Manaus, AM – A neblina amazônica, fenômeno frequente na copa das árvores da Floresta Amazônica, tem papel importante no equilíbrio ambiental e na manutenção da vida microscópica da floresta. É o que indica uma pesquisa publicada no periódico Communications Earth & Environment, resultado do mestrado da pesquisadora curitibana Bruna Sebben, vinculada ao Programa de Pós-Graduação em Engenharia Ambiental da Universidade Federal do Paraná (UFPR).
O estudo foi realizado no Observatório de Torre Alta da Amazônia (ATTO), localizado na Estação Científica de Uatumã, no Amazonas. O local reúne pesquisadores do Brasil e da Alemanha que investigam as relações entre floresta e atmosfera. Para chegar à torre principal do observatório, a partir de Manaus, o trajeto dura cerca de seis horas e inclui rodovia, barco e estrada de terra.
Entre os principais resultados, os pesquisadores identificaram que a neblina amazônica atua como habitat temporário para microrganismos vivos, além de facilitar o transporte de nutrientes e contribuir para os ciclos biogeoquímicos, responsáveis pela reciclagem natural de elementos essenciais à vida, como água, carbono, nitrogênio e fósforo.
A neblina ocorre principalmente entre 3h e 7h da manhã, coincidindo com o nascer do sol. O fenômeno forma uma massa densa que cobre a vegetação entre 30 e 150 metros de altura, alterando a paisagem da copa das árvores.
“A floresta é de tirar o fôlego, uma experiência multissensorial que envolve visuais, sons e cheiros. Os diferentes tons de verde, a movimentação da copa pelo vento. E, no meio de tudo isso, uma torre, da qual se vê até mesmo o relevo por baixo desta selva”, descreve Bruna Sebben.
Segundo a pesquisadora, a neblina resulta da perda de calor para a atmosfera durante a noite e do impacto desse resfriamento sobre a umidade produzida constantemente pela floresta. Embora seja parte importante do ciclo da água amazônico, o fenômeno ainda é pouco estudado porque sua ocorrência é localizada, diferentemente dos chamados rios voadores.
Microrganismos vivem na neblina amazônica
As análises identificaram concentrações de até 98 mil células por mililitro de água coletada da névoa. Além disso, foram encontradas bactérias e fungos considerados essenciais para a decomposição de matéria orgânica e para a reposição de nutrientes no solo.
“Estávamos dando um tiro no escuro. Claro que tínhamos uma noção da microbiota atmosférica da Amazônia, por conta de estudos de outros colegas, mas nossa ideia era observar como esses micro-organismos se comportam durante os eventos de nevoeiro”, afirma a pesquisadora.
Entre as espécies identificadas estão as bactérias Sphingomonas paucimobilis e Pseudomonas putida, relacionadas ao ciclo do fósforo e à fertilidade do solo. Também foram registradas espécies que atuam na decomposição de compostos orgânicos, como Serratia marcescens e Ralstonia pickettii.
Embora algumas dessas bactérias possam causar infecções em ambientes hospitalares ou em pessoas imunossuprimidas, os pesquisadores destacam que, na floresta, elas desempenham funções ecológicas fundamentais para a manutenção dos ecossistemas naturais.
Nevoeiro funciona como ponte biológica
Outro ponto destacado pelo estudo é que a neblina funciona como uma ponte biológica entre atmosfera e solo. Isso porque as gotículas transportam microrganismos vivos do ar para as superfícies das plantas e do solo, permitindo que continuem metabolicamente ativos.
“As gotículas do nevoeiro atuam como forma de transporte ‘agradável’ para essas espécies microbiológicas. Cria um ambiente favorável para a atividade metabólica, porque as protege da radiação solar e da desidratação”, explica Bruna Sebben.
Segundo ela, quando o nevoeiro se deposita sobre folhas e solo, esses microrganismos passam a integrar comunidades conhecidas como filosfera, responsáveis por proteger plantas contra doenças, secas e excesso de radiação solar.
Além disso, durante a graduação em Engenharia Ambiental na UFPR, a pesquisadora já havia identificado uma relação entre neblina e esporos de fungos na Amazônia.
“No meu TCC observamos que, para noites com nevoeiro, a quantidade de esporos de fungos era muito maior. Isso nos deixou pensativos sobre essa relação, se o nevoeiro permitia a emissão ou se a emissão favorecia a formação de nevoeiro. No fim descobrimos essa conexão intrínseca, os dois se potencializam”, relata.
Microrganismos ajudam na formação da neblina
O estudo também indica que os próprios microrganismos contribuem para a formação da neblina amazônica. Isso ocorre porque partículas biológicas presentes no ar ajudam na condensação do vapor d’água produzido pela floresta.
De acordo com os cientistas, as paredes celulares de muitos microrganismos possuem carga elétrica negativa, o que favorece a atração de gotas de água e contribui para a estabilidade da névoa.
Dessa forma, os microrganismos deixam de ser apenas passageiros passivos do fenômeno e passam a atuar diretamente na dinâmica das nuvens baixas da Amazônia.
Consequentemente, queimadas e desmatamento afetam esse equilíbrio ambiental. Além de elevar as temperaturas, esses impactos reduzem a presença de microrganismos ativos e diminuem a frequência e a intensidade do nevoeiro.
Dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) mostram que, entre janeiro e março de 2026, a Amazônia perdeu 348 quilômetros quadrados por desmatamento. No mesmo período, o bioma registrou quase 9,4 mil quilômetros quadrados de áreas queimadas.
“Quanto maior o desmatamento, menor a frequência e intensidade do nevoeiro. Então definitivamente existe um feedback entre estes fatores. Uma rigorosa fiscalização contra queimadas e desmatamento é necessária”, afirma Bruna Sebben.
Como as amostras foram coletadas
Para coletar a neblina amazônica, os pesquisadores utilizaram um equipamento científico capaz de capturar gotículas de névoa por meio de fios de Teflon. O dispositivo foi instalado a 43 metros de altura em uma plataforma da torre principal do ATTO, que possui 325 metros.
“As gotinhas de nevoeiro impactam nos fios e ‘pingam’ em uma garrafa. Quando o nevoeiro é muito denso conseguimos coletar mais de 125 mililitros”, explica a pesquisadora.
As coletas ocorreram entre 2022 e 2023, durante 13 eventos de nevoeiro diferentes. Depois disso, as amostras passaram por análises laboratoriais na UFPR e no Instituto Adolfo Lutz, em São Paulo.

Entre os métodos utilizados estão a citometria de fluxo, que identifica células vivas por meio de laser e corantes fluorescentes, e a espectrometria de massa, usada para analisar a estrutura química dos microrganismos.
O estudo contou com financiamento de agências públicas, incluindo o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).



















