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Protesto contra o Foro de Madrid termina em repressão no Chile

Carabineiros usaram canhões de água contra estudantes; Milei elogiou a ditadura de Pinochet durante o encontro de extrema-direita em Santiago.

Foto: Carmen Esquivel/PL

Santiago, Chile – A polícia chilena reprimiu com jatos de água e bombas de gás lacrimogêneo uma marcha de estudantes e trabalhadores contra o Foro de Madrid, encontro internacional que reuniu lideranças da extrema-direita mundial na capital chilena nesta quinta-feira. O confronto começou pouco antes da entrada da manifestação na Avenida Bernardo O’Higgins, a Alameda, principal via do centro da cidade.

Convocado pela Assembleia Coordenadora de Estudantes Secundários (ACES), o ato reuniu milhares de jovens que protestavam contra as medidas econômicas do governo de José Antonio Kast e a presença de figuras estrangeiras como o presidente argentino Javier Milei. Durante a ação dos Carabineiros, manifestantes lançaram fogos de artifício para tentar conter as tropas de choque. Com a grande quantidade de gás espalhada pela avenida, dezenas de estudantes precisaram se refugiar em prédios da Universidade Católica com sintomas agudos de intoxicação.

Entre os manifestantes, os protestos miravam o impacto direto do custo de vida e os cortes nos direitos sociais. A estudante Lorena Salazar denunciou a redução das bolsas de estudo promovida por Kast e a tentativa do Executivo de alterar a Constituição para decretar estado de exceção sem aval do Congresso. Salazar também criticou a reforma tributária em tramitação, que beneficia setores de alta renda enquanto o desemprego avança e o combustível encarece para as famílias trabalhadoras.

A manifestante Karol Peña afirmou que a reunião de cúpula no centro da capital representa um retrocesso direto para a população. “A extrema-direita nunca deu prioridade aos direitos humanos, nem aos direitos dos cidadãos”, declarou Peña. O protesto recebeu a adesão da Rede de Solidariedade Estudantil e da Confederação de Estudantes do Chile (Confech).

Em outro ponto do centro de Santiago, uma segunda marcha organizada pela Assembleia Popular Antifascista e pela Central Classista dos Trabalhadores denunciou o avanço de grupos que buscam concentrar privilégios econômicos. Rafael Torres, organizador da mobilização, explicou que a população precisa ocupar o espaço público porque as ruas continuam sendo a principal ferramenta de pressão popular para defender quem vive do próprio salário.

Os manifestantes também condenaram a presença oficial de autoridades estrangeiras no conclave, em particular a participação do embaixador dos Estados Unidos no Chile, Brandon Judd. Durante o painel “O novo papel dos Estados Unidos na Ibero-América”, o diplomata defendeu a chamada “Doutrina Donroe” — união da Doutrina Monroe com as ideias de Donald Trump. Judd declarou que os embaixadores aplicam essa linha conforme cada país e elogiou o governo local: “O que é formidável é que, quando se tem uma administração como a do presidente Kast, tudo se torna muito fácil”.

Promovido por uma fundação ligada ao partido espanhol Vox, o encontro defendeu alianças regionais conservadoras. Em sua fala, Javier Milei defendeu abertamente a ditadura de Augusto Pinochet e atacou as mobilizações de 2019 no Chile. “Depois da queda do comunista Allende, o Chile entrou num período de estabilidade e crescimento que durou mais de 40 anos”, afirmou Milei.

A declaração gerou repúdio imediato. Maya Fernández Allende, neta do presidente Salvador Allende — deposto no golpe de Estado de 11 de setembro de 1973 —, divulgou nota classificando a fala de Milei como extremamente grave por exaltar o regime militar a poucos dias da data que marca o golpe.

Amilton Farias

Amilton Farias é jornalista, fundador e editor do portal Fronteira Livre. Com vivência em diferentes países da América Latina e atuação voltada ao jornalismo territorial, dedica sua escrita à análise política, social e cultural das fronteiras, dos territórios e das realidades que marcam a vida dos povos latino-americanos.

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