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Emissões globais precisam cair 69% até 2040, alerta PNUMA

Agência da ONU propõe cortes na oferta de carvão, petróleo e gás e cobra avanços nas metas climáticas

O PNUMA cobra cortes mais rápidos nas emissões globais para limitar o aquecimento do planeta. Foto: EFE.

Nairóbi, KE – A humanidade deverá ultrapassar o limite de aquecimento global de 1,5 °C estabelecido pelo Acordo de Paris, mas ainda é possível conter a elevação da temperatura entre 1,7 °C e 1,8 °C até meados do século e retornar ao patamar de 1,5 °C até o fim dele. Para isso, os países precisam reduzir as emissões globais de gases de efeito estufa em 18% até 2030, 45% até 2035 e 69% até 2040, segundo o mais recente relatório do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA).

O secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), António Guterres, defendeu a manutenção de metas climáticas ambiciosas mesmo diante da perspectiva de ultrapassagem do limite.

“Superar não significa capitular”, declarou.

A diretora executiva do PNUMA, Inger Andersen, alertou para os efeitos de adiar as medidas necessárias. “Cada fração de grau adicional e cada ano extra de aquecimento acima de 1,5 °C agravam os impactos e os riscos climáticos, como as inundações mortais, as ondas de calor e os incêndios florestais que devastaram numerosos países neste ano”, afirmou. Para Andersen, é possível limitar o pico de aquecimento e voltar a 1,5 °C até o fim do século, desde que os países façam tudo o que estiver ao alcance para reduzir as emissões.

O relatório também adverte que a continuidade das políticas atuais pode levar o planeta a um aquecimento de 2,8 °C ao longo deste século, com a temperatura continuando a subir nos anos seguintes.

Estados Unidos puxam alta das emissões

Os Estados Unidos aparecem como o principal responsável pelo agravamento das projeções climáticas globais. Em 2025, as emissões do país aumentaram em 133 milhões de toneladas de CO₂ equivalente (MtCO₂e), uma alta superior à registrada por qualquer outra nação. O relatório associa esse crescimento à maior demanda por eletricidade e à retomada da geração de energia a partir do carvão.

Na sequência aparecem a Türkiye, com aumento de 24,4 MtCO₂e; o Irã, com 18,9 MtCO₂e; e a Indonésia, com 17,4 MtCO₂e.

Segundo o PNUMA, dois fatores ajudam a explicar a piora das perspectivas mundiais: a saída formal dos Estados Unidos do Acordo de Paris e a revisão das estimativas históricas de emissões. O país é o único integrante do Anexo I da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima que não apresenta seu inventário de emissões desde 2024.

A retirada norte-americana também alterou a forma de calcular a distância entre os compromissos assumidos pelos países e os cortes necessários para conter o aquecimento. O PNUMA esclarece que a aparente redução dessa diferença até 2030 não representa uma melhora efetiva das políticas climáticas. Com a saída dos Estados Unidos do acordo, a meta nacional foi retirada dos cálculos consolidados e substituída por projeções baseadas nas políticas em vigor no país, que apontam para emissões mais elevadas.

Além disso, Estados Unidos, Argentina e Arábia Saudita estão entre os três integrantes do G20 que não apresentaram novos objetivos de mitigação com horizonte em 2035.

Diferenças entre países e responsabilidade do G20

O balanço das emissões em 2025 mostra trajetórias distintas entre as principais economias. A Índia conseguiu desacelerar o crescimento das emissões, impulsionada pela expansão das energias renováveis. A China, por sua vez, apresenta sinais de aproximação de seu pico de emissões.

Os resultados acumulados da última década evidenciam a dificuldade de reverter a tendência global. Nesse período, 124 países aumentaram suas emissões em um total de 7,2 bilhões de toneladas de CO₂ equivalente (GtCO₂e). Em sentido contrário, 63 países reduziram suas emissões, somando cortes de 1,8 GtCO₂e.

O G20, desconsiderada a União Africana no cálculo apresentado pelo relatório, responde por 76% das emissões mundiais. Entre os 17 integrantes considerados nessa análise, 14 formalizaram metas para 2035. Ainda assim, os compromissos assumidos desde o ano anterior têm efeito praticamente nulo sobre as projeções finais.

O relatório também aponta diferenças na responsabilidade pelas emissões. Estados Unidos, Rússia, China e União Europeia, que acumulam emissões históricas elevadas e apresentam níveis per capita acima da média mundial de 6,4 toneladas de CO₂ equivalente por habitante, contrastam com Índia e Indonésia, cujas emissões por pessoa permanecem bem abaixo desse patamar.

PNUMA pede redução do uso de combustíveis fósseis

Para diminuir a distância entre as promessas climáticas e os resultados esperados, o PNUMA cobra a aceleração das medidas acordadas no primeiro Balanço Global da conferência do clima. Entre elas estão triplicar a capacidade de geração de energia renovável, dobrar a eficiência energética até 2030, abandonar progressivamente os combustíveis fósseis, reduzir as emissões de gases de efeito estufa diferentes do CO₂ e interromper o desmatamento.

Com a preparação do segundo Balanço Global, que terá início na 31ª Conferência das Partes sobre Mudança do Clima (COP31), em Antalya, na Türkiye, a agência também estabeleceu metas para reduzir a oferta de combustíveis fósseis em comparação com os níveis de 2025.

Até 2035, a proposta é diminuir o fornecimento de carvão em 55%, o de petróleo em 15% e o de gás em 5%. Para 2040, os cortes previstos aumentam para 75% no carvão, 30% no petróleo e 35% no gás.

O PNUMA reconhece que as energias renováveis crescem de forma contínua desde 2015 e que a demanda por petróleo e carvão avançou em ritmo inferior ao projetado. Esses avanços, porém, não bastam para garantir o cumprimento das metas do Acordo de Paris. Sem cortes mais rápidos e profundos nas emissões, o aquecimento global poderá intensificar eventos extremos, como enchentes, ondas de calor e incêndios florestais, ampliando os riscos para as populações e os territórios afetados.

Steve Rodríguez

*Steve Rodríguez é repórter do Fronteira Livre, pesquisador e doutorando pela UNILA com formação interdisciplinar em narrativa audiovisual, estudos culturais latino-americanos e práticas pedagógicas anticoloniais. Sua trajetória combina criação artística (teatro, cinema e cultura visual) com reflexão teórica, orientada pela perspectiva dos estudos visuais de Nicholas Mirzoeff.

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