*Por Amilton Farias
Foz do Iguaçu, PR – A corrida por terras raras, lítio e cobre acelerou negociações diretas entre a Casa Branca e governos sul-americanos em 2026. Argentina, Colômbia, Chile e Peru assinaram instrumentos de cooperação com Washington, enquanto Equador, El Salvador e Guatemala firmaram tratados comerciais bilaterais.
Por trás dessa ofensiva diplomática está o confronto aberto entre Estados Unidos e China pelo domínio das cadeias industriais, energéticas e militares. O risco imediato para os países do continente é aprofundar o papel histórico de fornecedores de matéria-prima bruta sem incorporar tecnologia própria.
Essa movimentação coincide com uma onda conservadora que governa boa parte da região. Lideranças que constroem palanques em torno da exaltação patriótica e da autoridade nacional ignoram a soberania real quando aceitam abrir reservas estratégicas sem exigir contrapartidas industriais para suas populações.
A estratégia de Trump contra o monopólio chinês
Washington busca reduzir com urgência sua vulnerabilidade externa em componentes industriais e bélicos. A China controla as etapas centrais do refino e da separação de terras raras, o que levou os Estados Unidos a buscarem fornecedores cativos nas Américas.
Em fevereiro de 2026, o governo norte-americano reuniu 54 países e a Comissão Europeia em conferência ministerial sobre minerais críticos. A pauta incluiu pisos de preços na fronteira e um tratado comercial plurilateral para blindar o mercado consumidor das potências ocidentais.
A política externa de Donald Trump articula financiamento, padronização regulatória e acesso irrestrito às jazidas. Para as capitais latino-americanas, negociar sem um projeto autônomo de refino repete os ciclos coloniais de espoliação, nos quais a renda gerada pelo subsolo enriquece corporações estrangeiras e deixa para trás passivos ambientais.
Argentina: Milei subordina reservas ao capital norte-americano
O governo de Javier Milei levou o alinhamento com a Casa Branca ao patamar mais explícito do continente. Em 4 de fevereiro de 2026, firmou um memorando para cooperação em mineração e processamento de minerais críticos. No dia seguinte, assinou um tratado abrangente de comércio e investimentos.
O texto negociado pelo gabinete comercial de Washington impõe compromissos severos. A Argentina se comprometeu a atuar junto às províncias para viabilizar projetos de mineradoras norte-americanas e a acelerar licenças por meio do Regime de Incentivo para Grandes Investimentos (RIGI).
O tratado estabelece ainda que Buenos Aires deve priorizar os Estados Unidos como parceiro em negócios de cobre e lítio. Na prática, a gestão Milei renuncia ao poder regulador do Estado sobre recursos insubstituíveis, sem exigir transferência de tecnologia, formação científica ou fábricas de baterias no território argentino.
Colômbia: minerais e cooperação nuclear em Barranquilla
Em 8 de setembro de 2026, durante a visita do secretário de Estado Marco Rubio a Barranquilla, a Colômbia formalizou dois acordos com os Estados Unidos: um plano de trabalho para cadeias de minerais críticos e um memorando para cooperação em energia nuclear civil.
O texto oficial fala em processamento conjunto, mapeamento geológico e identificação de jazidas. O governo colombiano sustenta o discurso de agregação de valor, mas a execução das cláusulas favorece a demanda industrial externa.
Sem controle sobre quais mineradoras recebem financiamento público, como as tecnologias serão compartilhadas e que direitos territoriais serão respeitados nas áreas mineradas, os recursos colombianos reforçam a segurança energética de Washington sem mudar a base produtiva de Bogotá.
Chile: Kast inicia consultas em meio à pressão por lítio e cobre
O presidente chileno José Antonio Kast firmou, em 12 de março de 2026, uma declaração conjunta com os Estados Unidos para abrir rodadas de consultas sobre minerais críticos e terras raras, com foco em financiamento e fornecimento estável.
O Chile concentra as maiores reservas de lítio do mundo e lidera a extração de cobre, insumos sem os quais a eletrificação global é inviável. A aproximação com Trump responde à urgência da Casa Branca em frear investimentos chineses no setor.
