Por Amilton Farias – Opinião
A decisão do governo de Donald Trump de classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas estrangeiras ultrapassa o campo da segurança pública e projeta um debate mais amplo sobre soberania, geopolítica e o papel dos Estados Unidos nas relações internacionais.
Anunciada oficialmente pelo secretário de Estado, Marco Rubio, a medida enquadra as duas maiores facções criminosas brasileiras como organizações terroristas globais especialmente designadas. Na prática, a decisão permite o bloqueio de ativos financeiros, amplia mecanismos de monitoramento internacional e fortalece instrumentos de pressão econômica utilizados pelo governo norte-americano.
O argumento apresentado por Washington é que as atividades dessas organizações extrapolam as fronteiras brasileiras e afetam interesses de segurança dos Estados Unidos por meio de redes internacionais de tráfico e movimentação financeira.
Mas a medida também abre uma discussão que vai muito além do combate ao crime organizado.
Historicamente, a classificação de grupos como ameaça à segurança internacional tem sido utilizada por diferentes governos norte-americanos como instrumento de política externa. Ao longo das últimas décadas, conceitos relacionados à segurança nacional, combate ao terrorismo e proteção de interesses estratégicos serviram de base para ações diplomáticas, econômicas e militares em diferentes partes do mundo.
Por essa razão, o anúncio foi recebido com atenção por especialistas em relações internacionais, juristas e setores da diplomacia que observam possíveis repercussões sobre a autonomia dos países afetados.
Embora a decisão não autorize qualquer tipo de intervenção militar em território brasileiro, ela amplia significativamente a capacidade dos Estados Unidos de impor sanções financeiras e pressionar instituições que operam dentro do sistema financeiro internacional.
Na prática, bancos, empresas e operadores econômicos tendem a reforçar mecanismos de controle para evitar qualquer relação direta ou indireta com organizações enquadradas na legislação antiterrorismo norte-americana.
É justamente nesse ponto que o debate deixa de ser exclusivamente criminal e passa a ser também político.
No direito internacional, terrorismo e crime organizado não são conceitos equivalentes. Enquanto o crime organizado está associado à obtenção de lucro por meio de atividades ilícitas, o terrorismo é tradicionalmente caracterizado pelo uso da violência com objetivos políticos, ideológicos ou religiosos voltados a influenciar governos ou intimidar populações.
A distinção não é apenas conceitual. Ela determina quais instrumentos jurídicos podem ser utilizados pelos Estados e quais mecanismos internacionais podem ser acionados.
Ao enquadrar facções criminosas brasileiras na categoria de terrorismo, os Estados Unidos adotam uma interpretação mais ampla do conceito, aproximando o combate ao narcotráfico das estruturas criadas após os atentados de 11 de setembro de 2001.
A discussão ganha contornos ainda mais sensíveis na América Latina, região marcada por uma longa memória de intervenções externas, pressões econômicas e disputas geopolíticas conduzidas em nome da segurança, da estabilidade regional ou do combate a ameaças consideradas globais.
Nesse contexto, a preocupação manifestada por setores do governo brasileiro não está relacionada à defesa das facções criminosas, mas à preservação da capacidade do país de conduzir suas próprias políticas de segurança e justiça sem interferências unilaterais.
A decisão de Washington também chega em um momento de forte polarização política no Brasil e tende a ser incorporada ao discurso eleitoral da direita e da extrema direita nas eleições de 2026. O enquadramento das facções brasileiras como organizações terroristas reforça uma narrativa de endurecimento penal e de guerra permanente contra o crime, uma das principais bandeiras dos setores conservadores nas últimas décadas.
O debate, porém, expõe uma contradição recorrente na discussão sobre segurança pública. Enquanto a violência associada às facções ocupa o centro do debate político e da cobertura midiática, crimes financeiros, esquemas de evasão fiscal, manipulação de mercados, corrupção corporativa e fraudes bilionárias raramente recebem o mesmo nível de atenção pública ou mobilização institucional.
Críticos da estratégia norte-americana observam que a retórica da guerra ao terrorismo frequentemente seleciona seus alvos de acordo com interesses geopolíticos específicos. O foco costuma recair sobre organizações armadas e territórios periféricos, enquanto estruturas econômicas capazes de produzir impactos profundos sobre a vida de milhões de pessoas permanecem fora do centro do debate.
No Brasil, essa discussão alcança também a chamada Faria Lima, transformada nos últimos anos em símbolo do poder financeiro nacional. Para setores críticos do modelo econômico dominante, existe um contraste evidente entre a forma como o Estado e os meios de comunicação tratam a criminalidade associada às periferias e aquela relacionada aos grandes centros de poder econômico.
Por isso, a decisão de Donald Trump ultrapassa o combate ao PCC e ao Comando Vermelho. Ela recoloca em pauta uma questão antiga da história latino-americana: quem define o que constitui uma ameaça à sociedade, quais interesses orientam essa definição e por que determinadas formas de poder são rapidamente criminalizadas enquanto outras permanecem protegidas por sua influência econômica, política ou institucional.
O debate que emerge desse episódio vai além das facções brasileiras. Ele toca em um tema recorrente nas relações internacionais: até que ponto medidas apresentadas como instrumentos de segurança permanecem restritas ao combate ao crime e em que momento passam a produzir efeitos políticos, econômicos e diplomáticos capazes de ampliar zonas de influência sobre países considerados estratégicos.
A experiência histórica demonstra que decisões justificadas em nome da segurança raramente produzem apenas consequências na área da segurança. Em muitos casos, elas também redefinem relações de poder, ampliam mecanismos de pressão internacional e reabrem discussões sobre soberania, autonomia e autodeterminação dos povos.
Para a América Latina, região que convive há décadas com disputas geopolíticas travadas por potências globais, o desafio continua sendo o mesmo: combater o crime organizado com firmeza sem abrir mão da capacidade de decidir seus próprios caminhos, suas próprias estratégias de segurança e o futuro de suas instituições democráticas.
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*Amilton Farias é jornalista e editor-chefe do Portal Fronteira Livre
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Este texto reflete a opinião institucional do portal Fronteira Livre sobre o tema abordado.



















