Poucas produções cinematográficas conseguem retratar com tanta força uma das experiências revolucionárias mais extraordinárias do século XX quanto Libertárias (1996), do diretor espanhol Vicente Aranda. Disponibilizado pela TV Fronteira Livre, o filme utiliza a Guerra Civil Espanhola como cenário para contar uma história que durante décadas permaneceu à margem dos relatos oficiais: a participação das mulheres anarquistas na luta contra o fascismo e na construção de um projeto de transformação social que pretendia mudar não apenas o governo da Espanha, mas a própria estrutura da sociedade.
Mais do que uma obra sobre batalhas militares, Libertárias é um filme sobre mulheres que se recusaram a aceitar o lugar que lhes havia sido imposto. É um relato sobre trabalhadoras, militantes, camponesas e operárias que decidiram enfrentar simultaneamente três sistemas de dominação: o fascismo, o capitalismo e o patriarcado. Ao recuperar essa história, o filme também resgata uma memória frequentemente apagada, a das milhares de mulheres que participaram ativamente da Revolução Espanhola de 1936 e que ajudaram a construir uma das mais ousadas experiências libertárias da história contemporânea.
A Guerra Civil Espanhola teve início em julho de 1936, quando setores do Exército liderados pelo general Francisco Franco se rebelaram contra a República. O conflito rapidamente ultrapassou a dimensão de uma disputa pelo poder estatal. Em diversas regiões do país, especialmente na Catalunha e em Aragão, trabalhadores e trabalhadoras passaram a ocupar fábricas, coletivizar terras, criar formas autogestionárias de organização econômica e experimentar novas relações sociais baseadas na cooperação e na igualdade.
Era uma revolução dentro da guerra.
Enquanto os exércitos se enfrentavam, milhões de pessoas tentavam construir uma nova sociedade.
Foi nesse contexto que surgiu a organização Mujeres Libres. Formada por mulheres ligadas ao movimento anarquista espanhol, a entidade reuniu cerca de 20 mil integrantes e tornou-se uma das experiências mais avançadas de organização feminina do período. As militantes defendiam que não bastava derrotar o fascismo. Era necessário enfrentar também a opressão cotidiana vivida pelas mulheres, inclusive dentro dos próprios movimentos revolucionários.
Essa dimensão política atravessa toda a narrativa do filme.
As personagens não lutam apenas contra as tropas franquistas. Lutam contra uma sociedade que reservava às mulheres funções subordinadas, restringia sua participação política e limitava sua presença aos espaços domésticos. As integrantes das Mujeres Libres recusavam esse destino. Queriam participar dos combates, ocupar espaços de decisão, estudar, organizar sindicatos e construir uma revolução que também fosse feminina.
Uma das falas centrais da obra resume esse sentimento. Em determinado momento, a personagem Pilar afirma:
“Somos anarquistas, somos libertárias, mas também somos mulheres e queremos fazer nossa própria revolução.”
A frase ajuda a compreender uma das grandes contradições daquele período. Embora os movimentos revolucionários defendessem igualdade e liberdade, muitas mulheres continuavam encontrando resistência quando reivindicavam protagonismo político. O filme mostra que a luta pela emancipação feminina não ocorria apenas contra os setores conservadores da sociedade espanhola, mas também dentro das próprias organizações que defendiam a transformação social.
A narrativa acompanha Maria, uma jovem freira que foge de um convento nos primeiros dias da revolução. Sua trajetória funciona como um percurso simbólico através de uma Espanha que estava sendo profundamente transformada. Ao entrar em contato com as militantes anarquistas, Maria passa a questionar instituições, crenças e valores que até então pareciam inquestionáveis. Sua história serve como fio condutor para apresentar ao espectador os dilemas, os sonhos e as contradições daquele momento histórico.
Mas a força de Libertárias não está apenas na reconstrução dos acontecimentos da Guerra Civil. O filme também revela o preço pago por mulheres que ousaram desafiar a ordem estabelecida. Muitas foram perseguidas, humilhadas, violentadas e assassinadas. Outras acabaram marginalizadas pela própria história oficial, que durante décadas privilegiou narrativas centradas em líderes militares, dirigentes políticos e figuras masculinas.
Vicente Aranda costumava afirmar que queria contar a história de mulheres que preferiram morrer de pé a viver de joelhos. A frase sintetiza o espírito da obra. Suas personagens não aparecem como vítimas passivas da guerra, mas como sujeitos políticos conscientes, dispostos a lutar por um mundo que acreditavam ser possível construir.
Talvez seja justamente por isso que Libertárias continue tão atual. Em uma época marcada pelo crescimento de discursos autoritários, pela persistência da violência contra as mulheres e pelas tentativas de apagar experiências de resistência popular, o filme recupera uma pergunta que permanece aberta.
É possível falar em liberdade sem igualdade?
As mulheres das Mujeres Libres responderam essa pergunta com a própria vida. Lutaram contra o fascismo quando ele avançava sobre a Europa. Enfrentaram o patriarcado quando quase ninguém questionava sua existência. E defenderam a ideia de que nenhuma revolução estaria completa enquanto metade da humanidade permanecesse subordinada.
Mais de oitenta anos depois, sua história continua ecoando. Não apenas como memória de um passado distante, mas como reflexão sobre os desafios que seguem presentes no mundo contemporâneo.
Talvez por isso Libertárias seja muito mais do que um filme histórico.
É um filme sobre a coragem de imaginar outro futuro quando todos os poderes do presente insistem em dizer que ele é impossível.



















