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Flávio Bolsonaro foge em avião de empresário ligado a Milei

Dono da empresa que realizou voo de Flávio Bolsonaro transportou a cúpula de Milei em 2023; operador parceiro é réu por corrupção na Argentina.

Baires Fly pertence a piloto de Javier Milei e é investigada por suspeitas de lavagem de dinheiro em contratos públicos na Argentina. Foto: X/Javier Milei

Foz do Iguaçu, PR – O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) fugiu do Brasil na madrugada desta quarta-feira (28) a bordo de um jato executivo pertencente a um empresário com fortes ligações com o presidente da Argentina, Javier Milei. O proprietário da Baires Fly, Luis Grande, já pilotou pessoalmente a aeronave de Milei e vê sua companhia envolvida em investigações judiciais por suspeitas de lavagem de dinheiro no país vizinho.

A saída do parlamentar ocorreu após o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), ordenar a apreensão de seus passaportes e proibi-lo expressamente de viajar para o exterior. A ordem judicial integra um inquérito que apura crimes de evasão de divisas e lavagem de capitais.

Segundo registros oficiais da Direção Nacional de Migrações da Argentina, Flávio cruzou a fronteira terrestre às 22h50 de terça-feira (27) pela Ponte Internacional Tancredo Neves, que conecta Foz do Iguaçu a Puerto Iguazú. O senador viajou com a esposa, Fernanda Bolsonaro, e as duas filhas.

Pouco depois, às 23h30, a família embarcou em um jato Gulfstream G400, matrícula argentina LV-JQW, operado pela Baires Fly. A aeronave decolou logo após a meia-noite em direção a Guayaquil, no Equador, ponto de parada técnica antes do trajeto final até os Estados Unidos.

O jato executivo aguardava no aeroporto de Puerto Iguazú desde a noite de segunda-feira (26), quando aterrissou vindo de Buenos Aires. Um voo previsto para a madrugada de terça-feira acabou cancelado, mantendo a aeronave em solo por quase 24 horas até o embarque da família Bolsonaro.

O proprietário da Baires Fly, Luis Grande, opera no mercado de aviação executiva desde 1991 e pilotou pessoalmente o Gulfstream V (matrícula LV-KAX) fretado para levar Javier Milei aos Estados Unidos em 27 de novembro de 2023. A viagem ocorreu dias após o resultado eleitoral que consagrou o líder argentino.

Naquela comitiva estavam nomes centrais da atual administração argentina: Karina Milei, o futuro ministro da Economia, Luis Caputo, o estrategista Santiago Caputo, o futuro chefe de Gabinete, Nicolás Posse, e o empresário Gerardo Werthein. O voo custou entre US$ 120 mil e US$ 250 mil e teve despesas divididas entre os ocupantes após receios éticos sobre o custeio privado.

Grande também realizou traslados aéreos para os ex-presidentes Mauricio Macri, Cristina Kirchner e Alberto Fernández, não existindo registros públicos de vínculo partidário formal com Milei. A proximidade comercial, no entanto, colocou a empresa na vitrine do poder em Buenos Aires.

Além das viagens governamentais, a Baires Fly entrou na mira da Justiça em um inquérito sobre corrupção na Agência Nacional de Deficiência (ANDIS). O órgão federal de assistência social era chefiado por Diego Spagnuolo, antigo integrante do núcleo de confiança do presidente argentino.

Os promotores apuram se fornecedoras de medicamentos e próteses médicas superfaturaram contratos e usaram serviços aéreos para dissimular valores desviados. O intermediário das transações era Sergio Daniel Mastropietro, operador de voos que atua com a Baires Fly e dirige a Baires Jets.

Em setembro de 2025, Mastropietro repassou os dados bancários da Baires Fly a Miguel Ángel Calvete, investigado no esquema. No dia seguinte, fornecedoras da pasta enviaram cerca de 95 milhões de pesos à empresa aérea — 34,56 milhões vindos da Prolite Orthopedics e 60,5 milhões da Probock, além de participações da Droguería Profarma.

As faturas da Baires Fly foram faturadas como suposta compra antecipada de horas de voo somente após o depósito do dinheiro, atendendo a pedidos diretos de Calvete. Para o Ministério Público argentino, tratava-se de emissão de notas fiscais sem voos correspondentes.

Em outubro de 2026, a Justiça argentina processou Mastropietro por associação ilícita e lavagem de capitais. O avanço da ação não atribui, até o momento, responsabilidade penal direta a Luis Grande no caso dos desvios na ANDIS.

As conexões de Mastropietro alcançam também Federico “Fred” Machado, empresário investigado nos Estados Unidos por fraudes, lavagem de dinheiro e negociação de aviões usados pelo narcotráfico. Documentos judiciais apontam transferências de mais de US$ 800 mil entre Mastropietro e empresas ligadas a Machado.

O operador parceiro da Baires Fly intermediou ainda uma doação de US$ 200 mil de Machado ao economista e deputado José Luis Espert, em janeiro de 2020. Aliado de Milei, Espert admitiu ter recebido o montante, alegando que desconhecia as atividades ilegais do financiador.

Em agosto de 2026, Machado assinou um acordo de admissão de culpa por crimes financeiros perante a Justiça americana, o que encerrou sua acusação por tráfico de drogas. Não há registros de que Luis Grande participe dos delitos admitidos por Machado nem de que a aeronave utilizada por Flávio Bolsonaro estivesse vinculada a atos ilícitos anteriores.

Amilton Farias

Amilton Farias é jornalista, fundador e editor do portal Fronteira Livre. Com vivência em diferentes países da América Latina e atuação voltada ao jornalismo territorial, dedica sua escrita à análise política, social e cultural das fronteiras, dos territórios e das realidades que marcam a vida dos povos latino-americanos.

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