Goiânia, GO – Uma forma de demência que pode ser revertida e curada ainda atinge idosos sem o diagnóstico correto no Brasil. Trata-se da hidrocefalia de pressão normal (HPN), condição neurológica que afeta a memória, o equilíbrio e as funções urinárias, frequentemente confundida com o Alzheimer ou encarada como desgaste natural da idade.
O assunto veio à tona no início de outubro, quando o cantor norte-americano Billy Joel, de 77 anos, tornou público ter passado por uma neurocirurgia para drenar o excesso de líquido no crânio. Em seu programa semanal de rádio, o autor de “Piano Man” disse que recuperou a memória e a estabilidade física pouco depois da intervenção.
A doença afeta, em média, uma a cada 100 pessoas acima de 60 anos. O quadro surge do acúmulo anormal do líquor, substância que protege e nutre o cérebro. Nas cavidades internas da cabeça, a produção contínua desse fluido passa a comprimir os neurônios, gerando lesões progressivas caso não haja descompressão.
O neurologista Iron Dangoni Filho, do Einstein Hospital Israelita em Goiânia, descreve as manifestações mais comuns:
“Os principais sintomas dela são alterações na forma de caminhar, com a marcha se tornando mais robótica, a incontinência urinária ou a urgência constante de urinar e o raciocínio mais lento. Nem todas as pessoas com a doença apresentam todos esses sintomas simultaneamente.”
Por causa da variedade dos sinais, a família costuma demorar a procurar auxílio neurológico. Parentes tendem a buscar ortopedistas para investigar tropeços e quedas, ou urologistas para tratar a perda involuntária de urina, atrasando a intervenção médica e encurtando o tempo hábil para evitar sequelas permanentes.
Sobre esse atraso na identificação do problema, Dangoni explicou:
“Os sintomas que ela traz fazem com que os familiares muitas vezes a confundam com o próprio envelhecimento. Além disso, quando há a preocupação de ir ao médico, é comum que os pacientes busquem outros especialistas, como ortopedistas, urologistas e, sem conscientização, perdemos um tempo que poderia melhorar a resposta de muitos dos pacientes ao tratamento.”
O diagnóstico exige exame clínico detalhado e ressonância magnética para avaliar a dilatação dos ventrículos cerebrais. Quando a alteração é detectada a tempo, uma cirurgia implanta uma válvula com cateter que desvia o líquor até a cavidade abdominal, onde o organismo o absorve naturalmente.
A cirurgia, contudo, envolve riscos cirúrgicos para pessoas idosas e não funciona para todos. Dados de diretrizes médicas internacionais mostram que entre 60% e 80% dos operados apresentam melhora real, já que o tempo prolongado sob pressão destrói estruturas neurais que o alívio cirúrgico não consegue reconstituir.
A triagem pré-operatória é feita com o Tap test, uma punção na coluna lombar para retirar temporariamente uma pequena quantidade de líquor. A equipe médica acompanha o paciente por até 48 horas para medir se a descompressão momentânea devolveu agilidade aos passos e controle à bexiga.
O exame expõe uma barreira de classe no atendimento à saúde no país: o Tap test não consta no rol de cobertura obrigatória dos planos de saúde nem integra a tabela do Sistema Único de Saúde (SUS). O protocolo com sensores digitais de movimento (baiobit), que afere ganhos milimétricos na marcha, existe apenas em hospitais privados, como no Einstein em Goiânia.
Na rede pública, alguns hospitais realizam a punção lombar sem essa aparelhagem, apoiando-se apenas na observação visual e no relato verbal do paciente. Ter um teste conclusivo é o que garante aos médicos a segurança técnica para encaminhar o idoso à cirurgia:
“O Tap test positivo nos dá mais segurança para realizar a cirurgia, já que ele comprova os benefícios. Para nós, como médicos, é uma alegria receber o teste positivo e fazer uma cirurgia exitosa.”
A recuperação das faculdades motoras e cognitivas contrasta com o curso da maioria das doenças degenerativas da velhice, que costumam ser crônicas e sem retorno:
“Na prática clínica da neurologia, convivemos com muitas demências que são progressivas, no máximo controláveis. Ver um paciente que não caminhava se movendo livremente e recuperando suas próprias memórias é uma das experiências mais gratificantes que podemos ter.”
A repercussão do caso de Billy Joel ajuda a romper o silêncio em torno da HPN e a encurtar o tempo de busca por tratamento:
“Conhecer o caso de figuras famosas ajuda a trazer mais atenção para a doença e isso pode salvar vidas. Quanto antes o diagnóstico da condição é feito, mais provável é termos resultados de cura após a cirurgia.”



Deixe um comentário