A diplomacia chilena cede terreno político ao negociar sob a pressão externa por prazos rápidos. A aceleração de concessões compromete a gestão de bacias hídricas e afeta comunidades locais no norte do país, sem assegurar a retenção das fases mais rentáveis da manufatura química e tecnológica.
Peru: o avanço de Washington sobre o mercado da China
Em 4 de fevereiro de 2026, o chanceler peruano Hugo de Zela assinou em Washington um memorando de entendimento centrado em minerais críticos e transferência técnica.
O pano de fundo é a disputa por um território já dominado pelo capital asiático. Levantamento publicado pelo veículo independente OjoPúblico em setembro de 2026 aponta que, entre 2021 e aquele mês, o Peru exportou 69 milhões de toneladas de minérios; 69% desse volume foi para a China, enquanto os Estados Unidos absorveram apenas 1,3%.
Washington utiliza o acordo para disputar o espaço econômico de Pequim em solo andino. A reportagem do OjoPúblico alertou para a falta de transparência sobre os compromissos assumidos pelo governo peruano, expondo o perigo de o país se tornar mero campo de batalha comercial entre as duas potências.
América Central e Equador: dependência regulatória
A estratégia norte-americana inclui tratados de comércio recíproco que impõem abertura tarifária e desregulamentação. El Salvador assinou seu termo em 29 de janeiro de 2026; a Guatemala assinou no dia seguinte, e o Equador formalizou o seu em 13 de março.
O tratado equatoriano abre o mercado local a manufaturas, produtos agrícolas e serviços digitais dos Estados Unidos. O gabinete comercial da Casa Branca tratou a ampliação das vendas de suas corporações como a meta principal do documento.
Esses pactos consolidam assimetrias econômicas estruturais. Ao igualar economias desiguais sob a retórica da reciprocidade, Washington amarra as políticas de desenvolvimento desses países e bloqueia instrumentos locais de proteção à produção nacional.
Brasil: o confronto entre política industrial e entrega de recursos
No Brasil, essa encruzilhada divide dois projetos de poder diametralmente opostos diante da disputa presidencial de 2026.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou a Política Nacional de Minerais Críticos, Estratégicos e Terras Raras, transformando em lei a obrigação de beneficiar os minérios e produzir componentes industriais em território nacional. A legislação cria travas tributárias e regulatórias contra a exportação de minério bruto e incentiva polos químicos e tecnológicos internos.
Ao defender a nova política, Lula denunciou a repetição de modelos históricos de espoliação mineral e demarcou o limite da atuação internacional:
“O Brasil não aceitará ser colônia.”
O governo federal condicionou parcerias com Estados Unidos, China ou países europeus à soberania dos recursos, à criação de empregos qualificados e à transferência efetiva de processos industriais.
No campo oposto, o senador Flávio Bolsonaro, candidato da extrema direita, defende o alinhamento preferencial com Donald Trump e a abertura irrestrita das jazidas minerais às corporações norte-americanas, nos moldes aplicados por Javier Milei.
A Constituição de 1988 estabelece que os recursos minerais pertencem à União. A disputa atual deixa claro que atrair capital estrangeiro com exigências industriais fortalece o país; abrir mão da regulação do Estado para atender demandas geopolíticas externas constitui entreguismo puro e simples.
A decisão sobre o futuro das riquezas regionais
A América Latina detém os minerais indispensáveis para a economia do século XXI, mas segue subordinada às decisões de Washington e Pequim. O alinhamento acrítico de governantes conservadores desmonta instrumentos de defesa nacional sob a máscara de uma falsa modernização.
A resposta soberana exige acordos multilaterais entre os países da região, defesa intransigente das legislações socioambientais e a recusa expressa em atuar como mero entreposto de extração. Riqueza mineral que não se converte em ciência, indústria e bem-estar social para quem vive no território não é desenvolvimento; é espoliação consentida.
____
*Amilton Farias é jornalista e editor-chefe do Portal Fronteira Livre
____
Este texto reflete a opinião institucional do portal Fronteira Livre sobre o tema abordado.



Deixe um comentário