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Impeachment e prisão: a queda de Santiago Peña no Paraguai

Ex-presidente paraguaio responderá por crimes econômicos e tráfico de influência após ter renúncia rejeitada e prisão decretada.

Bloqueio de contas de metade da população do Paraguai levou à destituição e à prisão do presidente. Imagem ilustrativa.

Assunção, Paraguai – Em um intervalo de menos de 48 horas, o ex-presidente do Paraguai, Santiago Peña, renunciou ao cargo, teve o impeachment aprovado pelo Congresso Nacional e acabou colocado em prisão domiciliar. A derrocada fulminante do chefe do Executivo e a prisão do ex-presidente do Banco Central, Carlos Dagoberto Carvallo, foram desencadeadas pela intervenção e liquidação do Ueno Bank, uma das principais instituições financeiras digitais do país.

A crise tomou proporções sociais imediatas ao travar os recursos de cerca de 3 milhões de clientes. O bloqueio atingiu quase metade da população paraguaia, estimada em 6,5 milhões de habitantes, deixando trabalhadores e famílias sem acesso ao próprio dinheiro no dia a dia.

Pressão popular e grandes mobilizações tomam o país

Cansados de décadas de hegemonia da extrema-direita e de sucessivos governos de corrupção, trabalhadores e movimentos sociais converteram a indignação coletiva em uma ofensiva de massas.

As ruas da capital e de diversas regiões foram tomadas por uma onda de protestos que paralisou o país contra o espoliamento das economias populares.

Com a ocupação do Congresso e a força da pressão popular, a classe trabalhadora paraguaia impôs a sua vontade política, esmagando a sustentação do governo e forçando a derrocada de Santiago Peña.

Entenda a crise do Ueno Bank e as acusações

A intervenção no banco digital ocorreu após a identificação de graves problemas de solvência. A instituição concedeu volumes expressivos de empréstimos a empresas vinculadas ao seu próprio grupo econômico, operando com um índice de solvência que estava abaixo da metade do mínimo exigido pela legislação para funcionar.

Além dos depósitos individuais da população, o Ueno Bank administrava cerca de US$ 850 milhões (aproximadamente R$ 4,6 bilhões) em recursos públicos, incluindo verbas do Instituto de Previdência Social. Peña, economista que assumiu a Presidência em 2023, figurou como acionista até março de 2025 do Grupo Vázquez, proprietário da instituição financeira.

Diante desse cenário, a oposição passou a acusar o ex-presidente de conflito de interesses, manipulação regulatória, desvio de fundos previdenciários e acobertamento institucional por parte do Banco Central. O impacto inicial da crise levou à saída de Carlos Carvallo do comando do Banco Central na terça-feira (3), a pedido do próprio Peña, no mesmo dia em que a autoridade monetária iniciou a liquidação do banco.

O Partido Colorado e as alianças de Santiago Peña

O escândalo atinge o coração da hegemonia política no Paraguai. Santiago Peña é integrante do Partido Colorado, agremiação de extrema-direita que domina a política do país há décadas e coleciona histórico de denúncias e processos de corrupção envolvendo diversos ex-presidentes da República.

A trajetória de Peña também é marcada pelo alinhamento internacional com lideranças da extrema-direita global. O ex-mandatário construiu pontes e manteve alianças estratégicas com figuras como Donald Trump, nos Estados Unidos, Nayib Bukele, em El Salvador, Javier Milei, na Argentina, além do governo de Israel.

Essa rede de sustentação política e ideológica, contudo, não foi suficiente para estancar a sangria provocada pelo colapso financeiro e pela pressão popular, que colocaram em xeque os esquemas de poder tradicionais do hegemonismo colorado no país.

A votação na Câmara e o anúncio de renúncia

A tensão política escalou na quinta-feira (5), quando a Câmara dos Deputados deu início aos trâmites da denúncia e aprovou a acusação contra o presidente por 78 votos favoráveis e nenhum contrário. Diante do cerco e dos protestos, Peña anunciou publicamente a sua renúncia antes mesmo da votação na Câmara, alegando a busca pela estabilidade institucional do país.

