Rio de Janeiro (RJ) — Quando Pablo Marí desembarcou no Brasil em 2019, carregava uma trajetória pouco comum para alguém que, poucos meses depois, faria parte de uma das temporadas mais marcantes da história do Flamengo. Aos 26 anos, o defensor espanhol chegava ao Rio de Janeiro vindo do Deportivo La Coruña, da segunda divisão da Espanha, após uma carreira construída longe dos holofotes reservados aos grandes nomes do futebol europeu.
A própria chegada ao clube carioca foi cercada de incredulidade. Acostumado à realidade de quem disputava divisões inferiores e passava por empréstimos ligados ao grupo do Manchester City, Marí admite que teve dificuldade para acreditar quando soube do interesse do Flamengo. O convite parecia improvável. Afinal, tratava-se de um clube que montava um elenco para disputar títulos continentais, liderado por Jorge Jesus e cercado de enorme expectativa da torcida.
A decisão, porém, foi rápida. Bastaram poucos dias para que o espanhol aceitasse atravessar o Atlântico em um movimento pouco comum no futebol contemporâneo. Enquanto a maioria dos jogadores sul-americanos sonha em seguir para a Europa, Marí fazia o caminho inverso e encontrava no Brasil uma experiência que mudaria profundamente sua percepção sobre o futebol.
O impacto começou dentro do Maracanã.
Acostumado aos estádios espanhóis e à atmosfera do futebol europeu, o zagueiro encontrou algo que, segundo ele, não conseguia explicar nem mesmo aos amigos que acompanhavam sua carreira do outro lado do oceano. Pouco tempo após chegar ao Flamengo, concedeu uma entrevista ao jornal espanhol AS e comparou a grandeza do clube carioca à de gigantes como Real Madrid e Barcelona. A declaração provocou surpresa e questionamentos entre seus conhecidos na Espanha.
A resposta que costumava dar tornou-se uma das frases mais emblemáticas de sua passagem pelo Flamengo.
“Não é capaz de enxergar porque não veio viver um dia aqui. No momento em que vier e acompanhar um jogo no Maracanã, depois terá a ideia do que é comparar uma coisa com a outra.”
A declaração ajuda a compreender aquilo que mais chamou atenção do espanhol durante sua passagem pelo Brasil. Para ele, o Flamengo não era apenas um grande clube. Era um fenômeno social. Algo difícil de ser traduzido apenas por títulos, números de torcedores ou receitas financeiras.
Marí conta que uma das sensações mais marcantes vividas no Rio de Janeiro acontecia poucos minutos antes do início das partidas. O momento de entrar em campo ao lado das crianças enquanto o estádio inteiro cantava provocava uma emoção que ele descrevia como impossível de reproduzir em palavras.
Segundo o defensor, era nesse instante que sentia a dimensão da relação entre o Flamengo e sua torcida.
O encantamento não ficou restrito ao estádio. Aos poucos, o espanhol começou a se adaptar à cultura brasileira, ao idioma e à própria rotina da cidade. Embora ainda tivesse dificuldades para falar português nos primeiros meses, afirmava compreender praticamente tudo o que escutava. Com a ajuda de companheiros como Filipe Luís, Rafinha e Diego Alves, superou rapidamente as barreiras iniciais de comunicação e passou a se sentir parte do grupo.
A convivência com Filipe Luís, em especial, tornou-se uma referência. Marí costumava dizer que o lateral era praticamente um treinador dentro de campo, alguém com quem aprendia diariamente e que ajudava a interpretar melhor o futebol brasileiro.
A adaptação também passou pela descoberta do Rio de Janeiro. O espanhol relatava admiração pelo Cristo Redentor, pelas praias e pelo estilo de vida carioca. Vindos de uma Europa que ele considerava marcada pelo ritmo acelerado e pelo estresse cotidiano, aqueles primeiros meses no Brasil revelaram uma realidade diferente, mais tranquila e acolhedora.
Mas a história de Pablo Marí não começou no Flamengo.
Filho de uma família simples de Valência, o zagueiro cresceu jogando futebol nos parques próximos de casa até ingressar nas categorias de base do clube de sua cidade. Ainda adolescente, tomou uma decisão que mudaria sua vida: deixou a casa dos pais aos 14 anos para morar em Mallorca e tentar a profissionalização.
A mudança exigiu amadurecimento precoce. Viveu com outra família, longe dos amigos e dos pais, aprendendo desde cedo a lidar com as dificuldades da carreira.
Antes disso, porém, chegou a pensar em abandonar o futebol.
Aos 11 anos, sofreu sucessivas lesões no quadril que provocavam dores constantes. Após várias tentativas frustradas de retorno aos gramados, chegou a dizer ao pai que desistiria caso voltasse a se machucar. Felizmente para ele, as lesões ficaram para trás e o sonho continuou vivo.
Essa trajetória ajuda a explicar a humildade com que encarava o momento vivido no Flamengo. Apesar do rápido reconhecimento da torcida e do apelido de “xerife”, que recebeu com bom humor, o espanhol evitava qualquer tipo de deslumbramento. Sabia que estava vivendo uma oportunidade rara e valorizava cada etapa do processo.
Grande parte dessa evolução, segundo ele, tinha relação direta com Jorge Jesus.
Marí costumava afirmar que o treinador português havia transformado sua forma de compreender o jogo defensivo. Acostumado a atuar muito pela intuição, passou a receber orientações detalhadas sobre posicionamento, leitura de jogo e organização da linha defensiva. Para ele, o diferencial do treinador estava justamente na capacidade de extrair o máximo de cada jogador.
Ao falar daquele período, o espanhol também demonstrava entusiasmo com os objetivos do elenco. O Flamengo avançava na Libertadores, liderava o Campeonato Brasileiro e vivia uma atmosfera de confiança que contagiava jogadores e torcedores.
Naquele momento, Pablo Marí sonhava com títulos, sonhava em permanecer por mais tempo no clube e até alimentava a esperança de, quem sabe, chamar a atenção da seleção espanhola.
Anos depois, sua passagem pelo Flamengo continua sendo lembrada não apenas pelos resultados conquistados, mas pela forma como um jogador europeu conseguiu traduzir algo que muitas vezes passa despercebido para quem observa o futebol brasileiro à distância.
Para Pablo Marí, o Flamengo era muito mais do que um clube.
Era uma experiência cultural, popular e humana que nem mesmo seus amigos na Espanha conseguiam compreender completamente.
E talvez seja justamente por isso que suas palavras continuam fazendo sentido.
Há coisas que só podem ser entendidas quando são vividas.



















