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Crise no Supremo Tribunal Federal racha STF e cúpula da PF

Revelação de reunião com dono do Master faz Mendonça recorrer a discurso religioso nas redes após desgaste com a PF.

Foto: Antonio Augusto/STF.

Brasília, DF – Uma crise institucional no Supremo Tribunal Federal atingiu o ápice com pedidos de investigação contra o ministro André Mendonça e trocas de acusações entre magistrados, a Procuradoria-Geral da República e a cúpula da Polícia Federal. Mendonça confirmou ter participado de um encontro secreto com o empresário Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, em março de 2025, além de uma reunião com o advogado do banqueiro no mesmo período. A revelação ocorre após o ministro determinar a elaboração de um relatório policial de 218 páginas que expôs mensagens trocadas entre Vorcaro e o ministro Alexandre de Moraes, omitindo suas próprias reuniões com o banqueiro e movimentações financeiras ligadas a aliados políticos.

O caso levou o procurador-geral da República, Paulo Gonet, a abrir um procedimento para apurar interferência indevida na Polícia Federal durante a produção da peça IPJ-A nº 3298613/2026. Em despacho enviado ao presidente do STF, Edson Fachin, Gonet pediu providências sobre a conduta de Mendonça e cobrou explicações oficiais dos investigadores. “Notifique-se a autoridade policial para esclarecer as circunstâncias em torno da confecção da IPJ-A n. 3298613/2026, notadamente quanto a possível ocorrência de ordem ou interferência externa em sua elaboração, que tenha maculado seu conteúdo”, escreveu o chefe do Ministério Público da União. Gonet destacou que a PGR não foi comunicada previamente sobre a feitura do documento, o que impediu o órgão de exercer o controle externo da atividade policial previsto na legislação.

O relatório pedido por Mendonça focou em diálogos de Vorcaro com Moraes e citou autoridades como o próprio Gonet e o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues. O texto, no entanto, deixou de fora o encontro reservado de Mendonça com o dono da instituição financeira e não aprofundou trocas de mensagens e depósitos milionários que beneficiaram o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que saiu em defesa pública do magistrado. Diante das omissões e de investidas que atingiram também o filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Moraes reagiu e encaminhou a Fachin uma representação apontando indícios de crimes praticados por Mendonça na condução de inquéritos sob sua relatoria, pedindo a abertura de apuração formal contra o colega de tribunal.

A ofensiva expôs divisões internas na corporação policial e motivou a reação de entidades de classe. A Associação Nacional dos Delegados de Polícia Federal (ADPF) publicou nota manifestando contrariedade com as decisões de Gonet, pedindo que o procurador-geral se declare impedido de atuar no caso por aparecer entre as autoridades citadas nas trocas de mensagens. Do outro lado, documentos de inteligência da própria Polícia Federal encaminhados à presidência do Supremo revelam tratamento diferenciado de prazos por parte de Mendonça para blindar aliados da extrema direita e prejudicar adversários políticos, cenário que coloca em risco sua permanência como relator do processo do Banco Master.

Agentes federais apontam que a tentativa de fragilizar Andrei Rodrigues e direcionar apurações causou isolamento do ministro. “O Mendonça vai lá e faz isso aí, tenta intimidar a PF e age desse jeito gângster. Ele está com um problemão agora. Isso a PF não vai engolir, como fizeram lá na Lava Jato. E ele ainda expôs a instituição ao atacar o Andrei”, afirmou um agente da corporação. O servidor explicou ainda a reação interna: “Mendonça quis intimidar a PF, e isso nunca vai ser tolerado. Eles vão desconstruir o Mendonça e quem vai fazer isso é a Contrainteligencia… A PF sabe com quem está lidando”.

Em meio ao avanço das representações, Mendonça publicou um vídeo em tom religioso nas redes sociais para mobilizar apoiadores nas ruas antes das manifestações do 7 de Setembro. “Meus irmãos e minhas irmãs, minha palavra se dirige a vocês essencialmente para agradecer tantas mensagens de oração e de carinho. Estejam certos que suas preces a Deus têm sido fundamentais para me sustentar e sustentar a minha família”, disse o ministro na gravação. Nos bastidores do Judiciário, o ministro Gilmar Mendes formalizou proposta para proibir que policiais federais e militares atuem cedidos em gabinetes de ministros do Supremo, medida voltada a retirar dois delegados que hoje assessoram diretamente Mendonça nas apurações do Master e de fraudes no INSS.

Amilton Farias

Amilton Farias é jornalista, fundador e editor do portal Fronteira Livre. Com vivência em diferentes países da América Latina e atuação voltada ao jornalismo territorial, dedica sua escrita à análise política, social e cultural das fronteiras, dos territórios e das realidades que marcam a vida dos povos latino-americanos.

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