A discussão ultrapassa os limites da engenharia e da geração de energia. O que está em disputa envolve modelos de desenvolvimento, uso dos recursos naturais da Bacia do Prata, soberania territorial e o peso de uma decisão democrática tomada por uma população que, à época, foi mobilizada por organizações ambientalistas, movimentos sociais e setores políticos contrários aos impactos da barragem sobre o rio Paraná.
Para o governo Peña, ampliar a oferta energética tornou-se uma necessidade estratégica. O Paraguai busca consolidar-se como destino de investimentos ligados à tecnologia, ao processamento de dados e à inteligência artificial. O plano ganhou impulso após acordos firmados com Taiwan e pela expectativa de atrair empresas globais interessadas em instalar infraestrutura tecnológica em território paraguaio.
A pressão por novas fontes de geração ocorre em meio a projeções que indicam que, por volta de 2030, o país poderá consumir praticamente toda a energia atualmente disponível por meio de Itaipu, Yacyretá e de sua produção própria. Autoridades paraguaias afirmam que o crescimento econômico registrado nos últimos anos, somado à expansão das maquiladoras e dos empreendimentos digitais, exige respostas rápidas para evitar futuros gargalos energéticos.
Foi nesse contexto que voltou a ganhar força a defesa da construção de Corpus ou de projetos alternativos sobre o rio Paraná.
Um “não” que continua valendo
O principal obstáculo para os planos do governo paraguaio continua sendo a decisão tomada pela população de Misiones em 1996.
Naquele ano, um plebiscito vinculante rejeitou a construção da hidrelétrica de Corpus Christi. A consulta ocorreu após forte mobilização de organizações ambientalistas que alertavam para os impactos da barragem sobre os recursos naturais da região, os ecossistemas associados ao rio Paraná e a dinâmica socioambiental das comunidades afetadas.
Desde então, o resultado da votação permanece válido e impede o avanço do empreendimento binacional.
Representantes ligados ao setor energético paraguaio reconhecem que a única forma de viabilizar o projeto seria a realização de uma nova consulta popular que anulasse a decisão anterior.
A posição do governo de Assunção nunca mudou.
“Nosso maior impedimento é a Argentina”, admitiu José Antonio López, delegado paraguaio junto à Comissão Mista do Rio Paraná (COMIP), ao comentar as limitações impostas pelo plebiscito realizado há três décadas.
Pressão por uma nova consulta
Nos bastidores, setores ligados à COMIP e ao governo paraguaio defendem a retomada do debate em Misiones.
O argumento é que grande parte da população atual não participou da decisão tomada em 1996. Dados do Censo de 2022 mostram que mais da metade dos moradores da província tem menos de 30 anos e que quase sete em cada dez habitantes não tinham idade para votar — ou sequer haviam nascido — quando ocorreu o plebiscito.
Os defensores da obra argumentam que Corpus poderia ampliar a oferta energética regional, gerar empregos e impulsionar novos investimentos produtivos.
Ambientalistas, por outro lado, afirmam que a passagem do tempo não elimina os impactos ambientais apontados no passado nem invalida a decisão popular tomada pela sociedade misionera.
Nova ofensiva energética
Enquanto busca reabrir o debate sobre Corpus, o governo Peña também analisa alternativas.
Uma delas é a hidrelétrica de Itatí-Itacorá, projetada para o rio Paraná em frente à província de Corrientes. Paralelamente, Assunção avalia mais de vinte novos pontos para a construção de usinas de menor porte com participação de capital privado.
A estratégia ganhou ainda mais importância após sinais de que o Paraguai precisará ampliar sua própria capacidade de geração para sustentar seus projetos de crescimento econômico.
No centro dessa disputa está uma questão que ultrapassa as fronteiras nacionais: quem deve decidir o futuro dos grandes rios da região e quais interesses devem prevalecer quando desenvolvimento econômico e preservação ambiental entram em rota de colisão?
Três décadas depois do plebiscito de Misiones, a resposta continua dividindo governos, empresas, ambientalistas e comunidades locais. E mostra que o debate sobre Corpus está longe de pertencer apenas ao passado.


















