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A dura batalha pela sucessão no trono zulu

Morte do rei e da rainha regente em um intervalo de apenas um mês e meio abre uma disputa entre os sucessores do grupo étnico mais importante da África do Sul

Por Amilton Farias
26/04/2024 - 01:54
em História
Foto: Reprodução

Foto: Reprodução

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Morte do rei e da rainha regente em um intervalo de apenas um mês e meio abre uma disputa entre os sucessores do grupo étnico mais importante da África do Sul.

O carro fúnebre com o corpo da rainha regente da monarquia zulu chegou na quarta-feira passada ao palácio de Nongoma, na província sul-africana de KwaZulu-Natal, no leste do país, escoltado por chefes tribais e cidadãos adornados com peles de leopardo, miçangas coloridas, escudos e lanças. Ali, em uma cerimônia tradicional e privada, a família se despediu de Mantfombi Dlamini Zulu, de 65 anos. Sua morte, pouco mais de um mês depois do falecimento do rei Goodwill Zwelithini, aos 72 anos, mergulhou o povo zulu em uma situação inédita e abriu uma grande incógnita pela sucessão de um império onde as terras, principal fonte de renda de seus habitantes, são administradas à margem das leis nacionais. Os zulus formam o grupo étnico mais importante da África do Sul, ao qual pertencem cerca de 21% da população (entre 10 e 12 milhões de sul-africanos), mítico por sua valentia e destreza na batalha contra os britânicos, e que, com a morte de seu oitavo monarca, em março, sucumbiu aos rumores e disputas familiares mundanas, muito distantes do seu ostentoso vestuário típico.

A caixa de Pandora se abriu totalmente em Kwazulu-Natal, a província sul-africana que abriga o reino da Zululândia, onde seus dirigentes, embora sem poder executivo―a Constituição lhes atribui um papel meramente cerimonial―, são fundamentais na tomada de decisões e no apoio às políticas nacionais da África do Sul. Após meio século de reinado, Zwelithini, férreo defensor de uma instituição que remonta ao século XVIII, não superou as complicações da diabetes que sofria e morreu no final de março Seu testamento designou a rainha Mantfombi Dlamini Zulu como regente para fiscalizar a nomeação de seu sucessor. Porém, menos de um mês depois, ainda no período de luto pelo rei, Dlamini foi internada no hospital Milpark, em Johannesburgo, onde morreu em 29 de abril, sem que até agora tenham sido divulgadas as causas. Nesta sexta-feira ocorrerá o funeral oficial, provavelmente com a presença de membros do Governo sul-africano.

Foi uma surpresa que nos deixou completamente desolados, mas não haverá um vácuo de poder na nação zulu durante este tempo de luto”, declarou o primeiro-ministro zulu, Mangosuthu Buthelezi, também fundador do histórico Partido da Liberdade Inkatha ― que desempenhou um papel crucial na transição para a democracia do país, sempre mantendo o diálogo com o Partido Nacional, dos brancos afrikaners. O presidente da África do Sul, Cyril Ramaphosa, compartilhou a consternação dos zulus ao manifestar suas condolências: “Nesta hora de dor, estendo mais uma vez meus pensamentos e orações à família real, ao ter que se despedir da regente em uma sucessão tristemente curta”.

O rei Zwelithini deixou 6 rainhas, 11 princesas e 26 príncipes, além de seis palácios e a gestão de um orçamento anual para a província de 71,3 milhões de rands (26,4 milhões de reais). Dlamini era sua terceira esposa, mas ostentava o título de “grande rainha” pelo dote que ofereceu e por ter sangue real (é filha do rei Sobhuza II, do vizinho eSwatini, a antiga Suazilândia). A sucessão, tradicionalmente, recairia sobre o filho mais velho da primeira das esposas, mas este, o príncipe Lethukuthula, morreu em novembro do ano passado. As autoridades investigam seu caso como possível homicídio.

Ainda não se sabe se algum dos filhos foi educado para ser rei, porque o trono zulu sempre foi elemento de disputa: o rei Shaka, venerado como o grande guerreiro zulu que inspirou filmes e desenhos animados, conhecido por sua destreza bélica e por ser o artífice de táticas reproduzidas durante a luta contra o apartheid, foi assassinado por um irmão que queria lhe arrebatar o poder. E o próprio Zwelithini foi obrigado a se exilar e se esconder durante três anos antes de ascender ao trono, por causa das ameaças de morte que recebia. Era uma realidade que o falecido monarca pretendia evitar a quem o sucedesse, mas que ficou truncada com a prematura morte da rainha regente.

Maxwell Shamase, historiador e professor da Universidade da Zululândia, confirma que o nome do nono rei zulu não é conhecido nem sequer pelos membros da família real. A balança poderia pender entre o primeiro filho da rainha Dlamini, o príncipe Misuzulu, de 47 anos, e o príncipe Phumuzuzulu, filho da segunda esposa do falecido rei.

“É possível que as coisas tenham mudado, porque agora temos uma monarquia constitucional em que todos são iguais”, aponta Shamase após observar que o príncipe Misuzulu estudou Relações Internacionais nos Estados Unidos. “Ele tem uma visão mais moderna da política, além de sangue real, e entende as práticas culturais que podem fortalecer a nação zulu”, prossegue o historiador. O príncipe Phumuzuzulu é o herdeiro do palácio Enyokeni, onde ocorrem eventos como a Dança do Junco, que ressalta o valor da virgindade e da moralidade das jovens (e que também serviu para lutar contra a aids na região). “Sua mãe desempenhou um papel fundamental ao reviver esta dança junto com o rei. Além disso, há pouquíssima informação sobre o príncipe, e talvez por isso mesmo ele pode ter sido criado para ser rei”, afirma Shamase.

Na espiral de declarações e disputas familiares abertas depois da morte de Dlamini, vários irmãos do marido dela acusaram também o primeiro-ministro zulu de exclui-los das reuniões familiares para tomar decisões diante da incógnita aberta. “Devemos participar das discussões e acordos. O povo diz que não estamos envolvidos, e isso é muito doloroso”, declarou uma das princesas, que nega qualquer relação com o suposto envenenamento da rainha regente, um rumor desmentido pela casa real. Também joga lenha na fogueira a primeira esposa do falecido monarca e suas duas filhas, ao exigirem na Justiça 50% do patrimônio real e o reconhecimento dela como única esposa legal de Zwelithini. Para demonstrá-lo, contrataram os serviços de um especialista em caligrafia que, conforme as interessadas, demonstrará que o testamento foi falsificado e precisa ser anulado.

Tags: fatos históricoshistóriamemória
Amilton Farias

Amilton Farias

Amilton Farias é jornalista e editor do Fronteira Livre

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