Uma retrospectiva da vida e obra do criador de Chaves e Chapolin que hoje completaria 94 anos
Roberto Gómez Bolaños. Dotado de um humor ágil, para todas as idades e que viria a se provar atemporal, o escritor fez jus ao título de Pequeno Shakespeare. Baseando suas criações num herói nada super ou num simples menino de rua, Chespirito conquistou a América Latina com tipos ao mesmo tempo modestos e complexos, fazendo uma crônica ora bem-humorada, ora comovente da vida cotidiana em todo o continente.
Conheça os melhores episódios de Chaves
Chespirito, apelido carinhoso dado ao ator mexicano Roberto Gómez Bolaños levava nos genes a arte da pintura, herdada de seu pai, e também a luta pela sobrevivência, que desenvolveu através do boxe. Entretanto, nenhuma dessas atividades lhe deu de comer e, apesar de se destacar como pugilista na adolescência, sua baixa estatura o levou a abandonar o esporte. O que nunca perdeu foi sua capacidade de se adaptar e se reinventar, nem o senso de humor, tanto que, apesar de ter estudado engenharia, acabou virando um ícone da comédia mexicana exportada para o mundo inteiro.

Foi ator (especialmente cômico), dramaturgo, escritor, roteirista, desenhista, compositor, produtor e diretor de televisão, mas sobretudo ultrapassou fronteiras por ser o criador e intérprete de personagens como Chaves e o Chapolin Colorado, entre outros, que divertiram não só várias gerações de mexicanos como também milhões de pessoas em meia centena de países.
Roberto Gómez Bolaños nasceu em 21 de fevereiro de 1929, na Cidade do México. Foi o segundo dos três filhos de Francisco Gómez Linares, um destacado pintor e ilustrador, e Elsa Bolaños-Cacho, uma secretária bilíngue. Quando pequeno, era obcecado com esportes, especialmente o futebol e o boxe, e teve certo sucesso nos combates quando adolescente, mas era muito mirrado para virar profissional e, desanimado, acabou largando os ringues.
Estudou Engenharia Mecânica na Universidade Autônoma do México, mas nunca se formou. O máximo a que chegou nesse ofício foi trabalhar numa construtora, numa ocupação que ele mesmo qualificou de tediosa, e por isso não pensou duas vezes quando viu no jornal um anúncio de vaga numa agência de publicidade. Lá ele se encontrou.
Tinha 22 anos e começou a escrever roteiros para rádio, programas de televisão e filmes, e inclusive se iniciou fugazmente como ator no final da década de 1950. Foi nessa prolífica etapa criativa como escritor que Roberto começou a ser Chespirito, um apelido que lhe chegou por admiração e com uma curiosa explicação: o cineasta Agustín Porfirio Delgado começou a chamá-lo de “pequeno Shakespeare”, por sua capacidade de escrever e por sua baixa estatura. A pronúncia espanholizada do sobrenome Shakespeare, unida ao diminutivo, “Shakespearito” – foneticamente “Chekspirito” –, deu lugar a Chespirito, e com ele ficou para sempre.
Em 1968, Chespirito assinou um contrato com a recém-fundada Televisão Independente do México. Uma das cláusulas estabelecia era um espaço de meia hora nas tardes de sábado em que ele teria total autonomia para fazer o que quisesse. O resultado foi que os breves e hilariantes roteiros que escreveu e produziu adquiriram tal popularidade que mudaram seu horário para segunda à noite e lhe deram uma hora inteira. Foi durante esse programa, chamado simplesmente Chespirito, que seus dois personagens mais queridos, Chaves e o Chapolin Colorado, fizeram sua estreia.

Os dois eram tão populares entre crianças e adultos que cada um começou a ter sua série semanal de meia hora. Chaves era sobre um menino órfão de 8 anos que vivia num barril de madeira e embarcava em aventuras com seu grupo de amigos. Era o garoto tolo, que dizia a verdade e sempre sonhava com comida.
Já o Chapolin Colorado – ou seja, o gafanhoto vermelho – foi ao ar pela primeira vez em 1970, representando um super-herói arrogante e atrapalhado, que enganava os malvados com muita sorte e ao mesmo tempo com honestidade. Sua arma preferida era uma versão histriônica do martelo de Thor, chamada de “marreta biônica”, e além disso tomava pastilhas “de nanicolina” que reduziam seu tamanho, justificando sua estatura. O programa sempre começava com as palavras “Mais ágil que uma tartaruga, mais forte que um rato, mais inteligente que um asno. Ele é oooo…. Chapolin Colorado!”

