Formosa (Argentina) – No norte da Argentina, próximo às fronteiras que conectam o país ao Paraguai e à Bolívia, comunidades indígenas convivem há décadas com uma disputa que ultrapassa os limites da propriedade da terra. O conflito envolve memória, identidade, sobrevivência e o direito dos povos originários de permanecerem nos territórios onde construíram sua história.
É nesse cenário que o líder indígena Felix Diaz, uma das principais vozes do povo Qom na Argentina, denuncia um ciclo de violência, perseguições e mortes que, segundo ele, está diretamente relacionado ao avanço de interesses econômicos sobre áreas tradicionalmente ocupadas pelas comunidades indígenas da província de Formosa.
Para Diaz, episódios como a morte de Pablo Sanagachi, de 19 anos, vítima de tuberculose agravada pela desnutrição, e de Daniel Ajisak, de apenas 16 anos, após sofrer um golpe na cabeça, não podem ser compreendidos como casos isolados.
Segundo ele, representam parte de uma realidade mais ampla de exclusão e conflito territorial.
“Estamos sofrendo uma horrível perseguição.”
A declaração resume a percepção de uma comunidade que vê crescer a pressão sobre suas terras em meio à expansão da soja, da pecuária e de empreendimentos vinculados ao agronegócio.
A disputa pelo território
Para o povo Qom, a terra não representa apenas um patrimônio econômico.
Ela constitui a base da vida comunitária, da produção de alimentos, das práticas culturais e da própria identidade coletiva.
Por isso, a disputa fundiária assume uma dimensão que vai muito além da propriedade formal registrada em documentos.
Felix Diaz afirma que o aumento das agressões e ameaças coincide com a valorização econômica das áreas reivindicadas pelas comunidades indígenas.
Segundo ele, empresas ligadas à produção agrícola e pecuária pressionam pela retirada dos povos originários de territórios considerados estratégicos para atividades econômicas.
Ao longo dos anos, a denúncia ganhou repercussão nacional e internacional.
A causa recebeu apoio de organizações de direitos humanos e de personalidades como o escritor uruguaio Eduardo Galeano, além de movimentos históricos argentinos como as Madres de Plaza de Mayo.
Mesmo diante de ameaças constantes, Diaz afirma que abandonar a luta não é uma opção.
“A luta é o único caminho para reverter essa situação.”
Violência e impunidade
O líder indígena sustenta que a violência não se limita aos conflitos fundiários.
Segundo ele, a presença policial nas comunidades frequentemente está associada a operações intimidatórias, invasões domiciliares e ações consideradas arbitrárias pelos moradores.
A principal preocupação, contudo, está na forma como as mortes de indígenas são tratadas pelas autoridades.
“Quando um indígena morre, dizem que foi acidente, suicídio ou morte natural. Nunca investigam.”
A denúncia aponta para uma percepção de impunidade que atravessa diferentes episódios relatados pelas comunidades.
Para Diaz, a ausência de investigações aprofundadas reforça um sentimento de abandono institucional e dificulta a responsabilização dos envolvidos em crimes contra indígenas.
Exclusão social e contaminação ambiental
Além da violência direta, os Qom enfrentam problemas relacionados à pobreza, à falta de infraestrutura e ao acesso precário a serviços públicos.
Entre as denúncias apresentadas pelo líder indígena está o impacto da utilização de produtos químicos em áreas de cultivo próximas às comunidades.
Segundo ele, pulverizações realizadas em lavouras de soja contaminam reservatórios de água e atingem moradias indígenas.
As consequências seriam percebidas no aumento de doenças respiratórias, problemas de saúde recorrentes e mortes associadas à exposição a substâncias químicas.
A tuberculose tornou-se uma das enfermidades mais frequentes, agravada por condições de pobreza, insegurança alimentar e dificuldades de acesso ao atendimento médico.
Um território reconhecido, mas não garantido
Felix Diaz recorda que a presença indígena na região foi oficialmente reconhecida pelo próprio Estado argentino ainda na década de 1940.
Naquele período, aproximadamente cinco mil hectares foram reservados para a comunidade.
O reconhecimento foi posteriormente reafirmado em diferentes momentos.
Apesar disso, sucessivas reduções territoriais ocorreram ao longo das décadas seguintes.
Segundo o líder indígena, tanto durante a ditadura militar quanto após a redemocratização, os direitos territoriais dos povos originários continuaram sendo frequentemente ignorados.
Em 2005, a aprovação de uma legislação nacional sobre emergência territorial indígena trouxe novas expectativas para as comunidades.
Mas a aplicação da norma encontrou resistência em Formosa.
A situação se agravou em 2010, quando protestos realizados pelos Qom terminaram em repressão policial e na morte do indígena Roberto López.
Para Diaz, o episódio permanece sem esclarecimento adequado.
Racismo institucional e exclusão política
O líder indígena também denuncia a existência de mecanismos de cooptação política utilizados para enfraquecer lideranças comunitárias independentes.
Segundo ele, representantes alinhados aos interesses governamentais recebem apoio institucional enquanto lideranças críticas enfrentam obstáculos permanentes.
A estratégia, afirma, busca fragmentar a organização coletiva dos povos indígenas.
Em resposta, a comunidade fortaleceu a organização Potae Napocna Navogh, criada para garantir representação própria e defender os interesses do povo Qom.
Para Diaz, os obstáculos não se limitam à política.
Ele denuncia a presença de racismo estrutural em instituições públicas e no sistema de Justiça.
“O sistema é feudal.”
A expressão é utilizada para descrever um modelo que, segundo ele, condiciona direitos básicos à submissão política e dificulta o exercício pleno da cidadania indígena.
Uma dívida histórica
Embora a Constituição argentina e diversos tratados internacionais reconheçam direitos dos povos originários, Felix Diaz afirma que a distância entre a legislação e a realidade continua sendo enorme.
Muitas normas permanecem sem regulamentação efetiva, dificultando sua aplicação prática.
Além disso, os modelos jurídicos predominantes seguem baseados na lógica da propriedade privada individual, frequentemente incompatível com a relação coletiva que os povos indígenas mantêm com seus territórios.
Para as comunidades, perder a terra significa perder muito mais do que espaço físico.
Significa comprometer modos de vida, formas de produção, práticas culturais e vínculos ancestrais construídos ao longo de gerações.
Apesar das ameaças que afirma receber regularmente, Diaz sustenta que a resistência continua sendo necessária.
“Se não lutarmos, fica pior.”
Ao refletir sobre a situação dos povos indígenas na Argentina, o líder Qom conclui que existe uma dívida histórica que permanece aberta.
Uma dívida que, em sua visão, não será quitada apenas por discursos de reconhecimento, mas pelo respeito efetivo aos direitos territoriais e à autodeterminação dos povos originários.

















