O velho Brasil e o Brasil que envelhece

O velho Brasil e o Brasil que envelhece

Viver mais só faz sentido quando existe dignidade para envelhecer. Owonaro Preye/Pexels
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O Brasil está envelhecendo. O velho Brasil, infelizmente, continua mais vivo do que nunca. Não me refiro à idade da população, mas a uma mentalidade que resiste às transformações sociais das últimas décadas. É a cultura que naturaliza o abandono, silencia a violência doméstica e trata muitos idosos como um peso, um problema familiar ou alguém cuja voz perdeu importância com o passar dos anos.

Enquanto a expectativa de vida cresce e o número de brasileiros com mais de 60 anos aumenta em ritmo acelerado, multiplicam-se também os casos de violência, negligência e exploração contra essa parcela da população. A contradição é evidente. O país comemora a longevidade como conquista civilizatória, mas continua falhando em garantir respeito e dignidade àqueles que alcançam a velhice.

Os números ajudam a dimensionar essa realidade. A expectativa de vida da população brasileira chegou a 76,6 anos. Em Curitiba, os idosos já superam numericamente as crianças e adolescentes de até 14 anos, enquanto as projeções indicam que a população com mais de 60 anos deverá dobrar nas próximas décadas. Ao mesmo tempo, o Paraná registrou 132 homicídios de pessoas idosas em 2024, enquanto crescem os casos de violência física, psicológica, financeira e patrimonial. O aspecto mais perturbador, porém, não está apenas nas estatísticas, mas na origem dessas agressões. Em grande parte dos casos, elas acontecem dentro de casa e são praticadas por familiares, cuidadores ou pessoas próximas, justamente aquelas que deveriam oferecer proteção.

A violência contra a pessoa idosa raramente começa com uma agressão física. Ela nasce quando o envelhecimento passa a ser associado à inutilidade. Durante séculos, cabelos brancos e rugas simbolizavam experiência, memória e sabedoria. Hoje, em uma sociedade marcada pelo consumo, pela velocidade tecnológica e pelo culto permanente à juventude, a velhice é frequentemente associada à incapacidade, à dependência e à perda de valor social.

Essa transformação acompanha um modelo econômico que passou a medir o valor das pessoas pela capacidade de produzir, consumir e gerar lucro. Quando a produtividade se torna o principal critério de reconhecimento social, aqueles que contribuíram durante décadas para a construção da riqueza coletiva passam a ser vistos como custo. A aposentadoria deixa de representar o reconhecimento de uma trajetória de trabalho e, muitas vezes, transforma-se em motivo de disputa financeira dentro da própria família.

É nesse ambiente que prosperam o abandono emocional, a exploração patrimonial, o controle indevido de aposentadorias e a exclusão das decisões familiares. Antes da agressão registrada em boletins de ocorrência existe uma cultura que ensina a tratar o idoso como alguém descartável. Antes do tapa, existe o desprezo. Antes da violência física, existe a desumanização.

O problema também se manifesta fora dos lares. O Brasil envelhece rapidamente, mas continua oferecendo cidades pouco preparadas para quem envelhece. Calçadas inseguras, transporte inadequado, dificuldades de acesso aos serviços públicos e redes de cuidado insuficientes fazem parte da realidade de milhões de pessoas. Estudos da Fiocruz mostram que uma parcela significativa da população idosa convive com limitações funcionais e não recebe assistência adequada. O resultado é que uma conquista social — viver mais — passa a conviver com insegurança, isolamento e vulnerabilidade.

Mas seria um erro atribuir toda a responsabilidade ao Estado. A forma como uma sociedade trata seus idosos revela seus valores mais profundos. E o que vemos hoje é preocupante. Vivemos em um país que frequentemente exalta a família, mas convive com o abandono dentro dos próprios lares; que celebra a longevidade como conquista coletiva, mas demonstra enorme dificuldade em garantir dignidade aos anos conquistados.

O Brasil está envelhecendo. O problema é que parte do país continua presa a valores que deveriam ter envelhecido e desaparecido há muito tempo.

Uma sociedade que abandona seus idosos, silencia diante da violência e transforma o cuidado em uma obrigação incômoda não enfrenta uma crise demográfica. Enfrenta uma crise de humanidade. Porque o que continua matando, humilhando, explorando e abandonando nossos idosos não é o avanço do tempo, mas o velho Brasil que insiste em sobreviver dentro de nós.


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