Esses dois programas foram tão populares que pouco depois da sua primeira edição já era transmitido em toda a América hispânica. No México, por exemplo, atingia 60% de audiência. Chespirito se manteve no horário noturno das segundas-feiras durante 25 anos. Na verdade, apesar de ter parado de ser gravado na década de 1990, reprises ainda são vistas habitualmente em diversos países latino-americanos.
No Brasil, o primeiro boom de Chaves ocorreu nos anos 90, quando o programa passava na televisão todos os dias no início da tarde no SBT, e se tornou o programa favorito de uma geração de crianças que naquele horário voltavam da escola. A série seguiu reinventando-se e ganhou um novo impulso com o surgimento de comunidades de fãs na internet nos anos 2000. Hoje em dia não tem a mesma audiência dos tempos em que viveu seu auge, mas o público fiel mantém o programa vivo na televisão brasileira.
Após anos de negociação, a Globo comprou os direitos do programa em 2018, que agora é exibido também no canal Multishow, além do SBT. Mas no começo de 2019, uma paródia feita pelo programa Tá no ar desagradou o Grupo Chespirito, administrado pelo filho de Bolaños, Roberto Gómez Fernández. Na paródia ‘Vila Militar do Chaves’, o humorista Marcelo Adnet representava um capitão ― em uma sátira política do então recém eleito presidente Jair Bolsonaro ―, que havia se tornado o novo dono da vila do Chaves. Dentre as diversas referências ao Governo, o capitão de Adnet diz ao Seu Madruga que é melhor ele “já ir se acostumando” a pagar os 14 meses de aluguel, porque como está desempregado era um “vagabundo”.
Roberto Gómez Bolaños também foi o criador de vários outros personagens, como Chómpiras, o Doutor Chapatín, Vicente Chambón e Chaparrón Bonaparte. Sua obsessão pelos nomes que começavam com Ch também tinha uma explicação, que revelou em uma entrevista: “Porque o ch é usado em muitas palavras que significam grosserias no México”.
Chespirito, além de todas as suas qualidades como roteirista e intérprete, também apareceu em mais de 20 filmes e centenas de peças teatrais. Fez turnês com seus personagens apresentando-se em estádios de futebol, e sempre tinha que pendurar o cartaz de “ingressos esgotados”, mesmo quando atuava por vários dias no mesmo local.
Escreveu ainda telenovelas e livros, incluído um de poesia, e começou a compor música como um passatempo, o que não impediu que fosse reconhecido também nisso por seu talento, assinando os temas de muitas telenovelas mexicanas como Alguma Vez Tendremos Alas e La Dueña, entre outras.
Na última etapa da sua vida, tomou partido politicamente: fez campanha por alguns candidatos e se opôs abertamente a uma iniciativa para legalizar o aborto no México.
Chespirito chegou a participar inclusive da revolução tecnológica e das comunicações, já que em 28 de maio de 2011 abriu sua conta no Twitter e em menos de um dia já tinha mais de 170.000 seguidores, chegando a meio milhão em uma semana.
Recebeu inumeráveis reconhecimentos em vida e a título póstumo, mas um dos mais simpáticos, sem dúvida, é o Bumblebee Man, um personagem da animação Os Simpsons que representa uma versão carinhosa do Chapolin Colorado.
Em sua vida privada, Roberto Gómez Bolaños se casou em 1968 com Graciela Fernández e juntos tiveram seis filhos (Roberto, Graciela, Marcela, Paulina, Teresa e Cecilia). Divorciaram-se em 1989, e em 2004, após vários anos de relacionamento, casou-se com a atriz Florinda Meza, que interpretava a Dona Florida em Chaves.
Roberto Gómez Bolaños morreu na sua casa em Cancún, tinha 85 anos e sofria de diabetes e problemas respiratórios. Soube-se depois que também havia recebido um diagnóstico do Mal de Parkinson. Entretanto, até seus últimos dias de vida esteve em contato com seus seguidores pela Internet, apesar dos problemas de mobilidade.
Os restos mortais do Chespirito foram transladados ao Estádio Azteca, onde joga o clube do seu coração, o América, tendo como escoltas duas esculturas representando Chaves e o Chapolin. Muita gente foi se despedir dele usando fantasias de seus personagens, e charges foram publicadas imaginando sua chegada ao Paraíso na companhia de outros personagens da série.
Seus filmes, telenovelas, peças teatrais e livros tiveram grande sucesso, mas foram suas centenas de programas de televisão que deram fama ao Chespirito e o fazem ser recordado muito além da América hispânica, já que foram traduzidos em mais de 50 idiomas. Foi um pioneiro da televisão de entretenimento no México e na América, e um dos escritores e atores mais criativos e prolíficos que existiram.
