Foz do Iguaçu, PR – O aniversário de 114 anos do Corpo de Bombeiros Militar do Paraná, celebrado nesta quinta-feira, 8 de outubro de 2026, expõe a distância histórica entre a retórica institucional do Estado e a realidade concreta da classe trabalhadora que veste a farda. A manifestação pública do comando do 9º Batalhão de Bombeiro Militar (9º BBM), sediado na fronteira, trouxe à tona as tensões estruturais que marcam o cotidiano da corporação militarizada.
Em nota dirigida ao efetivo, o comandante da unidade, tenente-coronel Marco Antonio Ferreira Pereira, recorreu à memória dos veteranos para justificar a continuidade de um modelo operacional historicamente sustentado pelo sacrifício individual:
“Aos nossos veteranos, que construíram com muita bravura e sacrifício, o legado que hoje carregamos no peito: a fúria do fogo, das águas, dos escombros, nunca foram capazes de abalar a coragem e força de vontade dos homens e mulheres que vestiram esta farda.”
Embora o discurso oficial enalteça o heroísmo, o próprio comando reconheceu que o peso real da máquina pública recai sobre os praças — soldados, cabos e sargentos que ocupam a base da hierarquia militar e executam o trabalho braçal de resgate e combate a chamas sem o mesmo poder decisório ou remuneração do oficialato:
“Aos nossos praças, que estão na ponta da linha, nas ruas, encarando o perigo de frente: vocês são o verdadeiro coração desta corporação. Cada vida salva, cada incêndio apagado e cada família que volta a sorrir é resultado direto do suor e da dedicação de cada um de vocês. Sempre que a sirene toca, a competência e a prontidão da nossa tropa reafirmam que a nossa missão de salvar é, acima de tudo, sagrada.”
A qualificação do ofício como missão “sagrada” contrasta com a natureza do bombeiro enquanto servidor público submetido a riscos ocupacionais severos, calor extremo, inalação de fumaça e traumas psicológicos recorrentes. Enquanto a tropa de base arrisca a integridade física na ponta, a cúpula de oficiais concentra as funções de gestão administrativa e relações com o poder público estadual:
“Aos nossos Oficiais, deixo o meu sincero reconhecimento. O trabalho incansável para modernizar, inovar e melhorar a nossa instituição é o que garante que o 9º Batalhão de Bombeiro Militar continue forte, bem equipado e de prontidão para encarar qualquer desafio, agora e no futuro.”
O custo do serviço público prestado pelo Estado também é absorvido no âmbito doméstico. O tenente-coronel admitiu que o regime de plantões e a sobrecarga de trabalho impõem perdas diretas à convivência e à saúde das famílias dos servidores, que funcionam como amortecedores do desgaste gerado pela função:
“E não poderia deixar de me dirigir às nossas famílias: esta data é tanto de vocês quanto nossa. Sabemos que a rotina de bombeiro militar exige sacrifícios diários e ausências que muitas vezes doem. E é no lar que encontramos o nosso porto seguro, a base e o apoio silencioso que nos mantêm de pé depois de um plantão difícil. Nosso mais profundo respeito e gratidão por dividirem conosco o peso e a nobreza desta missão.”
A corporação encerrou o pronunciamento reafirmando seu papel legal na defesa da vida, do patrimônio e da natureza em solo paranaense, em um contexto de pressões climáticas crescentes e disputas orçamentárias por infraestrutura no serviço público:
“Parabéns ao Corpo de Bombeiros Militar do Paraná por esses 114 anos de honra e de serviço incansável na proteção da vida, do meio ambiente e do patrimônio! Que o orgulho de pertencer a esta corporação continue guiando os passos de cada um de nós.”



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