Malawi – Aos 14 anos, forçado a abandonar a escola porque a família não tinha dinheiro para pagar as mensalidades em meio a uma crise devastadora de fome, William Kamkwamba recorreu a peças recolhidas em um lixão e a um livro didático de ciências para erguer um moinho de vento capaz de gerar eletricidade e bombear água na sua aldeia. O caso, revelado internacionalmente pela revista Wired, transformou a vida do jovem africano, que hoje tem 39 anos, formou-se em engenharia, atua como palestrante e teve sua trajetória retratada no filme “O Menino Que Descobriu o Vento”.
A crise começou em 2002, quando o Malawi enfrentou um período severo de escassez de alimentos. Com a redução drástica dos estoques e o corte gradual das doações emergenciais do governo, a família de Kamkwamba passou a fazer apenas uma refeição por dia. Quando as aulas recomeçaram, a falta de recursos impediu a continuidade dos estudos formais do garoto. Para não se distanciar do conteúdo visto pelos colegas de classe, ele passou a frequentar a biblioteca local cerca de uma semana depois de sair do colégio.
Entre as leituras, encontrou a obra “Usando Energia”, que apresentou o princípio de funcionamento dos moinhos de vento. O garoto percebeu que a estrutura permitiria bombear água para irrigação contínua do solo, possibilitando duas colheitas anuais em vez de uma só, além de alimentar hortas o ano inteiro e fornecer iluminação noturna para leitura e estudos em casa. “Um moinho de vento era mais do que energia. Era liberdade”, afirmou à época.
Sem ferramentas industriais ou peças prontas, Kamkwamba montou primeiro um protótipo em pequena escala. Para confeccionar instrumentos de trabalho, achatou pontas de raios de bicicleta para criar chaves de fenda e alicates improvisados. Ele também retirou o motor de um toca-fitas quebrado e cortou a sola de um sapato descartado para aproveitar a borracha no isolamento e na transmissão mecânica.
A reunião de sucata e peças para construir o moinho em tamanho real demorou três meses. Durante o período, William realizou pequenos trabalhos informais na vizinhança para juntar dinheiro e pagar pela soldagem de componentes essenciais da torre e das pás. O projeto exigiu soluções manuais de segurança e adaptação constante: ele desenvolveu um disjuntor caseiro para controlar a rede e modificou a fiação para permitir a recarga de aparelhos celulares de vizinhos. “Eu estava sempre fazendo pequenos ajustes para melhorar o sistema. Posso garantir que não é nada fácil parar o moinho quando o vento está soprando”, contou.
O fornecimento de luz e água mudou a rotina da comunidade rural, reduzindo o impacto da seca crônica na produção de alimentos. O impacto chamou atenção internacional, garantiu bolsas de estudo para a formação superior de Kamkwamba no exterior e inspirou o livro e a adaptação cinematográfica sobre a sua juventude.



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