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Exclusivo: Anonymous conta tudo, inclusive como alguém entra

Por Amilton Farias
17/09/2021 - 00:07
em Geral
Definindo-se como grupo apolítico com tendências anarquistas, EterSec explica que Anonymous age em defesa da democracia e liberdade do povo. (Imagem: a katz/Shutterstock)

Definindo-se como grupo apolítico com tendências anarquistas, EterSec explica que Anonymous age em defesa da democracia e liberdade do povo. (Imagem: a katz/Shutterstock)

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“As pessoas boas não precisam ter medo de nós. As pessoas ruins é que precisam.”

São oito da noite e estou em uma sala do chat criptografado Jitsi, com seis participantes da célula EterSec, do Anonymous, os responsáveis pelo ataque ao FiB Bank, no início da semana passada. Nenhum mostra o rosto, nem as famosas máscaras do V de Vingança — mas tampouco distorcem o que dizem com os vocoders que usam para modular as vozes nos vídeos.

As vozes variam. São de homens mais velhos, adultos, outros mais jovens, outras, mulheres, cada um com ritmos e sotaques tão diversos quanto o próprio Brasil. A entrevista mal começa e a dúvida surge: se são Anonymous, e são muitos, como entrevistá-los? Como se entrevista uma multidão?

“Nós preferimos ser referidos de uma forma coletiva”, responde um dos participantes. Ele explica que, diferente de outros grupos de hackers, as ações não são feitas por mera notoriedade, mas por ativismo político.

Outro me explica que a estrutura é totalmente horizontal, e que toda voz dentro de cada célula é válida. Então, como opiniões antagônicas acabam respeitadas nessa pluralidade?

“A gente consegue imaginar o Anonymous como um grane cardume no oceano. É comum ver a ponta de um cardume se desprendendo para uma direção oposta à maioria. Vão haver casos em que a gente vai ver pontas (ou células, ou indivíduos) indo para direções opostas, baseados nas suas próprias visões do ideal. Mas, por ser algo tão massivo e tão coletivo, ela retorna para a direção do cardume. E algumas vezes, a parte que se desprende leva o cardume a uma nova direção.”

Meme e militância: qual a origem e história do grupo Anonymous?

Definindo-se como grupo apolítico com tendências anarquistas, EterSec explica que Anonymous age em defesa da democracia e liberdade do povo. (Imagem: a katz/Shutterstock)

Anonymous é um grupo de ativistas que se manifesta contra qualquer pessoa ou instituição — pública ou privada — que coloque em risco a liberdade e o bem-estar coletivo. “O Anonymous é um ideal. É uma ideia”, responde um deles. “Um movimento descentralizado de ativismo político que usa a internet como seu meio principal de atuação, embora não esteja apenas limitado a ele.”

O Anonymous como ideia surgiu em ainda nos primórdios da web 2.0, em 2003. Diversos fóruns e imageboards permitiam a publicação anônima, o que eventualmente povoou o imaginário virtual de que todas aquelas pessoas fossem, na verdade, uma só.

No entanto, o que cruzou a linha do meme para atuação real foi a #OpChanology, a operação que foi o batismo de fogo do grupo. Em 2008, líderes da Cientologia entraram com uma ação de violação de direitos autorais contra o YouTube após o upload de um vídeo de Tom Cruise produzido pela igreja. A derrubada foi considerada censura pelo coletivo, que se agrupou em inúmeros fóruns e Internet Relay Channels (IRCs) para coordenar ações.

“As ações tiveram mais força nos ataques de negação de serviço (DDoS), que a gente pode colocar como uma passeata digital,” explica um dos ativistas.

Além dos ataques DDoS, manifestantes foram às ruas, em manifestações presenciais, com a máscara do protagonista da graphic novel V de Vingança. A indumentária, usada até hoje, faz parte do Anonymous por se identificar com o revolucionário Guy Fawkes, participante da Conspiração da Pólvora.

As ações do Anonymous se tornaram notáveis mundialmente em 2010, depois da pressão do governo dos Estados Unidos contra o WikiLeaks, bem como a perseguição contra o preso político Julian Assange. Instituições bancárias como Visa, Paypal e Mastercard, deixaram de financiar o site de vazamentos, o que levou a inúmeros DDoS e outras ações coordenadas dos ativistas.

Quem é a EterSec e como o movimento recruta no Brasil

Interessados em participar do Anonymous não precisam ser da área de Tecnologia da Informação, mas sim concordar e defender os mesmos ideais do coletivo. (Imagem: Cinthia Erdens Paiva/Shutterstock)

De lá para cá, manifestações presenciais e ataques virtuais passaram a orientar as ações do coletivo, que se dividiu em células de atuação, e hoje se organiza sob uma filosofia de defesa da democracia e liberdade individual — e isso é o primeiro passo para entrar no Anonymous.

Além disso, a própria EterSec, baseada em hacktivismo e ciberativismo, possui advogados, jornalistas, professores e até filósofos no grupo. Os ativistas me explicam que discussões filosóficas, compreensão de contextos e articulações com o público são tão importantes quanto o próximo defacement ou vazamento de dados.

“A estrutura do Anonymous não deve ser pensada só como hackers”, comenta um deles. “É essa diversidade que nos sustenta, nos consolida, nos ajuda a entender a sociedade em que atuamos. É a diversidade do conhecimento que enriquece nossas ações.”

Como alguém entra no Anonymous?

Não se chega ao Anonymous e se pede para entrar – até porque não tem onde “chegar”, um lugar oficial, por razões óbvias. Geralmente é o Anonymous que vai atrás de um possível candidato, através de recomendações de um dos membros que ele conheça (virtualmente ou pessoalmente). E talvez ele nem saiba quem indicou.

