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Home Entretenimento

A busca do tema gerador na práxis da Educação Popular

A revolução se constrói cotidianamente, em todos os espaços e tempos

Por Redação
23/01/2024 - 07:37
em Entretenimento
Foto: Divulgação

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Organizado por Antônio Fernando Gouvêa, este livro, apresentado agora em segunda edição, se propõe contribuir com a prática político-pedagógica de todos e todas que acreditam, junto com Paulo Freire, que se a educação sozinha não muda o mundo, tão pouco sem ela o mundo muda. Fundamentalmente, tal contribuição é destinada a educadores e educadoras populares, que têm buscado desenvolver um trabalho de base, com comunidades excluídas de qualquer forma de organização ou direito social, buscando tirá-las do isolamento em que se encontram nas ocupações irregulares e bairros pobres da periferia das cidades, sujeitas a todo tipo de exploração e, reconstruindo sua auto-estima, dar o primeiro passo para sua libertação.

Apresentação

Se vivêssemos num país justo, solidário e democrático, portanto, sem desigualdades sociais, haveríamos de ter dois tipos de educação? Uma escola formal, oficial, transmissora dos conhecimentos científi cos e outra informal, popular, fundada no diálogo, na problematização, no desvelamento da realidade?

Sabendo que a origem histórica da escola, na antiguidade clássica, era o lugar do “ócio” – aprendizado das artes do mando – para os fi lhos da classe dominante e que, no sistema capitalista se fez para ser formadora de mão-de-obra, a escola poderia se constituir no espaço de compreensão da vida, do funcionamento da sociedade e da apreensão e troca de todos os saberes práticos e teóricos necessários a uma vida humana digna?

O que seria a universidade brasileira, na perspectiva de um projeto popular de nação? Para que interesses, objetivos, fi nalidades, seriam formados médicos, engenheiros, advogados, sociólogos, historiadores, químicos, biólogos?

Como se estabeleceria a relação entre educação e trabalho ou entre trabalho e formação humana, numa sociedade onde a exploração, a opressão e todas as formas de discriminação tivessem sido banidas?

Imagine o que o desenvolvimento científi co, resultante de uma relação entre a educação e o trabalho, entendida como práxis social; entre o ensino, a pesquisa e a extensão seria capaz de proporcionar à população de um país justo e solidário!

O que esta população, cujas necessidades básicas seriam supridas em poucas horas de trabalho, haveria de fazer com o seu tempo livre?

Quanta criação artística e cultural, novas descobertas científi cas nos diferentes campos de conhecimento, valores, desenvolvimento de relações humanas, poesia, jardins, amizades sinceras, cuidado com as pessoas e com o mundo, poderiam resultar desse tempo livre!

Precisamos pensar sobre isto. Precisamos reaprender a anunciar o nosso sonho humanizador, enquanto denunciamos um presente desumanizador. Mais que isto, precisamos construir dia-a-dia o nosso sonho coletivo, porque ele está inscrito como possibilidade histórica. Não está remetido ao transcendental.

A revolução não se faz num momento – nem por mágica, nem por decreto, nem por sublevação –, a revolução se constrói cotidianamente, em todos os espaços e tempos, onde valores de solidariedade possam ser cultivados. Onde a competição, o individualismo, o egoísmo, o autoritarismo e tudo que destrói a possibilidade de vida, possam ser combatidos. A revolução não é a tomada de poder. É a transformação radical das pessoas e das estruturas e, por isso, é permanente, não se esgota num instante histórico.

A educação, como pratica social, pode manter e ajudar a fortalecer as estruturas injustas, mas também pode, desde já, ter uma finalidade humanizadora, dentro e fora da escola. Muitas administrações populares ousaram trazer para o sistema ofi cial de ensino, as práticas educativas que têm sido historicamente classifi cadas como informais e politizadoras.

E, Paulo Freire, deu uma importante contribuição a isto. Sua obra é extensa e está disponível para todos e todas que querem fazer da educação, uma prática social transformadora da realidade e, portanto, revolucionária.

Este livro, que ora apresentamos ao público – militantes políticos, educadores populares, professores, estudantes, agentes pastorais, trabalhadores sociais – mostra, em cinco módulos de oito horas cada, como é possível construir uma prática pedagógica dialógica, sem deixar de lado os conhecimentos científi cos. Ao contrário, mostra como é possível, através do diálogo, superar os limites de um conhecimento de experiência feito e de um conhecimento abstrato, acadêmico, para encontrarem-se – educador e educando, liderança e base, dirigente e povo – na apreensão e construção de um conhecimento científico vivo, concreto, pleno de sentido.

O professor Antonio Fernando Gouvêa da Silva, levando Paulo Freire para a academia provou, através de sua tese de doutorado, que o ponto de partida do currículo escolar, pode sim ser a realidade concreta, onde os educandos e comunidade estão inseridos. Ora, se a realidade concreta pode ser o ponto de partida para a produção do conhecimento escolar, tanto mais ela deve sê-lo para a prática pedagógica dos Movimentos Sociais.

Coisa que, infelizmente, ocorre com muita clareza nos discursos, mas que se esvazia de prática. E não porque os militantes dos movimentos sociais sejam ruins, mas porque não compreendem o que Paulo Freire entende por realidade concreta.

“Para muitos de nós, a realidade concreta de uma certa área se reduz a um conjunto de dados materiais ou de fatos cuja existência ou não, de nosso ponto de vista, importa constatar. Para mim, a realidade concreta é algo mais que fatos ou dados tomados mais ou menos em si mesmos. Ela é todos esses fatos e todos esses dados e mais a percepção que deles esteja tendo a população envolvida. Assim, a realidade concreta se dá a mim na relação dialética entre objetividade e subjetividade”1 .