“Tomei a decisão de apresentar a minha renúncia à Presidência da República. Faço isso pensando na estabilidade do nosso país, na paz social e na necessidade de preservar as nossas instituições democráticas.”

A estratégia da renúncia, contudo, esbarrou na resistência dos parlamentares de oposição e da pressão das ruas. Os congressistas avaliaram que aceitar a saída voluntária permitiria a Peña manter prerrogativas de foro privilegiado, optando por levar o processo de cassação até o fim no Senado. Na mesma quinta-feira, a Câmara analisou e rejeitou uma proposta de impeachment contra o vice-presidente Pedro Alliana, por 48 votos contrários e 30 favoráveis.

Como o Senado aprovou o impeachment de Santiago Peña

O Senado iniciou os debates sobre a cassação ainda na noite de quinta-feira, suspendendo a sessão para convocar uma reunião extraordinária na manhã de sexta-feira (6). No retorno dos trabalhos, a defesa de Peña solicitou a extensão do prazo de resposta de 12 para 72 horas, mas a proposta foi rejeitada por 39 votos.

Peña não compareceu pessoalmente ao plenário do Senado para se defender, sendo representado pelos advogados Adolfo Ferreiro e Ricardo Preda. Após as manifestações da acusação, da defesa e dos parlamentares, o impeachment de Santiago Peña foi aprovado por volta das 18h50 (horário de Brasília), com 44 votos a favor e uma abstenção, encerrando definitivamente o mandato do economista.

Prisão domiciliar e investigações do Ministério Público

Assim que a cassação foi consumada, o Ministério Público ordenou a prisão preventiva de Peña e de Carlos Carvallo. Por volta das 20h20 de sexta-feira, o ex-presidente foi detido por agentes da Polícia Nacional em sua residência, em Assunção, onde permanece em prisão domiciliar sob custódia policial, sem o uso de tornozeleira eletrônica, aguardando a definição da Justiça sobre o local de cumprimento da medida ao longo do processo.

Carvallo também teve sua prisão decretada para ser custodiado em uma unidade sob responsabilidade do Comando da Polícia Nacional, sem que o local exato fosse imediatamente confirmado pelas autoridades. O Ministério Público ressaltou que a custódia visa garantir a apresentação dos investigados à autoridade competente dentro do prazo legal, assegurando seus direitos constitucionais.

Peña nega qualquer irregularidade nas operações bancárias ou na gestão pública. Ele foi intimado a depor na manhã deste sábado (7) perante a Unidade Especializada em Crimes Econômicos e Anticorrupção. O promotor Christian Benítez explicou como os procedimentos investigativos estão sendo conduzidos.

“Vamos analisar as provas e depois formular as acusações e, finalmente, o juiz criminal de garantias será quem determinará onde essa pessoa ficará durante todo o processo.”

Entre as condutas apuradas pela força-tarefa da Promotoria estão os crimes de abuso de confiança e tráfico de influência.

Posse de Pedro Alliana e promessa de ressarcimento

Cerca de uma hora após o término da sessão no Congresso, o vice-presidente Pedro Alliana tomou posse como novo presidente da República para cumprir o restante do mandato, previsto para terminar em 2028. Em seu pronunciamento inicial ao país, Alliana focou a mensagem nos atingidos pelo colapso financeiro.

“Os compatriotas que hoje atravessam um momento difícil, em decorrência do colapso financeiro, serão plenamente compensados. Não os deixaremos sozinhos.”

O novo chefe do Executivo afirmou que o governo federal dará prioridade imediata ao ressarcimento e atendimento aos pequenos poupadores e trabalhadores em situação de maior vulnerabilidade social.

Amilton Farias

Amilton Farias é jornalista, fundador e editor do portal Fronteira Livre. Com vivência em diferentes países da América Latina e atuação voltada ao jornalismo territorial, dedica sua escrita à análise política, social e cultural das fronteiras, dos territórios e das realidades que marcam a vida dos povos latino-americanos.

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