Se você nasceu nos anos 80 ou 90, com certeza a série “Chapolin Colorado” fez parte da sua infância. Criado para satirizar os heróis norte-americanos, a versão mexicana apresentava um personagem magro, sem recursos e bastante atrapalhado.
Vestido com uma fantasia vermelha e amarela, duas anteninhas e carregando uma marreta de plástico, o personagem de Roberto Bolaños, mesmo ator de Chaves, fazia palhaçadas e contava com diversos ditados confusos e frases divertidas que eram sua marca registrada. Separamos algumas das expressões mais nostálgicas.
El Chapolin Colorado
Se você nasceu nos anos 80 ou 90, com certeza a série “Chapolin Colorado” fez parte da sua infância. Criado para satirizar os heróis norte-americanos, a versão mexicana apresentava um personagem magro, sem recursos e bastante atrapalhado.
Vestido com uma fantasia vermelha e amarela, duas anteninhas e carregando uma marreta de plástico, o personagem de Roberto Bolaños, mesmo ator de Chaves, fazia palhaçadas e contava com diversos ditados confusos e frases divertidas que eram sua marca registrada. Separamos algumas das expressões mais nostálgicas.
Veja as frases marcantes da série:
¡Oh! ¿Y ahora, quién podrá defenderme?
– Oh! E agora, quem poderá me defender?
¡Yo!
– Eu!
¡El Chapulín Colorado!
– O Chapolin Colorado!
Síganme los buenos.
– Sigam-me os bons.
No contaban con mi astucia.
– Não contavam com a minha astúcia.
Lo sospeché desde un principio.
– Suspeitei desde o princípio.
Calma, calma, que no panda el cúnico.
– Palma, palma, não priemos cânico.
Es exactamente lo que iba yo a decir.
– É exatamente o que eu ia dizer.
Todos mis movimientos están fríamente calculados.
– Todos os meus movimentos foram friamente calculados.
Se aprovechan de mi nobleza.
– Aproveitam-se da minha nobreza.
Mis antenitas de vinil detectan la presencia del enemigo.
– Minhas anteninhas estão detectando a presença do inimigo.
Ya lo dice el viejo y conocido refrán…
– Já dizia o velho e conhecido ditado…
Curiosidades do Chapolin Colorado
A série Chapulín Colorado, como é seu nome em espanhol, é cheia de fatos curiosos sobre sua criação e episódios. Desde a origem de seu nome e fantasia, até a existência de episódios desconhecidos, diversas histórias são contadas, confira algumas curiosidades:
O homem-gafanhoto
Assim como o Homem-Aranha ou o Batman (Homem-Morcego), o “Chapulín Colorado” seria o homem-gafanhoto, pois seu primeiro nome refere-se a uma espécie de gafanhoto muito apreciada na gastronomia mexicana.
Vermelhinho
Com poucos recursos financeiros, as opções para a produção dos figurinos eram restritas. Existiam apenas algumas cores disponíveis para a fantasia do super-herói e a escolhida foi o vermelho para evitar problemas com os efeitos especiais.
O encontro com Chaves
“Chaves – Ser pequeno tem suas vantagens” é o nome do primeiro episódio em que Chapolin Colorado aparece na Vila. Invocado por Chaves para salvar Seu Madruga da fúria de Dona Florinda, o polegar vermelho surge de dentro do barril e interage com todos da vizinhança.
Acidente e o fim
Após tropeçar e cortar o supercílio durante uma gravação, Bolaños considerou acabar com o personagem por achar que pela sua idade, 50 anos na época, estava arriscando ao continuar interpretando o super-herói. O acidente com o protagonista levou à gravação de um episódio de despedida em 1979, que não foi exibido no Brasil. Porém, para felicidade dos fãs, no ano seguinte Chapolin retornou às telinhas no programa “Chespirito” e foi apresentado até 1992.
Episódios perdidos
Alguns dos mais de 250 episódios da série não são mais exibidos na TV. Apesar de tratados como “perdidos”, pouco se sabe sobre o que realmente aconteceu. Algumas teorias dizem que foram se perdendo por deterioração do material, outras afirmam que por muitos capítulos serem semelhantes, havia uma seleção do que iria ao ar. De qualquer forma, Chapolin foi uma das séries de mais sucesso da televisão mexicana, a primeira, junto com Chaves, a ser exportada para outros países.
Você se lembra de outra frase marcante do Chapolin Colorado ou sabe de alguma outra curiosidade sobre a série? Comente aqui!
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