Por Marcos Roberto Souza – Opinião
Considerações inspiradas no vídeo “De empregadas na Disney a prato europeu: as metáforas de Paulo Guedes”, do canal PODER360.
Paulo Guedes é uma daquelas personalidades públicas típicas do Zeitgeist instaurado com a ascensão ao Poder do projeto fascista encabeçado por Jair Bolsonaro: ele representa o tipo do BOÇAL.
Dada aquela declaração grotesca — mas proferida com ares de preocupação com a fome que se espraia pelas camadas menos favorecidas pelo sistema social de oportunidades –, segundo a qual se deve dar as sobras de cada refeição para os que se acham em situação de vulnerabilidade social, resolvi fazer alguma pesquisa a respeito, valendo-me da facilidade, proporcionada pela WEB, em consultar dados e análises.
Para começo de conversa, aquela história de que, na Europa, os pratos de comida seriam menos fartos porque a população europeia, depois dos horrores das duas grandes guerras, teria aprendido a economizar e a dar valor à comida, evitando o desperdício — é MENTIRA.
Só para ter-se uma ideia, a OMS, em 2015, previa uma grave crise de saúde na Europa por conta da obesidade — crise essa que alcançaria seu ápice em 2030. Se fosse corriqueiro aos europeus fazer pratos moderados — conscienciosos, pobrezinhos, de quão dura é a fome, como eles teriam aprendido após duas guerras mundiais — é óbvio que a obesidade não mereceria, na Europa, um alerta da OMS.
É plausível supor que, nos países que serviram de palco para os bombardeios e carnificinas, a população tenha amargado a escassez de alimentos, entre outras mazelas decorrentes dos trinta anos de guerra. Mas daí vieram os “baby boomers”, o Plano Marshall, de sorte que não parece crível que — passados setenta e seis anos — os netos daquela gente que se escondia em abrigos antiaéreos, façam pratos frugais porque seus avós passavam fome em meio aos escombros.
Para quem queira checar a preocupação da OMS com a obesidade europeia, em reportagem da Deutsche Welle em português: https://bit.ly/3wODwWY
Todavia o problema quanto ao desperdício de alimentos existe — e é grave. E, claro, nada tem que ver com a mentira de Paulo Guedes sobre a quantidade de comida nos pratos europeus.
Num relatório, publicado este ano, do Programa das Nações Unidas para o Meio-ambiente, em parceria com a organização britânica de resíduos WRAP — destacam-se dois pontos. Primeiro, os domicílios — e não as empresas que servem alimentos elaborados: restaurantes e afins — são os maiores responsáveis pelo desperdício. Segundo: ao contrário de levantamentos anteriores, países em desenvolvimento — e não apenas nações com maior desenvolvimento humano — também figuram, e com destaque, no ranking das sociedades que jogam muita comida fora.
O relatório esclarece: além de um problema humanitário, o desperdício de alimento acrescenta gases às emissões que aceleram o aquecimento global, além de contribuir para outras formas de degradação ambiental.
Logo o Brasil deve, de forma programática e articulada, promover o combate ao desperdício de alimentos: afinal, segundo o relatório da ONU, deita-se fora, aqui, tanta comida quanto nos Estados (60 quilos per capita e 59 quilos per capita, respectivamente). Mas, como em tudo o que depende de uma ação estratégica da Administração federal, também quanto a isso não se pode esperar muito do governo Jair Bolsonaro.
Levando-se em conta o que tem sido noticiado a respeito da reunião entre membros do Governo e representantes da Associação Brasileira de Supermercados — toda a preocupação se voltou para os interesses dos empresários do setor representado.
Para Tereza Cristina, ministra da Agricultura, o Governo deveria comprar os produtos com o prazo de validade vencido ou prestes a vencer e distribuí-los aos pobres. Bom para os donos da supermercado, que podem ganhar (ainda que pouco) com produtos que teriam de ser descartados (e não lhes renderiam nada).
À imprensa, claro, argumentou-se que não é bem assim (vindo a público, aliás, nunca é…): a questão seriam os prazos fixados para a validade, que não corresponderiam à real condição dos alimentos. Não seria mais republicano, então, promover um estudo técnico com vistas a reavaliar os critérios para a fixação dos prazos de validade — em vez de empurrar, para os pobres (e a expensas do Erário), alimentos cujo prazo de validade (segundos os critérios ora vigentes) indica que, ou fazem mal à saúde, ou já não têm as propriedades nutritivas esperadas?
