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Moro foi o senador do PR que mais gastou e o que menos atendeu cidades

Em três anos, Moro consumiu R$ 1,14 milhão em despesas parlamentares, mas suas emendas individuais chegaram a apenas 102 dos 399 municípios do PR.

Levantamento aponta que 95% dos eleitores não lembram projetos de Sergio Moro. Foto: Evaristo Sa/AFP.

Curitiba, PR – Prestes a disputar o governo estadual nas urnas de outubro, Sergio Moro (União Brasil) fecha o ciclo da atual bancada paranaense no Senado com a conta mais cara do trio e a menor presença de recursos nos municípios. Levantamentos com dados do Portal da Transparência do Senado, do SIGA Brasil e da imprensa nacional mostram que o ex-juiz consumiu R$ 1,14 milhão da Cota para o Exercício da Atividade Parlamentar (Ceap) entre 2023 e 2025. No mesmo período, Flávio Arns (PSB) gastou R$ 843 mil e Oriovisto Guimarães (PSDB) utilizou R$ 285,7 mil. Ou seja, Moro custou quase quatro vezes mais aos cofres públicos do que o colega tucano.

A disparada nos gastos de Moro ocorreu em 2025, ano em que sua pré-candidatura ao Palácio Iguaçu ganhou força. O uso da cota parlamentar pelo senador subiu 76% em relação a 2024, alcançando R$ 521,8 mil. O montante foi impulsionado por passagens aéreas (R$ 186,2 mil) e despesas de locomoção, hospedagem e alimentação (R$ 139,5 mil). Ao incluir despesas fora da cota — outros R$ 102,7 mil em passagens e R$ 78,6 mil em diárias —, o gasto total de Moro passou de R$ 711 mil naquele ano. No mesmo exercício de 2025, Arns somou R$ 80,7 mil em gastos de Correios fora da cota, enquanto seu pico na Ceap havia ocorrido em 2024, com R$ 346,4 mil (43% em bilhetes aéreos). Já Oriovisto manteve-se na ponta mais econômica: alugou escritório por valores abaixo dos demais e dispensou verbas para material de consumo e serviços de apoio.

Quando o assunto é a entrega de emendas parlamentares individuais impositivas, a ordem se inverte. De 2024 a 2026, cada um dos três senadores teve a mesma cota de R$ 212,2 milhões em recursos federais de execução obrigatória. Arns foi quem mais colocou dinheiro no caixa das prefeituras: R$ 134 milhões pagos (63% do teto), contemplando 343 dos 399 municípios do Paraná (86% do território estadual). Oriovisto liderou o ritmo burocrático inicial, somando R$ 172 milhões empenhados e R$ 148 milhões liquidados, com repasses a 260 cidades.

Moro ficou na lanterna em todas as fases da execução orçamentária: empenhou R$ 160 milhões, liquidou R$ 138 milhões e conseguiu pagar R$ 122 milhões. Além do menor valor pago, o alcance territorial foi restrito: as emendas de Moro chegaram a apenas 102 municípios — um quarto do estado. Paranaguá, onde opera o principal porto paranaense, ficou de fora da partilha. No interior, a disparidade salta aos olhos: Ouro Verde do Oeste recebeu R$ 1,19 milhão de Arns e R$ 520,1 mil de Oriovisto; de Moro, o município não viu um centavo sequer. O ano de 2025 sintetizou o descompasso de Moro: enquanto suas despesas pessoais batiam recorde, ele registrou o menor volume de emendas pagas entre os três (R$ 54,4 milhões, contra R$ 62,4 milhões de Arns e R$ 57,1 milhões de Oriovisto).

A assessoria de Sergio Moro afirmou que a execução de empenho e liquidação do gabinete beirou 100% em 2024 e 2025. O gabinete também alegou que somar 2026 à conta é metodologicamente incorreto por se tratar de ano em curso e defendeu que o mandato priorizou “ações estruturantes” de maior porte em vez da pulverização de verbas. Os dados públicos disponíveis, no entanto, confirmam apenas o corte drástico no número de municípios beneficiados, sem comprovação documental de obras maiores na ponta.

No plenário e na produção legislativa, as prioridades de cada senador desenharam caminhos opostos. Moro concentrou atuação na segurança pública e aprovou leis de impacto nacional: é autor da Lei 15.245/2025, que tipifica o crime de obstrução de ações contra o crime organizado (pena de 4 a 12 anos), e relatou a Lei 15.272/2025, de endurecimento das audiências de custódia, e a Lei 15.407/2026, sobre transferência de assassinos de policiais para presídios federais. Flávio Arns direcionou o mandato à área social, assinando o projeto da Lei Complementar 220/2025, que instituiu o Sistema Nacional de Educação (o “SUS da Educação”), e a Lei 15.344/2026, criadora do programa Mais Professores para o Brasil. Oriovisto apresentou 7 PECs, 15 projetos de lei ordinária e 8 complementares, mas não aprovou nenhuma lei própria; sua proposta de maior repercussão, a PEC 8/2021 (que limita decisões monocráticas de ministros do STF), passou pelo Senado em 2023 e segue travada na Câmara.

Apesar da intensa movimentação em Brasília e dos milhões movimentados, o trabalho parlamentar segue invisível para a maior parte da população. Sondagem realizada pelo instituto IRG em maio apontou que 95% dos paranaenses não sabem citar uma única lei ou projeto de Sergio Moro. O desconhecimento atinge 93% para Flávio Arns e chega a 97,5% no caso de Oriovisto Guimarães. Enquanto Arns e Oriovisto decidiram não disputar a reeleição e preparam a saída do Senado, Moro entra na corrida pelo Palácio Iguaçu com a tarefa de explicar aos prefeitos e eleitores por que gastou mais do que todos para atender a menor fatia do estado.

Amilton Farias

Amilton Farias é jornalista, fundador e editor do portal Fronteira Livre. Com vivência em diferentes países da América Latina e atuação voltada ao jornalismo territorial, dedica sua escrita à análise política, social e cultural das fronteiras, dos territórios e das realidades que marcam a vida dos povos latino-americanos.

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