A pobreza não é acidente: ela faz parte do projeto da extrema direita

A pobreza não é acidente: ela faz parte do projeto da extrema direita

Enquanto bancos e grandes grupos econômicos acumulam fortunas, milhões de trabalhadores na América Latina enfrentam fome, desemprego e perda de direitos em nome do “mercado”

Entre cortes sociais, desemprego e repressão popular, cresce a resistência contra um sistema que transforma dignidade em mercadoria. Imagem produzida por IA/Amilton Farias.
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*Editorial Fronteira Livre

Existe uma mentira repetida todos os dias pelos grandes grupos econômicos, pelos bancos, pelos comentaristas de televisão e pelos governos alinhados ao mercado financeiro: a de que a pobreza seria apenas uma fase ruim da economia. Dizem que o desemprego, a fome e a perda de direitos são problemas temporários, necessários para “organizar as contas”, “acalmar o mercado” ou “modernizar o país”.

Mas basta olhar para a realidade da América Latina para perceber que isso nunca foi verdade.

A pobreza não é um erro do sistema. Ela faz parte dele.

Enquanto milhões de pessoas trabalham mais e vivem pior, uma pequena parcela da sociedade concentra riqueza como nunca aconteceu antes na história. O trabalhador perde salário. A comida sobe. O aluguel aumenta. O transporte fica mais caro. A saúde pública é desmontada. A escola pública perde investimentos. Mas os bancos continuam batendo recordes de lucro.

Isso não acontece por acaso.

Existe um modelo econômico funcionando exatamente para isso: tirar direitos da maioria para aumentar os ganhos de uma minoria muito rica.

Na América Latina, esse processo é ainda mais cruel. Países como Brasil, Argentina, Chile e Bolívia carregam uma longa história de exploração econômica, concentração de terra, desigualdade social e dependência dos interesses estrangeiros. Nossa região sempre foi tratada pelas grandes potências como fornecedora de matéria-prima barata e mão de obra explorada.

Os Estados Unidos desempenham papel central nessa engrenagem há décadas. Não apenas pela força econômica, mas pela influência política e ideológica sobre os governos latino-americanos. Sempre que algum país tenta fortalecer sua soberania, ampliar direitos sociais ou reduzir a dependência econômica, surgem pressões políticas, ataques financeiros, campanhas midiáticas e até tentativas de desestabilização.

Enquanto isso, governos de extrema direita aparecem como administradores locais desse modelo de concentração de riqueza.

A Argentina de Javier Milei talvez seja hoje o retrato mais explícito dessa lógica. Em poucos meses, milhares de trabalhadores perderam poder de compra, serviços públicos foram desmontados, aposentadorias foram atacadas e universidades passaram a sofrer cortes profundos. Ao mesmo tempo, o discurso oficial insiste em dizer que o sofrimento popular seria necessário para “salvar a economia”.

Salvar para quem?

Porque quem vive do salário já sente no corpo o resultado dessas políticas.

O trabalhador argentino não precisa de estatística para saber que a comida ficou mais cara. A mãe que precisa escolher entre pagar aluguel ou comprar carne não precisa ouvir economistas da televisão para entender que sua vida piorou. O aposentado que não consegue comprar remédios sabe exatamente quem paga a conta dessas reformas.

No Chile, mesmo depois das gigantescas mobilizações populares dos últimos anos, setores da extrema direita continuam defendendo um modelo herdado da ditadura de Pinochet, onde saúde, educação e aposentadoria foram transformadas em mercadorias.

Na Bolívia, protestos populares voltaram às ruas diante do aumento do custo de vida, da pressão econômica e das disputas políticas que atingem diretamente os trabalhadores mais pobres.

Nos Estados Unidos, país vendido ao mundo como símbolo máximo do capitalismo, a desigualdade também cresce de forma brutal. Enquanto empresas de tecnologia e fundos financeiros acumulam lucros bilionários, aumenta o número de pessoas vivendo nas ruas, trabalhando em jornadas exaustivas ou dependendo de múltiplos empregos para sobreviver.

A extrema direita internacional tenta convencer a população de que o problema está nos imigrantes, nos movimentos sociais, nos sindicatos ou nos pobres que recebem programas sociais. Mas o verdadeiro problema está em um sistema que concentra riqueza em poucas mãos e transforma direitos básicos em mercadoria.

Por isso, o neoliberalismo precisa destruir sindicatos, enfraquecer universidades públicas, atacar movimentos populares e desacreditar o jornalismo independente. Quanto menos organização popular existir, mais fácil fica retirar direitos e ampliar privilégios econômicos.

O medo também virou ferramenta política.

O medo do desemprego. O medo da fome. O medo de perder a casa. O medo de adoecer sem conseguir atendimento. Um povo com medo tem menos tempo para questionar quem realmente lucra com a desigualdade.

E, enquanto a população luta para sobreviver, os grandes grupos financeiros seguem acumulando fortunas gigantescas.

A verdade é que nenhum governo comprometido apenas com bancos e grandes empresários conseguirá governar para a maioria da população. Porque o lucro de poucos depende diretamente da precarização da vida de milhões.

Não existe neutralidade diante disso.

Quando um governo corta investimentos em saúde e educação enquanto amplia benefícios fiscais para grandes empresas, ele está fazendo uma escolha política. Quando criminaliza protestos populares ou chama trabalhadores organizados de “inimigos”, também está escolhendo de que lado está.

A resistência popular que cresce em diferentes partes da América Latina não nasce do radicalismo. Nasce do desespero de quem vê a dignidade desaparecer.

Ela aparece nas greves, nas ocupações, nas marchas estudantis, nas mobilizações indígenas, nas manifestações contra o aumento do custo de vida e nas periferias que seguem sobrevivendo apesar do abandono histórico.

O papel do jornalismo popular não é fingir neutralidade diante da injustiça. É revelar quem ganha e quem perde dentro desse modelo econômico.

Porque a fome não é inevitável.

O desemprego não é natural.

A miséria não caiu do céu.

Ela é produzida diariamente por um sistema que transforma sofrimento humano em lucro financeiro.

E enquanto essa engrenagem continuar funcionando, a luta por dignidade seguirá sendo também uma luta pela própria sobrevivência da classe trabalhadora latino-americana.

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*Este texto reflete a opinião institucional do portal Fronteira Livre sobre o tema abordado.


Tags: editorial

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