Cevada avança no Paraná e redesenha a economia das lavouras de inverno

Cevada avança no Paraná e redesenha a economia das lavouras de inverno

Produtores trocam áreas de trigo pelo cereal impulsionado por cooperativas, indústria do malte e crescimento das cervejarias paranaenses

Expansão das maltarias fortalece a cadeia produtiva da cevada no Estado. Sistema Faep.
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Curitiba (PR) — O avanço da cevada nas lavouras paranaenses revela uma mudança silenciosa, mas significativa, no campo. Enquanto o trigo enfrenta sucessivas dificuldades de rentabilidade, agricultores de diferentes regiões do Estado passam a apostar em uma cultura que oferece maior previsibilidade de mercado, contratos antecipados e ligação direta com uma cadeia produtiva em expansão: a indústria do malte e da cerveja.

A safra 2025/26 deverá registrar a maior área cultivada com cevada da história do Paraná. Segundo o Departamento de Economia Rural (Deral), da Secretaria de Estado da Agricultura e do Abastecimento (Seab), serão 125,6 mil hectares plantados, crescimento de 21% em relação ao ciclo anterior. A produção também deve alcançar um recorde, chegando a 552,6 mil toneladas.

Na direção oposta, o trigo continua perdendo espaço. A estimativa aponta redução de 13% na área destinada ao cereal, que deverá ocupar 722 mil hectares nesta temporada.

Mais do que uma simples troca de culturas, o movimento reflete uma busca crescente dos produtores por estabilidade econômica em um cenário marcado por custos elevados, oscilações climáticas e margens cada vez mais apertadas.

Para o presidente do Sistema FAEP, Ágide Eduardo Meneguette, a mudança está diretamente relacionada à necessidade de garantir renda ao produtor rural.

“Nossos produtores precisam produzir com rentabilidade, sendo que cultivos como a cevada, que têm contratos de comercialização mais vantajosos e demanda consistente, são alternativas”, afirma.

O crescimento da cultura acompanha a expansão de uma cadeia produtiva construída ao longo dos últimos anos no Paraná. Cooperativas agropecuárias passaram a investir não apenas na compra da produção, mas também na industrialização do cereal. Um dos exemplos é a Maltaria Campos Gerais, empreendimento intercooperativo que ampliou a capacidade de processamento e criou novas oportunidades para os agricultores.

A lógica econômica é simples: ao garantir compra antecipada, assistência técnica e fornecimento de sementes, as cooperativas reduzem parte das incertezas enfrentadas pelos produtores.

Segundo Ana Paula Kowalski, coordenadora do Departamento Técnico e Econômico do Sistema FAEP, o trigo e a cevada disputam o mesmo espaço nas propriedades rurais, mas apresentam resultados econômicos diferentes.

“O trigo tem apresentado redução em função da baixa rentabilidade, que muitas vezes não cobre os custos de produção. Já a cevada encontra um mercado aquecido, impulsionado pelo crescimento das maltarias e das cervejarias”, explica.

A expansão da cultura concentra-se principalmente nas regiões dos Campos Gerais, Centro-Sul e Sudeste do Paraná, onde as condições climáticas favorecem o desenvolvimento da cevada. Municípios ligados às regionais de Ponta Grossa, Guarapuava, Irati, Curitiba, Apucarana e Pitanga lideram esse crescimento.

No campo, a mudança já faz parte da realidade de muitos produtores.

Em Prudentópolis, o agricultor e presidente do Sindicato Rural local, Edimilson Rickli, reduziu drasticamente a área destinada ao trigo.

“A conta da produção da cevada está mais fácil de fechar que a do trigo”, resume.

Hoje, cerca de 80% das áreas de inverno de sua propriedade são ocupadas pela cevada. Segundo ele, o sistema de integração com cooperativas oferece maior segurança para o planejamento da safra.

“Pegamos sementes tratadas, recebemos orientação técnica e temos preço pré-definido para a entrega da produção. Isso nos dá mais tranquilidade para investir”, afirma.

Nos Campos Gerais, a mesma tendência se repete. Em Carambeí, o produtor Ricardo de Aguiar Wolter cultiva cevada há quase duas décadas e acompanhou de perto a expansão da atividade após a instalação da Maltaria Campos Gerais.

“A área cultivada aumentou bastante na região. Hoje a cevada produz bem, gera renda e ainda deixa uma quantidade importante de matéria orgânica no solo”, observa.

A transformação não acontece apenas dentro das propriedades rurais. Ela acompanha o crescimento da indústria cervejeira paranaense, uma das mais dinâmicas do país.

Dados do Anuário da Cerveja 2026, do Ministério da Agricultura e Pecuária, mostram que o Paraná possui atualmente 184 cervejarias registradas, nove a mais que no ano anterior. São 4.349 produtos cadastrados e presença da atividade em 64 municípios.

Curitiba continua concentrando o maior número de estabelecimentos, mas cidades como Maringá e Guarapuava também ampliaram sua participação no setor.

Esse crescimento cria um ciclo econômico que conecta produtores rurais, cooperativas, agroindústrias, maltarias e cervejarias. Parte do malte que antes precisava ser importado passa a ser produzido dentro do próprio Estado, fortalecendo cadeias regionais e agregando valor à produção agrícola.

Ao trocar o trigo pela cevada, muitos agricultores não estão apenas escolhendo uma nova cultura de inverno. Estão respondendo às transformações do mercado, buscando segurança econômica e se integrando a uma cadeia produtiva que se tornou uma das mais promissoras do agronegócio paranaense.

O avanço da cevada mostra que a agricultura não é movida apenas pela tradição. Ela acompanha as mudanças da economia, do consumo e da indústria, redesenhando territórios produtivos e criando novas oportunidades para milhares de famílias que dependem da renda gerada no campo.


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