Gouvêa, propondo reflexões a partir da leitura de fragmentos de textos de Paulo Freire e outros autores, exercícios práticos na elaboração de programas a serem discutidos em sala de aula ou nos Movimentos Sociais, em comunidades e grupos de base, nos oferece neste livro, uma verdadeira “oficina” da pedagogia freireana ou de metodologia de trabalho de base. A Oficina é organizada/dirigida à educadores populares, a fi m de prepararem-se para o trabalho com comunidades e grupos específi cos. Cada um dos módulos se desdobram em três momentos fundamentais: a problematização inicial (que permite expor e avaliar as práticas pedagógicas tradicionalmente desenvolvidas); o aprofundamento téorico (estudo e refl exão das práticas desenvolvidas à luz da teoria freireana e outras de natureza emancipadora); o planejamento de ações (o que e como fazer o trabalho com comunidades e grupos).

Às vezes, tentando mostrar o movimento resultante das relações entre conhecimento popular e conhecimento acadêmico, entre contexto e texto, entre realidade objetiva e sua explicação subjetiva, o autor elabora e apresenta gráfi cos que, num plano físico, não conseguem dizer da riqueza e possibilidades que a educação dialógica encerra.

Mas, com disciplina na leitura e organização do pensamento, o leitor vai, aos poucos, descobrind
o e apreendendo a trama pedagógica que transforma educador e educando em sujeitos do processo educativo. Dotados de saberes diferentes, porém não inferiores ou superiores uns em relação aos outros.

Se o ponto de partida da educação libertadora, fundada no diálogo, é a realidade concreta e esta, nas palavras de Paulo Freire, são os dados objetivos, mais a compreensão que os sujeitos têm dela, é preciso ouvir esses sujeitos. É preciso “organizar a escuta” das populações inseridas na realidade a ser transformada. A escuta, nos trará as  “falas significativas” da população, explicitando suas contradições e, portanto, os “temas geradores” de diálogo. Assim, se não houver escuta, não haverá diálogo e nossa ação se dará sobre ou para e não com ela. Conseqüentemente não haverá libertação, nem transformação da realidade.

“É preciso, por isso, deixar claro que, no domínio das estruturas sócio-econômicas, o conhecimento mais crítico da realidade, que adquirimos através de seu desvelamento, não opera, por si só, a mudança da realidade.

É por isso que, alcançar a compreensão mais crítica da situação de opressão não liberta ainda os oprimidos. Ao desvelá-la, contudo, dão um passo para superá-la desde que se engagem na luta política pela transformação das condições concretas em que se dá a opressão. […] no domínio das estruturas sócio-econômicas, a percepção crítica da trama, apesar de indispensável, não basta para mudar os dados do problema. Como não basta ao operário ter na cabeça a idéia do objeto que quer produzir. É preciso fazê-lo.

A esperança de produzir o objeto é tão fundamental ao operário quão indispensável é a esperança de refazer o mundo na luta dos oprimidos e das oprimidas. Enquanto prática desveladora, gnosiológica, a educação sozinha, porém, não faz a transformação do mundo, mas esta a implica”2.

Este livro, apresentado agora em segunda edição, se propõe contribuir com a prática político-pedagógica de todos e todas que acreditam, junto com Paulo Freire, que se a educação sozinha não muda o mundo, tão pouco sem ela o mundo muda. Fundamentalmente, tal contribuição é destinada a educadores e educadoras populares, que têm buscado desenvolver um trabalho de base, com comunidades excluídas de qualquer forma de organização ou direito social, buscando tirá-las do isolamento em que se encontram nas ocupações irregulares e bairros pobres da periferia das cidades, sujeitas a todo tipo de exploração e, reconstruindo sua auto-estima, dar o primeiro passo para sua libertação.

O livro está organizado de forma a trazer no início, um texto introdutório sobre a pedagogia freireana e a práxis da educação popular. A seguir, apresenta na forma de quadros, uma síntese da oficina como um todo, organizada em cinco momentos fundamentais que se desdobram em outros, com propostas de atividades, leituras e refl exões. Nesta segunda edição, incluímos as sínteses das atividades de campo de todas as oficinas realizadas desde a publicação da primeira edição e um texto da professora Guadalupe.

Por fim, umas considerações finais a respeito do uso prático deste material.

Registramos, finalmente, um agradecimento ao professor Gouvêa pela generosidade e compromisso social demonstrados não apenas pela autorização desta publicação, mas também por sua disponibilidade em compartilhar conosco seus achados teórico-práticos, prestando, a título de militância, assessorias em vários momentos em que foi chamado pelo Centro de Formação Milton Santos – Lorenzo Millani ou pelo CEFURIA. Bem como, agradecemos a professora Maria de Guadalupe Menezes pela disponibilidade e dedicação demonstradas.

1 – FREIRE, Paulo. Criando métodos de pesquisa alternativa: aprendendo a fazê-la melhor através da ação. In: BRANDÃO, Carlos Rodrigues (Org.). Pesquisa participantes. 8ª ed. São Paulo : Brasiliense, 2001, p. 35.

2 – FREIRE, Paulo. Pedagogia da esperança: um reencontro com a pedagogia do oprimido. 6ª ed. Rio de Janeiro : Paz e Terra, 1999, p. 32.

Livro 1 da Série: Metodologia e Sistematização de Experiências Coletivas Populares
Publicação: Editora Gráfica Popular
CEFURIA – www.cefuria.org.br

1ª edição: Abril de 2005.
2ª edição revisada e complementada: Setembro de 2007.

  • Baixe aqui o livro: A_busca_tema_gerador
Tags: dicas de livroDitadura Nunca Maisentretenimento
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