Você sabia que presidentes argentinos podem virar padrinhos?

Você sabia que presidentes argentinos podem virar padrinhos?

Na Argentina, uma tradição transformada em lei faz do presidente o padrinho oficial do sétimo filho ou da sétima filha de uma família.

Em 2014, Yair Tawil tornou-se o primeiro jovem não católico apadrinhado pela Presidência. Foto: Reprodução/Internt
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Buenos Aires (Argentina) — Você sabia que, na Argentina, o presidente da República pode se tornar padrinho ou madrinha oficial do sétimo filho ou da sétima filha de uma mesma família? A tradição é conhecida como padrinazgo presidencial, existe há mais de um século e foi incorporada à legislação nacional em 1974.

O costume começou em 1907, quando uma família de imigrantes de origem russa pediu ao então presidente José Figueroa Alcorta que apadrinhasse seu sétimo filho. A solicitação se inspirava em uma tradição do antigo Império Russo, onde autoridades assumiam simbolicamente o apadrinhamento dessas crianças como forma de proteção e reconhecimento.

Com o passar do tempo, a prática ganhou força na Argentina e acabou se misturando ao folclore popular do Rio da Prata. Em diferentes regiões, circulava a crença de que o sétimo filho homem poderia se transformar em lobizón, uma espécie de lobisomem presente no imaginário argentino e guarani. A sétima filha, em algumas versões populares, também era associada a poderes sobrenaturais.

Quando o folclore encontra o Estado

A relação entre o padrinazgo presidencial e o mito do lobizón é tratada de formas diferentes por pesquisadores e historiadores. Há quem veja no apadrinhamento uma resposta simbólica ao medo popular em torno do sétimo filho. Outros apontam que a tradição oficial tem origem principalmente nos costumes trazidos por imigrantes russos.

Mesmo com essas interpretações diferentes, o fato é que a prática se consolidou como uma tradição institucional argentina. Em 1974, a Lei nº 20.843 oficializou o padrinazgo presidencial e estabeleceu o direito ao apadrinhamento pelo titular do Poder Executivo Nacional.

A legislação prevê o reconhecimento oficial do sétimo filho homem ou da sétima filha mulher de uma família, desde que atendidos os critérios definidos pela norma. O benefício também está associado a apoio educacional, garantindo acesso a estudos para pessoas apadrinhadas pelo presidente argentino.

Mais do que uma curiosidade jurídica, o caso mostra como crenças populares, imigração, tradição familiar e ação do Estado podem se cruzar dentro de uma mesma política pública. O que nasceu de um pedido familiar acabou se transformando em uma das instituições simbólicas mais incomuns da América Latina.

Uma tradição que atravessou governos

Ao longo das décadas, o padrinazgo presidencial atravessou diferentes períodos políticos da Argentina. Sobreviveu a mudanças de governo, disputas ideológicas e transformações sociais, mantendo-se como um direito reconhecido pela legislação nacional.

Durante muito tempo, a tradição esteve ligada principalmente a famílias católicas. Essa limitação foi alterada no século XXI, quando a norma passou a admitir crianças de diferentes confissões religiosas, ampliando o alcance do benefício e reforçando uma leitura mais plural da sociedade argentina.

Um dos casos mais conhecidos ocorreu em 2014, quando Iair Gabriel Tawil, de uma família judia, tornou-se afilhado presidencial. O episódio ganhou repercussão justamente por simbolizar a abertura da tradição para além de sua origem religiosa mais restrita.

Mais de cem anos após seu início, o padrinazgo presidencial continua despertando curiosidade porque reúne elementos pouco comuns em uma lei moderna: memória dos imigrantes, folclore regional, proteção simbólica, educação e Presidência da República.

A história também mostra que nem toda política pública nasce apenas de debates técnicos ou disputas parlamentares. Às vezes, costumes familiares, medos antigos e tradições populares deixam marcas duradouras nas instituições de um país.

A série Você Sabia?, do Fronteira Livre, apresenta curiosidades da história, da ciência, da política e da cultura que ajudam a compreender como fatos aparentemente inusitados revelam aspectos profundos das sociedades humanas.


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