Uma das vozes me explica que o recrutamento pode se dar por determinadas operações, como a famigerada #OpNewBlood, mas que o convite normalmente ocorre por confiança. “Acaba caindo muito no que as pessoas conseguem fazer, no que estão dispostas a fazer e na necessidade do coletivo”, apontam.

E que, mesmo assim, essa confiança é cheia de resguardos: nenhum deles sabe qualquer coisa sobre o outro senão a alcunha utilizada. Isso, na verdade, é para proteção. Os ativistas explicam que prisões que ocorreram no passado, como a de um líder de uma célula estrangeira do Anonymous, Commander X, teria causado mais estrago se o ativista soubesse do paradeiro ou identidade de seus colegas.

Embora não especificassem números, a célula acredita que isso se deve ao país ocupar muito do espaço virtual no mundo todo. O grupo também explica que o Brasil possui imensa adesão e participação dentro do Anonymous em escala global.

No caso da EterSec, a célula é articulada internacionalmente, entre integrantes da América do Sul. O nome, eles me esclarecem, é uma piada interna, derivada do grupo ativista Lulz Security — o LulzSec, famoso pelo vazamento de dados da Sony. O nome, também explicam, possui uma certa relação com o símbolo do éter, mas isso eles acham melhor não me explicar.

Malwares para fins políticos

EterSec considera que a ética dos ataques virtuais está ligado à finalidade da ação. (Imagem: gualtiero boffi/Shutterstock)

Ao contrário do LulzSec, os ciberativistas da EterSec não hackeiam meramente por diversão, mas por princípios ativistas. O que, a bem da verdade, não quer dizer que eles não se divirtam fazendo o que fazem. No Brasil, a EterSec ficou famosa após um ransomware contra a Anatel, que na época queria aplicar limitações sobre a internet fixa. “Até hoje, membros daquele grupo fazem parte da célula”, afirma um dos ciberativistas.

“Quando fizemos uso do ransomware, nós editamos a mensagem para deixar claro o que nós queremos. A exigência não é o pagamento de dinheiro, mas a mudança de comportamento daquele governo com a população deles.”

Todo ataque da EterSec começa, de certa maneira, como um ataque hacker convencional: eles avaliam as vulnerabilidades presentes nos alvos e, então, planejam a investida. Durante casos em que a investigação demanda ataques específicos, eles mesmo desenvolvem seus próprios aplicativos.

Os próprios hacktivistas explicam que, de malwares a trojans, nenhuma das ferramentas usadas por hackers é imoral demais para as operações, contanto que o objetivo seja político.

“Depende muito do alvo. Na nossa ação contra o governo da Colômbia, usamos dois softwares, o Betcha, e o WannaCry. Pegamos a parte de vulnerabilidade de um e a criptografia de outro”, apontam. “Mas se preciso, desenvolvemos nossos próprios. O Brasil tem muitos talentos nessa área.”

Mas uma opinião consensual entre a célula é que os alvos estão raramente protegidos de maneira decente, o que até pode ser uma triste verdade no mundo da cibersegurança, mas não para eles. “Algumas falhas chegam a ser absurdas. Existem casos que a gente olha e pensa, não é possível que eles deixaram isso desse jeito.”

Eles ainda explicam que, por padrão, ações como a do FibBank sempre levam a algum tipo de retaliação, o que resultam na necessidade de se protegerem mais. Algo que, para eles, não é exatamente novidade. “As pessoas que tão envolvidas já são meio aficionadas por este mundo.”

Quando o Anonymous é Anonymous de verdade?

Cibercriminosos e interesseiros usam imagem do Anonymous para cometer crimes ou lucrar sobre a fama dos ativistas. (Imagem: Gorodenkoff/Shutterstock)

Durante a conversa, relembro que, em 2016, os Anonymous já enfrentavam problemas com impostores usando a imagem do coletivo para benefício próprio. “Esse é um problema recorrente aqui no Brasil, e na América Latina no geral. Sempre que o Anonymous faz uma ação que recebe notoriedade, aparecem diversas páginas prometendo dados de cartões de crédito vazados,” lamenta um dos ativistas. “Isso acaba manchando a imagem do Anonymous.”

A EterSec alerta que, para reconhecer quando uma célula é legítima, é necessário notar que eles nunca tomam ações voltadas contra a sociedade civil. Eles explicam: “Uma forma muito simples que a gente tem de verificar se uma ação está indo a favor dos ideais é se perguntar: ela está atingindo um órgão estatal ou empresa que está agindo de forma autoritária?”

No mundo de hoje, as ações do Anonymous estão ligadas diretamente à defesa da democracia. Ou, nas próprias palavras da célula, da promoção de uma “democracia de verdade” — algo cada vez mais em risco no mundo todo.

“Nós vivemos em repúblicas representativas”, afirmam. “Não vivemos em democracias de verdade. O que acontece é que escolhemos qual governante vai mandar na gente por quatro anos.”

O grupo ainda considera o sistema uma opção melhor contra outros regimes, mas não sustenta nenhum amor ou ilusão partidária. “Sabemos que quem sobe no palanque já chega lá com o rabo preso.”

Ao final da entrevista, comento que um dos termos mais comuns procurados no Google é se o Anonymous é do bem ou do mal. Eles riem e me respondem:

“As pessoas boas não precisam ter medo de nós. As pessoas ruins é que precisam.”

 

Tags: Geral
Amilton Farias

Amilton Farias

Amilton Farias é jornalista e editor do Fronteira Livre

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