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Vice de Flávio Bolsonaro e suas conexões com Collor de Mello

Filho do principal conselheiro de Collor, Alfredo Gaspar compõe chapa que revive relações de poder e nomes investigados pela Polícia Federal.

Aliança presidencial resgata cinco décadas de influência dos Collor e reúne operador investigado por fraudes no INSS e lavagem em apostas. Foto: Divulgação.

Maceió, AL – A escolha de Alfredo Gaspar como candidato a vice de Flávio Bolsonaro consolida no topo da chapa presidencial a influência histórica do clã de Fernando Collor de Mello. A composição amarra interesses políticos e econômicos de Alagoas a um núcleo de poder que hoje repete a simbiose entre figuras públicas e operadores financeiros nos bastidores de Brasília.

Gaspar cresceu e formou sua carreira ancorado na estrutura da família Collor. Seu pai, Carlos Alberto Pinheiro de Mendonça, passou quase 50 anos como o principal conselheiro de Arnon de Mello e depois do próprio Fernando Collor. Essa atuação se estendeu durante a passagem de Collor pelo Palácio do Planalto, governo que confiscou 100 bilhões de dólares em contas bancárias de poupadores, aposentados e comerciantes antes de cair no impeachment em 1992.

O sustento da família de Gaspar veio diretamente das empresas dos Collor. Carlos Mendonça comandou o conselho estratégico das Organizações Arnon de Mello (OAM) — antigo conglomerado afiliado da TV Globo no estado — e esteve à frente do Instituto Arnon de Mello até maio de 2020, quando morreu vítima de covid-19.

Veículos da imprensa alagoana registraram que Mendonça era a voz de maior peso nas decisões de Fernando Collor e exercia influência direta sobre os rumos da política e dos meios de comunicação locais.

Mesmo com o afastamento e o desgaste de Collor após a presidência, a lealdade entre as famílias seguiu intacta. Carlos Mendonça assumiu a coordenação da campanha de Collor ao governo de Alagoas em 2010 e, no mesmo período, foi o encarregado de representar o ex-presidente na solenidade de posse na Academia Alagoana de Letras.

O herdeiro da relação com Collor foi Alfredo Gaspar. Em debate transmitido pela TV Gazeta nas eleições estaduais de 2022, o próprio Collor anunciou publicamente que Gaspar comandaria a pasta da Segurança Pública em seu governo:

“Por isso, eu gostaria de anunciar que o meu próximo secretário de segurança pública em Alagoas será o doutor Alfredo Gaspar de Mendonça. Ao mesmo tempo em que eu quero ratificar aqui os valores que eu cultuo. Os valores de Deus, Pátria, Família, Liberdade.”

Essa costura regional se entrelaça com as alianças de Jair Bolsonaro, hoje preso. Em novembro de 2020, durante viagem oficial ao território alagoano, Bolsonaro ignorou os antecedentes de Collor e declarou que o senador era “um homem que luta pelo interesse do Brasil”.

O apoio foi devolvido no segundo turno da disputa eleitoral de 2022, quando Collor subiu no palanque para pedir votos ao então presidente derrotado por Luiz Inácio Lula da Silva:

“Esse é o momento de buscarmos os indecisos, reforçar as nossas bandeiras e escolher a melhor opção para o bem do Brasil. Estamos com Bolsonaro presidente!”

Além da presença do filho do conselheiro de Collor na vice-presidência, a engrenagem da chapa de Flávio Bolsonaro reproduz a atuação de intermediários financeiros que marcaram o escândalo dos anos 1990. A figura central dessa conexão é o advogado Willer Tomaz, amigo próximo de Flávio.

Apurações da Polícia Federal e da imprensa mostram que Tomaz manteve conta bancária conjunta com Flávio Bolsonaro, forneceu jatos particulares para viagens e custeou despesas no exterior por meio de empresas de apostas esportivas sob seu controle. Uma funcionária doméstica foi usada como laranja para registrar bens de alto padrão, como uma mansão e uma ilha particular em Angra dos Reis.

Tomaz também foi alvo de mandado de busca e apreensão expedido pelo Supremo Tribunal Federal em inquérito que apura desvios e fraudes contra segurados do INSS. O avanço das investigações levou repórteres e analistas a compararem Tomaz a Paulo César Farias, o PC Farias, tesoureiro da campanha de 1989, assassinado após a queda do governo Collor.

Autor do livro O tesoureiro, o jornalista Xico Sá avaliou o alcance da estrutura montada pelo operador de Flávio em publicação nas redes sociais, caso também repercutido pelo ICL Notícias:

“PC Farias é amador perto de Willer Thomaz.”

Em outra análise sobre a disputa política de 2026, Xico Sá apontou as semelhanças estruturais entre o esquema Collor/PC Farias e os negócios que circulam ao redor da atual chapa:

“Primeiro, parte da grana do Master veio dos precatórios do Instituto do Açúcar e do Álcool do governo Collor. Em segundo, a ligação de Flávio Bolsonaro/Willer lembra Collor/PC Farias. Por fim, a equipe econômica de Flávio diz que não terá corte na área social.”

A união de Alfredo Gaspar e Flávio Bolsonaro materializa o retorno dos métodos do collorismo à disputa presidencial, combinando linhagem política tradicional de Alagoas, operadores de bastidores investigados e velhas práticas de enriquecimento patrimonial.

Amilton Farias

Amilton Farias é jornalista, fundador e editor do portal Fronteira Livre. Com vivência em diferentes países da América Latina e atuação voltada ao jornalismo territorial, dedica sua escrita à análise política, social e cultural das fronteiras, dos territórios e das realidades que marcam a vida dos povos latino-americanos.

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