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Bets proibidas, dívidas abertas: o desafio de tratar a dependência em apostas

Medida do governo prevê retirada das plataformas do ar em outubro. Para quem desenvolveu ludopatia, o cuidado envolve saúde mental, orçamento e relações familiares.

Por Dr. João Paulo Mendes

Recuperar o dinheiro e parar. A promessa pode se repetir a cada depósito, mesmo quando a aposta anterior consumiu o que estava reservado para uma conta da casa. O prejuízo aumenta, mas a possibilidade de revertê-lo continua parecendo próxima.

A tentativa de recuperar perdas com novas apostas é um dos sinais de que o jogo se tornou um problema. Outros incluem pedir dinheiro emprestado para continuar jogando, gastar além do que se pode perder e aumentar os valores em busca da mesma excitação. São comportamentos usados pelo serviço público de saúde britânico, o NHS, para ajudar a identificar quem precisa de atendimento.

A proibição das bets no Brasil trouxe esse sofrimento para o centro do debate. Em 25 de setembro de 2026, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva editou uma medida provisória que encerra a exploração das apostas de quota fixa no país. O texto alcança apostas esportivas e jogos online, além de sua oferta, intermediação e publicidade. As demais modalidades lotéricas autorizadas por lei foram preservadas.

Enquanto empresas se preparam para encerrar as operações, os serviços de saúde terão de atender pessoas cujos problemas não terminam com a retirada dos aplicativos. O Ministério da Saúde anunciou uma busca ativa de apostadores para oferecer cuidado, inclusive àqueles que ainda não procuraram ajuda.

Prazo para retirar o saldo

Segundo o calendário divulgado pelo governo, novos depósitos ficam proibidos desde a publicação da medida. Os usuários têm até as 23h59 de 5 de outubro para sacar os valores disponíveis nas plataformas. Sites e aplicativos devem sair do ar a partir do dia 6.

A devolução dos saldos que não forem retirados está prevista para ocorrer pelos bancos entre 9 e 14 de outubro. Se houver impedimento, a Caixa Econômica Federal poderá intermediar o pagamento a partir do dia 14. O procedimento trata do dinheiro que permanece nas contas dos apostadores, não do ressarcimento de perdas anteriores.

O problema pode começar antes da dívida

A ludopatia, nome pelo qual é conhecida a dependência de apostas, é chamada na medicina de transtorno do jogo. A Organização Mundial da Saúde descreve um quadro de perda de controle, prioridade crescente dada às apostas e persistência apesar das consequências. Aos poucos, jogar passa à frente de outras atividades e obrigações.

Nem todo apostador desenvolve o transtorno. O diagnóstico exige avaliar o comportamento ao longo do tempo e o comprometimento da vida pessoal, familiar e profissional. A quantia perdida, sozinha, não dá conta dessa avaliação.

Uma pessoa pode manter as contas em dia e já apresentar dificuldade para parar. Outra pode comprometer despesas essenciais com valores que, para alguém de renda maior, pareceriam pequenos. A OMS ressalta que os danos das apostas também atingem pessoas que ainda não preenchem os critérios de dependência.

Dentro de casa, os primeiros indícios podem ser mudanças de humor, irritação quando não se consegue jogar, noites mal dormidas e gastos escondidos. O Ministério da Saúde inclui entre os sinais de alerta as mentiras sobre as apostas, as tentativas frustradas de reduzir o comportamento e o afastamento das relações pessoais. É a combinação desses sinais, com seu contexto e intensidade, que merece investigação.

Por que continuar depois de perder?

Uma vitória ajuda a entender o entusiasmo de quem começa. A insistência diante das derrotas costuma ser mais difícil de compreender.

As pesquisas sobre o transtorno do jogo mostram que a expectativa de recompensa tem importância nesse processo. A dopamina participa da motivação e da aprendizagem relacionadas às recompensas; seu funcionamento não se limita ao prazer de receber dinheiro.

Uma revisão científica de 2019, Dopamine and Gambling Disorder: Prospects for Personalized Treatment, reuniu estudos que apontam a participação da antecipação de ganhos e da sensibilidade à incerteza no comportamento de apostar. Os resultados ajudam a explicar a persistência no jogo, mas não sustentam uma causa única para a dependência. Reduzi-la a “dopamina demais” seria deixar de fora boa parte do problema.

Há também o que acontece na vida de quem aposta. Solidão, impulsividade, sofrimento emocional e acesso fácil às plataformas estão entre os fatores de risco descritos pelo Ministério da Saúde. Para algumas pessoas, o jogo funciona como uma tentativa de aliviar frustrações ou se afastar, por algum tempo, das preocupações.

Essa relação precisa ser compreendida no atendimento. Ansiedade e depressão podem existir antes das dificuldades com as apostas, surgir junto delas ou se agravar com as perdas. O guia de cuidado publicado pelo Ministério da Saúde em 2026 orienta que a avaliação considere tanto essas condições quanto as circunstâncias familiares, econômicas e sociais.

O atendimento depois do bloqueio

Ainda não é possível saber quanto a proibição reduzirá os danos das apostas no Brasil. A OMS recomenda medidas sobre oferta, publicidade e fiscalização, associadas à prevenção e ao tratamento. Avaliar o resultado da mudança brasileira exigirá acompanhar sua aplicação e o acesso das pessoas aos serviços de saúde.

Para quem desenvolveu dependência, os primeiros dias sem jogar podem exigir atenção. O guia brasileiro registra que a autoexclusão — quando a pessoa pede para ser impedida de apostar — pode ser acompanhada de ansiedade e desconforto emocional. A proibição nacional é uma situação diferente, mas a orientação reforça a necessidade de oferecer apoio durante a interrupção.

A psicoterapia faz parte do tratamento. Entre as abordagens destacadas pela OMS estão a terapia cognitivo-comportamental e a entrevista motivacional, que trabalham o comportamento de apostar e a disposição para mudá-lo.

O cuidado também passa por providências práticas: preservar o dinheiro das despesas essenciais, organizar as dívidas, bloquear acessos às apostas e conversar com alguém de confiança. O NHS recomenda essas medidas como apoio à recuperação.

Para a família, pode ser difícil conversar depois de descobrir empréstimos ou gastos ocultos. O atendimento deve abrir espaço para esses conflitos sem humilhar quem precisa de ajuda. Vergonha e medo de julgamento podem atrasar a procura pelos serviços, segundo o Ministério da Saúde. Familiares também podem precisar de acompanhamento.

No Brasil, uma Unidade Básica de Saúde pode ser o primeiro lugar de acolhimento. Os Centros de Atenção Psicossocial, os CAPS, integram a rede especializada, e o Meu SUS Digital oferece cadastro para teleatendimento relacionado a jogos e apostas.

Quando há risco de suicídio ou ameaça à segurança, a procura deve ser por atendimento de urgência. Não é necessário esperar que a dívida seja resolvida ou que a pessoa consiga parar de jogar para começar o cuidado.

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*O Dr. João Paulo Mendes é médico, pós-graduado em Psiquiatria e mestrando em Saúde Pública. Atua na área de saúde mental e escreve sobre saúde, qualidade de vida e políticas públicas, com atenção à relação entre trabalho e sofrimento emocional.

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Fontes

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