E, se a questão é evitar o desperdício de comida, lembremo-nos do relatório da ONU: são os lares, e não os supermercados, as unidades sociais nas quais mais se deita comida fora; sessenta e um por cento dos alimentos desperdiçados provêm dos domicílios.
Para quem deseje inteirar-se do supracitado relatório, em reportagem da BBC News Mundo, traduzida para o português: https://bit.ly/3wK1dQh
Por fim voltemos à figura do boçal, tão bem encarnada no ministro da Economia. Como se não bastasse a proposta de sua colega — no mínimo, tecnicamente discutível — Paulo Guedes (como se sofresse de uma comichão, como se lhe acometesse um prurido) não se conteve (como se tivesse de coçar-se): não basta distribuir alimentos com prazo de validade vencido — produtos, frise-se, comprados pelo Governo aos supermercados. Não: também se deve dar de comer aos que se acham abaixo da linha da pobreza — com o que sobra aos pratos dos mais aquinhoados.
Por que Guedes não se cansa de dar mostras de sua ojeriza aos desafortunados? Pode-se sublinhar uma falha de caráter: não digo que não. Entretanto suponho que haja uma dimensão mais ampla nessa contumaz insistência em degradar indivíduos e classes subalternizados.
É preciso ter em vista o seguinte: desde 2015, quando a política econômica, no Brasil, passou a radicalizar a redução dos gastos públicos, a reengenharia social tem investido na insensibilização vertical e na dissolidariedade horizontal.
À medida que o Estado vai renunciando à sua prerrogativa de promover o bem-estar social, os discursos de ordenamento social vão naturalizando a precarização das condições de trabalho, a diminuição dos investimentos públicos em saúde e educação, e a desigualdade na distribuição de oportunidades.
É por isso que, de repente, surgem discursos históricos “revisionistas”, que pretendem demonstrar que a escravidão africana e o genocídio indígena “não foram tudo isso que dizem”. Fortalecendo esse “revisionismo”, o Estado desobriga-se de pautas inclusivas, como estabelecer políticas afirmativas para os descendentes de populações vilipendiadas e expropriadas.
Algo semelhante talvez esteja por trás do menosprezo às reivindicações feministas e ao repúdio das bandeiras dos grupos associados à homoafetividade ou à identidade de gênero: quanto menos obrigações para um Estado com um teto de gastos que fica mais baixo à proporção que sobem as necessidades de investimento social — melhor.
E há dinheiro para investir na qualidade de vida dos cidadãos — não há mister de criar novos impostos nem de aumentar a alíquota dos já existentes: basta arrecadar as centenas de bilhões de reais em impostos não recebidos, em multas não recolhidas e em refinanciamentos lesivos ao Erário.
O problema é que a razão ONTOLÓGICA de um “Estado mínimo” em cuidados para com o bem-estar social é garantir um “Estado máximo” em atenções para com a concentração de renda em favor dos consórcios oligárquico-financeiros que estão muito bem representados em todas as esferas e poderes da República.
Por isso o Imaginário que se tem construído entroniza a figuras como Paulo Guedes e reverberam — ou justificam — as escrotices que elas declaram.
Para que um país consiga, como o Brasil, produzir onze novos bilionários em meio a uma pandemia — é necessário renunciar a muito imposto, é preciso não recolher muita multa, há de mister oferecer financiamentos e refinanciamentos que defraudem os cofres públicos até a exaustão.
Então, como as mazelas sociais só tendem a crescer com semelhante concentração de renda — urge naturalizar o sofrimento humano. No plano vertical, reforça-se a desumanização dos menos afortunados: daí alegorias e declarações que os destituem de sua humanidade. Ora, por que não alimentá-los com restos?
Já no eixo horizontal, é premente dissolver todas as instituições que representem a solidariedade no sofrimento ou nas reivindicações: sindicatos e movimentos sociais são marginalizados — associados à vagabundagem ou ao oportunismo. Quanto mais se inculcar, nos desfavorecidos, a ilusão de que É BOM haver poucas oportunidades — a fim de premiar os esforçados e castigar os preguiçosos –, melhor.
Considerando-se que o Brasil voltou a constar no Mapa da Fome — e que mais da metade de seus habitantes tem uma renda per capita que só rivaliza com a das nações mais pobres do planeta — é melhor o cidadão economicamente mais favorecido “Jair se acostumando” a destinar os restos de seus pratos aos socialmente menos assistidos; e a cada brasileiro que desça abaixo da linha da pobreza, talvez não lhe toque senão “Jair se acostumando” a comer sobras e a receber alimentos originalmente destinados ao lixo.
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As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor (a) e não refletem necessariamente a política editorial do Fronteira Livre
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