Buenos Aires, Argentina – O poder de compra do salário mínimo argentino despencou 40,8% entre novembro de 2023 e setembro de 2026, de acordo com levantamento do Centro de Economia Política Argentina (CEPA). O recuo afunda a remuneração da classe trabalhadora ao pior patamar em mais de duas décadas, igualando o cenário crítico de abril de 2002, logo após o colapso econômico que marcou o governo de Eduardo Duhalde.
A derrocada atravessa a reta final da gestão de Alberto Fernández e se aprofundou com o plano de choque do presidente Javier Milei. Pelos cálculos da entidade, para devolver ao trabalhador a capacidade de compra média verificada em 2023, o piso nacional teria que subir imediatamente 70,7% — um acréscimo de 271.315 pesos (cerca de R$ 919,39).
O fosso se alarga quando a comparação mira gestões anteriores. Para empatar com o poder de compra de novembro de 2019, ao término do mandato de Mauricio Macri, o contracheque precisaria de reajuste de 101,4%. Em relação a novembro de 2015, fim do governo de Cristina Kirchner, o salto necessário seria de 163,6%. Já para alcançar o ápice histórico da série, anotado em setembro de 2011, o valor deveria bater 1.158.888 pesos (aproximadamente R$ 3.927,05) em moeda atual.
Tarifas explodem enquanto remuneração estagna
O estrago no orçamento doméstico reflete o descompasso entre o piso salarial e o tarifaço nos serviços essenciais. Enquanto o salário mínimo teve correção nominal de 158%, as passagens de metrô subiram 2.005%, as de ônibus avançaram 1.510% e as de trem pularam 1.090%.
As despesas fixas com energia elétrica, gás residencial e outros combustíveis acumularam alta de 856%, ao passo que a gasolina premium encareceu 631%. Na prática, os gastos com deslocamento básico e sobrevivência consom a maior fatia da renda das famílias de baixa renda.
Alinhamento patronal e imposição de piso por decreto
O relatório do CEPA detalha que a Secretaria de Trabalho (vinculada ao Ministério do Capital Humano) interveio reiteradamente para fixar o piso em patamares colados aos interesses das entidades patronais. As propostas de recomposição protocoladas pelas centrais sindicais foram descartadas sucessivamente em rodadas de negociação: junho e dezembro de 2024, abril e novembro de 2025 e setembro de 2026.
Sem acordo entre as partes na última mesa do Conselho do Salário Mínimo, o governo Milei interveio por decreto. A Resolução 4/2026, oficializada no Diário Oficial em 2 de setembro de 2026, determinou uma escala de reajustes que levará a base salarial para 436.982 pesos (cerca de R$ 1.480,77) apenas em abril de 2027.
A cifra imposta pelo Executivo ignora a realidade do custo de vida. Os sindicatos exigiam fixação de 993 mil pesos (R$ 3.364,92) para dezembro de 2026, cálculo desenhado a partir da Cesta Básica Total apurada em agosto de 2026, avaliada em 1.564.716 pesos (R$ 5.302,26). Com o valor imposto, a renda mínima argentina cobre menos de um terço das necessidades alimentares e de serviços de uma família.



Deixe um comentário