*Editorial Fronteira Livre
O caso de Ismael Moray Flores transformou-se em um dos retratos mais duros da violência policial e da impunidade institucional no Brasil contemporâneo. A absolvição dos policiais envolvidos no assassinato do jovem de 19 anos expõe uma realidade que atravessa o país de Norte a Sul: operações marcadas por excesso de força, investigações frágeis e um sistema que, repetidamente, legitima mortes cometidas por agentes do próprio Estado.
Ismael tinha 19 anos quando foi morto pela Polícia Militar do Paraná, em abril de 2023, em Foz do Iguaçu. Naquela noite, caminhava para encontrar o namorado quando cruzou o caminho de policiais que perseguiam suspeitos de assalto. Não havia arma. Não existiu confronto. Tampouco houve troca de tiros. Ainda assim, recebeu cinco disparos. Pouco antes de morrer, enviou ao namorado a frase que se tornaria uma das marcas mais dolorosas do caso: “Te amarei até meu fim”.
Dois anos depois, a Justiça do Paraná absolveu os policiais sob a tese de “legítima defesa putativa”, argumento utilizado quando alguém acredita reagir diante de uma ameaça inexistente. Além disso, a decisão afastou a possibilidade de júri popular. Na prática, o Estado brasileiro afirmou que um jovem inocente pode morrer confundido numa operação policial sem que ninguém seja responsabilizado criminalmente.
O episódio ocorrido em Foz do Iguaçu não representa um acidente isolado. Pelo contrário, conecta-se diretamente a uma política nacional de segurança pública baseada no confronto permanente, na militarização da vida cotidiana e na legitimação institucional da morte produzida por agentes do próprio Estado.
Investigações frágeis e absolvições recorrentes
Os números da violência policial brasileira já não permitem qualquer discurso de exceção. Segundo dados nacionais, as mortes cometidas por policiais cresceram em 17 estados brasileiros em 2025. Em dez anos, a letalidade policial aumentou 170% no país, enquanto os mecanismos de responsabilização praticamente desapareceram.
Uma pesquisa da Fundação Getulio Vargas analisou 859 inquéritos envolvendo mortes provocadas por policiais em São Paulo entre 2018 e 2024. O resultado é brutal: nenhum policial foi preso. Em todos os casos, o Ministério Público optou pelo arquivamento das investigações. Além disso, em apenas 8,9% das ocorrências houve perícia adequada no local da morte. Mesmo assim, prevaleceu quase sempre a versão policial de legítima defesa.
O roteiro se repete de maneira assustadora em diferentes estados brasileiros. Primeiro surge a operação policial. Depois aparecem os mortos. Em seguida, vem a justificativa do confronto. Por fim, chegam o arquivamento, a absolvição ou simplesmente o silêncio institucional.
A violência transformada em projeto político
Nesse sentido, o Paraná passou a ocupar posição preocupante no cenário nacional da letalidade policial. Somente nos últimos anos, mais de 2.800 pessoas morreram em ações da Polícia Militar durante o governo Ratinho Júnior. A maioria das vítimas é formada por jovens pobres, negros e moradores de periferias urbanas. Enquanto isso, cidades como Curitiba, Londrina, Cascavel e Foz do Iguaçu acumulam denúncias de execuções, abuso de força, tortura e operações violentas em comunidades vulneráveis. Em fevereiro de 2026, por exemplo, moradores da Vila Torres, em Curitiba, incendiaram vias públicas após denunciarem a execução de William Barbosa da Silva, de 28 anos, durante uma ação policial.
Os dados nacionais ajudam a compreender como a violência passou a ser incorporada ao próprio discurso político no Brasil. Levantamentos citados pelo jornalista Caco Barcellos mostram que assaltantes, traficantes e criminosos comuns respondem por cerca de 4% das mortes no Rio de Janeiro. Policiais passaram a representar aproximadamente 30% após a intervenção federal comandada por Walter Braga Netto, enquanto os outros 66% são provocados pelos chamados “cidadãos de bem”.
O cenário revela uma sociedade profundamente marcada pela naturalização da violência. Além disso, setores ligados ao bolsonarismo e à extrema-direita transformaram o discurso da eliminação em ferramenta eleitoral, convertendo operações policiais e mortes em capital político e propaganda. No entanto, os próprios números desmontam a narrativa de eficiência baseada no confronto. O Brasil continua extremamente violento, jovens seguem sendo executados nas periferias e, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2024, o suicídio tornou-se a principal causa de morte entre policiais civis e militares, superando inclusive os óbitos em serviço ou confrontos.
Foz do Iguaçu diante de uma realidade nacional
A morte de Ismael Moray Flores expõe exatamente esse peso simbólico que atravessa o debate sobre segurança pública no Brasil. Além disso, obriga Foz do Iguaçu a encarar uma realidade que o país muitas vezes prefere ignorar: a violência policial não atinge todos da mesma maneira. Existe endereço, classe social, território e perfil definido para grande parte das vítimas da letalidade estatal brasileira.
Quando tribunais absolvem agentes mesmo diante de vítimas inocentes, quando investigações permanecem frágeis e quando a palavra policial torna-se praticamente incontestável, instala-se um modelo perigoso de autorização informal para matar.
Hoje, o nome de Ismael soma-se a centenas de outros jovens mortos em operações policiais pelo Brasil. Muitos sequer chegam aos jornais. Outros aparecem rapidamente nas manchetes antes de desaparecerem das investigações, dos tribunais e da memória nacional.
Em Foz do Iguaçu, no entanto, o caso permanece como pergunta aberta: quantos jovens ainda precisarão morrer até que o país compreenda que violência de Estado não produz paz, não reduz desigualdade e não constrói democracia?
_
*Este texto reflete a opinião institucional do portal Fronteira Livre sobre o tema abordado.



















