Puerto Iguazú, Argentina – A rota traçada por Flávio Bolsonaro (PL-RJ) em território argentino para escapar da Justiça brasileira desencadeou uma crise política e institucional direta no país vizinho. Nesta quarta-feira, a deputada argentina Marcela Pagano formalizou uma denúncia criminal na Justiça Federal para apurar a cumplicidade de agentes do Estado e a liberação de estruturas públicas para a travessia ilegal do parlamentar.
O senador, filho do ex-presidente Jair Bolsonaro e figura central do grupo de extrema direita derrotado nas urnas em 2022, acumula investigações e está formalmente proibido de sair do Brasil pelo Supremo Tribunal Federal. O uso do solo argentino na operação de fuga expõe fissuras no aparato de segurança da fronteira e joga luz sobre alianças políticas transnacionais que desafiam decisões judiciais.
Segundo as apurações, Flávio cruzou a fronteira por via terrestre até Puerto Iguazú e embarcou em um jato rumo ao Equador, de onde seguiu para os Estados Unidos com o auxílio do governo norte-americano. A parlamentar sustenta que a passagem clandestina e a movimentação aeroportuária não teriam ocorrido sem conivência governamental interna.
“Apresentei uma denúncia criminal junto ao Tribunal Federal de Puerto Iguazú. Flávio Bolsonaro está proibido de sair do Brasil por determinação judicial. A imprensa relata sua entrada clandestina via Iguazú, a presença de um jato com matrícula argentina aguardando para levá-lo aos EUA e o bloqueio dessa decolagem pela ANAC. Enquanto isso, o governo alega que ele ‘nunca entrou’.”
A contradição entre a negativa burocrática da Casa Rosada e os registros operacionais é o eixo central da denúncia. Pagano aponta que o controle migratório sofreu interferência deliberada para blindar o aliado estrangeiro.
“Se ele entrou, alguém permitiu sua entrada. Se tentaram retirá-lo por meio de um aeroporto federal, alguém fez vista grossa.”
A petição exige medidas cautelares para evitar a destruição de provas, incluindo as gravações do circuito interno de monitoramento da travessia internacional e a documentação completa dos voos fretados.
“Solicitei a preservação das imagens das câmeras da ponte e do aeroporto, os planos de voo, as listas de passageiros e o contrato de fretamento, além da abertura de uma investigação sobre tráfico de pessoas em trânsito e prevaricação por parte de agentes públicos.”
A deputada rejeitou o uso das dependências públicas da Argentina para blindar investigados da extrema direita de outros países.
“A fronteira argentina não é um corredor VIP para ninguém. Soberania não se negocia nem se empresta.”
A ação pede a instauração de inquérito pelos crimes de tráfico ilegal de pessoas em trânsito pela República Argentina, abuso de autoridade e violação dos deveres de funcionário público.
O documento requer ainda o acionamento urgente da Interpol, da chancelaria argentina e da autoridade central responsável pelos acordos de cooperação penal com o Brasil, a fim de cruzar os dados da fuga com as ordens de prisão vigentes.
O episódio ganhou peso político após a revelação de que Santiago Caputo, principal estrategista do presidente Javier Milei, esteve em Puerto Iguazú no mesmo período em que o jato da Baires Fly aguardava o congressista brasileiro. Caputo tem relações prévias com a empresa aérea, tendo integrado comitiva transportada pela companhia em 2023.
Conforme apurado pelo portal La Política Online, Caputo chegou à cidade na noite de segunda-feira (26) em aeronave particular com um assessor próximo, permanecendo na região ao longo da terça-feira sem prestar contas de sua agenda oficial.
A presença do braço direito de Milei no aeroporto federal, enquanto a aeronave Gulfstream G400 operava a logística de Flávio Bolsonaro, amplia a suspeita de ingerência política direta do governo argentino na fuga internacional do parlamentar.



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