se de uma violação de direitos que afeta diretamente o futuro de crianças e adolescentes.
Em um país marcado por profundas desigualdades sociais, combater o trabalho infantil significa enfrentar não apenas a exploração econômica, mas também as condições que levam milhares de famílias a enxergar o trabalho precoce como única alternativa possível. Garantir infância, educação e oportunidades continua sendo um dos maiores desafios para uma sociedade que ainda convive com formas de exploração que deveriam pertencer apenas ao passado.
Casos de trabalho infantil podem ser denunciados por meio do Sistema Ipê Trabalho Infantil, disponível em: https://ipetrabalhoinfantil.trabalho.gov.br




















