Valparaíso (Chile) — No final do século XIX, enquanto Valparaíso se consolidava como uma das principais portas de entrada da América do Sul para mercadorias, trabalhadores e imigrantes, um pequeno jornal começava a circular entre oficinas gráficas, portos e bairros operários do Chile. Seu nome era El Oprimido, uma publicação que ajudaria a lançar as bases do anarquismo chileno e a conectar trabalhadores locais a uma rede internacional de ideias e solidariedade.
Publicado entre 1893 e 1897, El Oprimido tornou-se a primeira publicação chilena a se declarar abertamente comunista anárquica. Sua circulação era relativamente limitada, concentrada principalmente entre Valparaíso e Santiago, mas sua influência ultrapassava fronteiras. Por meio de correspondências, intercâmbios editoriais e redes de apoio operário, suas páginas dialogavam com militantes e publicações espalhadas por diferentes partes da Europa e das Américas.
Naquele período, Valparaíso era muito mais do que um porto comercial. Era um ponto de encontro entre culturas, idiomas e experiências políticas. Marinheiros, tipógrafos, artesãos e trabalhadores que chegavam ao Chile traziam consigo debates que atravessavam o mundo do trabalho, incluindo discussões sobre sindicalismo, organização popular e emancipação social.
Foi nesse ambiente que surgiu a folha libertária. Diferentemente das organizações anarquistas que ganhariam força anos depois, sua trajetória esteve profundamente ligada à atuação de militantes estrangeiros inseridos em redes internacionais de propaganda libertária. As edições defendiam o internacionalismo, criticavam o capitalismo, questionavam a influência da Igreja sobre a vida social e denunciavam a exploração da classe trabalhadora.
Os lemas estampados em suas páginas sintetizavam essa visão de mundo:
“Ni Dios, ni Patrones.”
“La emancipación del obrero tiene que ser obra del obrero mismo.”
As frases refletiam um pensamento que colocava os próprios trabalhadores como protagonistas de sua libertação, sem depender de governos, elites econômicas ou instituições religiosas.
Para muitos homens e mulheres que jamais teriam acesso às universidades ou aos círculos políticos da época, publicações como El Oprimido funcionavam como uma das poucas portas de entrada para debates sobre direitos, organização coletiva e transformação social. A imprensa operária cumpria um papel que ia muito além da informação: ajudava a formar consciência política e fortalecer vínculos de solidariedade.
Uma das características mais marcantes da publicação era sua inserção em uma ampla rede internacional de intercâmbio. Artigos, manifestos e notícias circulavam entre periódicos libertários da Argentina, do Brasil, da Espanha, da França, da Itália e dos Estados Unidos. Muito antes da globalização financeira conectar mercados, trabalhadores já construíam suas próprias redes internacionais de solidariedade.
Entre os nomes ligados à experiência estava o tipógrafo italiano Washington Marzoratti. Antes de chegar ao Chile, ele havia participado de atividades libertárias na Argentina e no Uruguai, convivendo com importantes figuras do anarquismo internacional, entre elas Errico Malatesta. Sua atuação foi decisiva para articular colaboradores, impressoras e apoiadores que garantiram a continuidade da publicação durante seus anos de existência.
Apesar de sua relevância histórica, El Oprimido quase desapareceu da memória coletiva. Durante grande parte do século XX, pesquisadores tiveram dificuldade para localizar exemplares da publicação. Muitos estudos sobre o anarquismo chileno mencionaram sua existência apenas de forma superficial ou sequer registraram sua importância.
A situação começou a mudar graças ao trabalho de preservação realizado pelo historiador anarquista Max Nettlau. Parte dos exemplares sobreviventes foi incorporada ao Instituto Internacional de História Social, em Amsterdã, permitindo que novas pesquisas reconstruíssem uma trajetória que havia sido praticamente apagada da história.
A experiência de El Oprimido foi breve. O impresso desapareceu antes mesmo da consolidação dos movimentos anarquistas que marcariam o início do século XX no Chile. As razões continuam sendo objeto de debate entre pesquisadores, que apontam dificuldades financeiras, repressão estatal, dispersão dos militantes e isolamento político como possíveis fatores.
Ainda assim, sua importância permanece incontestável. As páginas preservadas revelam que o anarquismo chileno não nasceu de forma isolada nem exclusivamente nacional. Foi construído por trabalhadores, imigrantes, tipógrafos e militantes que compartilhavam experiências através de redes internacionais de cooperação e apoio mútuo.
Mais de um século depois, os poucos exemplares sobreviventes de El Oprimido continuam lembrando que a história dos trabalhadores latino-americanos não foi construída apenas em fábricas, minas ou portos. Ela também foi escrita em pequenas oficinas tipográficas, onde ideias impressas em papel cruzavam fronteiras e alimentavam sonhos de liberdade, igualdade e organização popular.



















