Washington, EUA – A guerra contra o Irã, iniciada com a expectativa de uma duração de quatro ou cinco semanas, aproxima-se de seis meses sem uma solução imediata. O prolongamento do conflito ampliou os gastos do governo americano e acrescentou novas pressões sobre uma economia que já enfrentava desafios relacionados à inflação e ao endividamento público.
O cenário também coloca em evidência uma contradição política para o presidente Donald Trump. Durante a campanha presidencial de 2024, o aumento do custo de vida foi um dos principais argumentos utilizados para criticar o governo do democrata Joe Biden. Agora, sob sua administração, a alta dos preços voltou a ganhar força em meio aos efeitos econômicos da guerra.
Dívida pública ultrapassa US$ 40 trilhões
A dívida pública dos Estados Unidos ultrapassou a marca de US$ 40 trilhões, aproximadamente 34,3 trilhões de euros, estabelecendo um novo recorde histórico.
“É impactante que tenhamos duplicado a dívida federal em menos de 10 anos, e que devamos mudar de rumo”, afirmou Michael A. Peterson, diretor-geral da Fundação Peterson.
“Estamos adicionando dívida mais rápido do que nunca”, acrescentou.
O aumento das despesas militares é um dos fatores que contribuem para a pressão sobre as contas públicas. O secretário de Defesa dos Estados Unidos, Pete Hegseth, informou ao Congresso que o conflito com o Irã já havia custado US$ 37,5 bilhões.
Estimativas do Center for Strategic and International Studies (CSIS), que consideram custos mais amplos e maior consumo de munições, apontam que a Operação Fúria Épica pode ter ultrapassado US$ 100 bilhões.
Os cálculos incluem despesas com tropas, munições, combustível, segurança e outras operações relacionadas ao conflito.
Com a continuidade da guerra, o governo Trump solicitou novos recursos ao Congresso. Hegseth pediu uma ampliação de US$ 114 bilhões no orçamento do Departamento de Defesa para o próximo ano, principalmente para recompor os estoques de munições consideradas estratégicas. O valor representa uma multiplicação por cinco da dotação prevista anteriormente.
A Congressional Budget Office (CBO) estima que o déficit público ultrapassará US$ 2 trilhões ao final deste ano. A dívida pública deve superar 100% do Produto Interno Bruto (PIB), alcançando um dos níveis mais elevados desde o fim da Segunda Guerra Mundial.
A situação também aumenta a pressão sobre o mercado de títulos do Tesouro americano. O rendimento dos títulos com vencimento em 30 anos chegou a 5,3% nesta semana, o maior nível desde 2007.
A elevação dos juros aumenta o custo de financiamento do governo e pode repercutir diretamente sobre famílias e empresas, por meio de taxas mais altas para hipotecas, financiamento de veículos, empréstimos estudantis e outras modalidades de crédito.
Diante da instabilidade no mercado de dívida pública, o secretário do Tesouro, Scott Bessent, anunciou a ampliação das recompras de títulos de longo prazo com o objetivo de aumentar a liquidez do mercado.
A medida, porém, não resolve o problema estrutural das contas públicas. O crescimento da dívida continua exigindo decisões fiscais de longo prazo.
Conflito também pressiona a economia europeia
Os efeitos econômicos da guerra ultrapassam as fronteiras dos Estados Unidos. A União Europeia também enfrenta custos elevados devido ao aumento dos preços da energia e dos combustíveis.
Autoridades europeias estimam que o conflito representa um custo de aproximadamente 500 milhões de euros por dia para o bloco.
O fechamento do Estreito de Ormuz provocou uma forte alta nos preços da energia e voltou a pressionar a inflação. Na zona do euro, a inflação chegou a 2,9% em julho, segundo dados do Eurostat.
Os países europeus adotaram mais de 210 medidas emergenciais para enfrentar os efeitos econômicos do conflito. As ações mobilizaram quase 16 bilhões de euros adicionais em recursos públicos.
A esse valor se somam aproximadamente 46 bilhões de euros relacionados ao aumento dos preços de importação dos combustíveis fósseis.
A União Europeia também reagiu às novas ameaças de Donald Trump contra o Irã. O bloco defende a redução das tensões e a retomada das negociações diplomáticas.
“Não vamos especular”, afirmou uma porta-voz da União Europeia ao ser questionada sobre os novos anúncios do governo americano.
A representante reiterou a posição europeia em defesa da “moderação” de “todas as partes” e da retomada da via diplomática.
“Somente a diplomacia pode oferecer uma solução sustentável para todas as questões pendentes”, afirmou.
O Fundo Monetário Internacional (FMI) também advertiu que uma escalada do conflito no Oriente Médio pode prejudicar o crescimento da economia mundial e aprofundar as pressões inflacionárias.
Combustíveis elevam pressão sobre famílias nos EUA
Nos Estados Unidos, o setor petrolífero está entre os segmentos que se beneficiam do conflito, com produção e exportações em níveis elevados. Para os consumidores, entretanto, o cenário é diferente. O bloqueio do Estreito de Ormuz elevou os preços dos combustíveis e aumentou a pressão sobre a inflação americana.
O preço do galão de gasolina permanece acima de US$ 4. Para os consumidores americanos, o impacto é significativo em razão da grande dependência do transporte individual e das longas distâncias percorridas diariamente no país.
Estimativas do Center for American Progress (CAP) indicam que os consumidores dos Estados Unidos gastaram mais de US$ 80 bilhões adicionais com gasolina e diesel desde o início dos bombardeios contra Teerã.
O valor representa mais de US$ 500 adicionais por residência. A alta dos combustíveis também dificulta o trabalho do Federal Reserve para manter a inflação próxima da meta de 2%. Depois de um período de desaceleração dos preços, a pressão provocada pela energia voltou a alterar o cenário.
O dado mais recente do Bureau of Labor Statistics aponta inflação de 3,4% em julho. A economia americana também apresenta sinais de desaceleração. O crescimento ficou em 0,4% no segundo trimestre, 0,1 ponto percentual abaixo do resultado registrado nos três meses anteriores.
Analistas vêm reduzindo as projeções para o crescimento até o final do ano. Os investimentos em inteligência artificial e a construção de centros de dados continuam sustentando parte da atividade econômica dos Estados Unidos, mas o avanço dos custos de energia, o aumento dos gastos militares e a expansão da dívida pública acrescentam novas dificuldades ao cenário.
Se o conflito continuar prolongado e a instabilidade no Estreito de Ormuz persistir, a pressão sobre combustíveis, inflação, gastos públicos e crescimento econômico tende a permanecer como um dos principais desafios para o governo americano nos próximos meses.



















