Buenos Aires (Argentina) — A notícia do fechamento da Ediciones de la Flor vai muito além do encerramento das atividades de uma editora. O anúncio marca o fim de uma das mais importantes experiências editoriais independentes da América Latina e se transforma em símbolo de um momento político e cultural que atravessa a Argentina contemporânea.
Durante quase seis décadas, a editora fundada por Daniel Divinsky resistiu a tudo aquilo que costuma destruir projetos culturais. Sobreviveu à censura, enfrentou a perseguição da ditadura militar argentina, atravessou hiperinflação, recessões, moratórias econômicas e sucessivas crises institucionais. Resistiu quando livros eram proibidos, autores perseguidos e intelectuais empurrados para o exílio.
Mas não resistiu ao cenário que hoje se desenha no país.
A casa editorial que apresentou Mafalda ao mundo encerrará suas atividades justamente em um período marcado pelo desmonte de políticas culturais, pela redução do investimento público no setor e pela ascensão de um discurso político que trata a cultura como gasto supérfluo e o pensamento crítico como inimigo ideológico.
A coincidência é simbólica.
Mafalda nunca foi apenas uma personagem de humor. Criada por Quino em 1964, tornou-se um dos maiores símbolos do pensamento humanista latino-americano. Questionava guerras, desigualdades, autoritarismos e injustiças sociais. Representava a infância que pergunta aquilo que o poder prefere não responder.
Talvez por isso sua trajetória esteja tão ligada à história da própria Ediciones de la Flor.
Foi essa editora independente que transformou a personagem em patrimônio cultural da América Latina. Foi ela que garantiu circulação, permanência e acesso a uma obra que atravessou gerações defendendo valores como democracia, direitos humanos, justiça social e solidariedade.
O encerramento da editora ocorre após a transferência dos direitos da obra de Quino para o conglomerado multinacional Penguin Random House. Formalmente, essa é a razão econômica que inviabiliza a continuidade da empresa. Mas limitar a discussão a uma questão contratual seria ignorar o contexto mais amplo em que esse fechamento acontece.
Desde a chegada de Javier Milei à presidência, a cultura argentina passou a ocupar o centro de uma disputa política profunda. Museus, programas culturais, instituições de memória, espaços de promoção artística e organismos ligados aos direitos humanos enfrentam cortes, redução de orçamento e questionamentos constantes sobre sua legitimidade, e fechamentos.
O discurso oficial apresenta essas medidas como parte de um processo de ajuste fiscal. Seus críticos enxergam algo mais profundo: um projeto político que reduz o papel da cultura na construção da cidadania e transforma a produção cultural em mera mercadoria submetida exclusivamente à lógica do mercado.
É nesse ambiente que o fechamento da Ediciones de la Flor ganha significado.
Não porque Javier Milei tenha fechado diretamente a editora. Não porque exista um decreto presidencial responsável por seu encerramento. Mas, por que o desaparecimento de espaços culturais independentes ocorre em um cenário onde a cultura perde proteção institucional, apoio público e capacidade de resistência diante da concentração econômica? A história da editora ajuda a compreender essa dimensão.
Durante a ditadura argentina, Daniel Divinsky foi preso sem julgamento e obrigado ao exílio. Obras foram censuradas. Livros foram retirados de circulação. Ainda assim, a editora sobreviveu. Hoje, a ameaça assume outra forma.
Ela não chega através da censura explícita. Surge pela concentração dos mercados culturais, pela fragilização das políticas públicas, pela lógica que transforma livros em produtos e leitores em consumidores. Surge quando a sobrevivência de projetos independentes passa a depender exclusivamente da capacidade de competir com conglomerados globais.
O desaparecimento da Ediciones de la Flor representa uma perda que ultrapassa as fronteiras argentinas. Significa menos diversidade editorial, menos pluralidade de vozes e menos espaços para a circulação de ideias que historicamente ajudaram a construir o pensamento crítico latino-americano.
Mafalda continuará existindo. Seus livros seguirão sendo vendidos. Novas gerações continuarão lendo Quino.
Mas a casa que acolheu essa menina questionadora durante mais de meio século está desaparecendo. E talvez exista uma ironia difícil de ignorar nisso tudo.
Em uma época em que o pensamento crítico é frequentemente tratado como problema, a editora que ajudou a transformar uma criança questionadora em símbolo universal da consciência social está fechando suas portas.
Não é apenas uma editora que desaparece.
É mais um sinal dos tempos que atravessam a cultura latino-americana.


















