Bogotá (Colômbia) — A poucos dias do segundo turno das eleições presidenciais colombianas, o presidente Gustavo Petro voltou a colocar a soberania latino-americana no centro do debate político. Em publicação nas redes sociais, o mandatário denunciou que recursos ligados ao governo do primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu estariam sendo utilizados para influenciar o processo eleitoral colombiano em favor do candidato da direita Abelardo de la Espriella.
A acusação foi feita em um momento decisivo da disputa presidencial e reforça um tema que acompanha a história da América Latina há décadas: a interferência de interesses estrangeiros nos rumos políticos da região.
Segundo Petro, os recursos estariam chegando ao país com apoio de aliados internacionais e grupos interessados em alterar o resultado eleitoral.
“O dinheiro de Netanyahu, o genocida de bebês de Gaza, com ajuda de autoridades dos Estados Unidos, seus aliados e narcotraficantes, flui agora para a Colômbia para comprar votos”, escreveu o presidente colombiano.
Petro afirmou ainda que as informações que embasam a denúncia estariam sustentadas por gravações submetidas a análises técnicas. Até o momento, porém, não foram divulgados elementos públicos que permitam a verificação independente das acusações.
Mais do que uma disputa eleitoral, a denúncia recoloca em pauta uma questão histórica da América Latina: quem influencia as decisões políticas dos países da região e quais interesses estão por trás dessas movimentações.
A Colômbia ocupa posição estratégica no continente. Além de ser uma das maiores economias sul-americanas, o país mantém relações históricas com Washington e desempenha papel importante na política regional. Por isso, qualquer acusação de interferência externa em seu processo eleitoral ultrapassa as fronteiras colombianas e alcança todo o debate latino-americano sobre soberania e autodeterminação.
Nos últimos anos, Gustavo Petro tornou-se um dos principais críticos da política do governo de Israel em relação ao povo palestino. Suas posições levaram ao rompimento das relações diplomáticas entre Bogotá e Tel Aviv e provocaram atritos com setores conservadores da política internacional.
O presidente colombiano também já havia denunciado o que considera tentativas de influência norte-americana nas eleições de seu país. As críticas ganharam força após manifestações públicas de apoio do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ao candidato Abelardo de la Espriella.
A denúncia ocorre em uma eleição marcada pela polarização. No primeiro turno, De la Espriella recebeu 43,78% dos votos, enquanto Iván Cepeda, candidato apoiado por Petro e representante do Pacto Histórico, alcançou 40,98%. A diferença apertada transformou a segunda rodada em uma das mais disputadas da história recente da Colômbia.
Sepan bien colombianos y colombianas, mujeres cuidadoras de la vida, antes de votar y midan las consecuencias: Está comprobado por grabaciones verificadas por informática forense: el dinero de Netanyahu, el genocida de bebés de Gaza, con ayuda de autoridades de EEUU, sus aliados,… https://t.co/4k8uRZPvd2
— Gustavo Petro (@petrogustavo) June 6, 2026
Mas a relevância do episódio vai além do resultado das urnas.
A história latino-americana é marcada por intervenções políticas, econômicas e diplomáticas justificadas em nome da democracia, da estabilidade ou da liberdade. Em diferentes momentos, governos da região enfrentaram pressões externas, sanções, bloqueios ou campanhas de desestabilização associadas a interesses estratégicos e econômicos.
Por isso, a denúncia feita por Petro encontra eco em um debate mais amplo. Trata-se do direito de os povos decidirem seus próprios destinos sem a influência de governos estrangeiros, interesses econômicos internacionais ou disputas geopolíticas que ultrapassam suas fronteiras.
Independentemente dos desdobramentos da acusação, o episódio expõe uma contradição recorrente da política internacional. Enquanto os discursos oficiais costumam falar em defesa da democracia, da liberdade e dos direitos humanos, muitas vezes são os interesses estratégicos, energéticos e econômicos que definem onde estarão concentradas as atenções das grandes potências.
A poucos dias da votação, a denúncia de Petro amplia a temperatura da disputa eleitoral. Mas também reacende uma pergunta que atravessa gerações na América Latina: até que ponto os países da região são realmente livres para decidir o próprio futuro sem interferências externas?



















