Tekoha Y’apo: protesto cobra Justiça por líderes assassinados

Tekoha Y’apo: protesto cobra Justiça por líderes assassinados

Ataque durante o Dia das Crianças deixa dois mortos e um desaparecido; escancara histórico de despejos ilegais e impunidade no campo paraguaio.

Cartazes e marchas cobram justiça pela execução de Antonio Carrillo e do professor Catalino Correa. Foto: Divulgação.
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Corpus Christi, Paraguai – O assassinato de líderes indígenas em Canindeyú provocou uma onda de revolta popular e mobilizações na fronteira entre o Paraguai e o Brasil. As manifestações começaram após pistoleiros executarem a tiros o líder comunitário Antonio Carrillo, da comunidade Tekoha Y’apo, e o professor Catalino Correa, em um ataque armado ocorrido no dia 14 de agosto no distrito de Corpus Christi, departamento de Canindeyú.

O duplo homicídio revoltou a população local e trouxe à tona a crise territorial que atinge os povos originários da região. Relatos apurados pela rede Demoinfo/KóaOiko e por emissoras de rádio comunitárias mostram que o crime faz parte de uma violenta ofensiva contra as terras ancestrais do povo Avá Guaraní, com foco nas comunidades Tekoha Y’apo e Takuara’i.

As lideranças locais denunciam que os territórios sofrem tentativas constantes de invasão e grilagem promovidas por empresas privadas, grandes produtores de soja e fazendeiros brasileiros. Para expulsar os indígenas e avançar com as lavouras mecanizadas de grãos, esses grupos econômicos financiam pistoleiros de aluguel e seguranças armados que atuam fora da lei, impondo um regime de medo nas aldeias.

A rotina em Y’apo e Takuara’i é marcada por despejos forçados e violentos, tiroteios noturnos, queima de veículos coletivos e destruição sistemática de casas e pertences das famílias. Diversos líderes comunitários relataram ter sido submetidos a espancamentos e sessões de tortura física. Em momentos de ataque mais intenso, famílias inteiras — incluindo crianças e idosos — são obrigadas a abandonar suas casas e buscar refúgio no interior da mata fechada para escapar dos grupos armados.

O histórico de abusos e violações de direitos humanos na região é antigo e segue sem punição. Em Takuara’i, a disputa por terras já resultou em desaparecimentos de moradores e no assassinato do estudante de antropologia Isidoro Barrios, morto em 2018 durante um conflito fundiário que até hoje não foi solucionado pela Justiça paraguaia.

A comunidade denuncia que a impunidade se apoia na conivência e na inércia das autoridades estatais. Representantes locais afirmam que a Polícia Nacional, a promotoria do Ministério Público e o Instituto Paraguaio do Indígena (INDI) ignoram os boletins de ocorrência e os pedidos de socorro. Em muitos casos, os órgãos públicos invertem a responsabilização e processam criminalmente as próprias lideranças que defendem a posse da terra. Além disso, sentenças judiciais contraditórias passam por cima de títulos de propriedade, preceitos da Constituição paraguaia e acordos internacionais de proteção aos povos originários.

O conflito também se aprofunda com pressões internas. Grupos ligados ao agronegócio forçam a assinatura de contratos ilegais de arrendamento para plantio de soja sob forte coação ou mediante a cooptação de lideranças, desestruturando a convivência coletiva e a agricultura tradicional.

A gravidade do massacre mobilizou também setores da Igreja Católica. A Conferência de Religiosas e Religiosos do Paraguai (CONFERPAR) veio a público manifestar profundo pesar e indignação, unindo-se ao clamor popular para exigir a presença urgente do Estado e uma investigação transparente do Ministério Público para punir os culpados.

Diante da omissão estatal e da escalada de mortes, as comunidades Avá Guaraní mantêm protestos contínuos nas estradas da fronteira e preparam novas marchas até a capital, Assunção, para exigir a demarcação definitiva de suas terras, o reconhecimento de suas personalidades jurídicas, a prisão imediata dos executores e a destituição de autoridades envolvidas em operações violentas contra o território tradicional, incluindo o ministro da Secretaria Nacional Antidrogas (Senad), Jalil Rachid.

Indígenas Avá Guaraní mobilizam atos em Canindeyú e exigem a destituição do ministro Jalil Rachid. Foto: Divulgação

ENTENDA O CASO

Para entender o motivo dos protestos e a revolta das comunidades em Canindeyú, estes são os detalhes da emboscada e os fatos que marcaram o dia do crime:

  • A emboscada no Dia das Crianças: O ataque ocorreu no dia 14 de agosto, enquanto a comunidade escolar celebrava o Dia das Crianças dentro da aldeia Tekoha Y’apo. Christian Aguayo, advogado apontado como representante legal da Estância La Americana, entrou em contato com o líder indígena Antonio Carrillo convocando uma reunião na sede da fazenda sob o pretexto de tratar da disputa de terras e entregar presentes aos estudantes.

  • A carona do professor: Como Carrillo não possuía transporte próprio, pediu carona a Catalino Correa, professor que participava da festa escolar com o uniforme docente e aceitou levá-lo em seu carro particular, um veículo simples de passeio.

  • Tortura e execução sumária: Ao chegarem ao ponto marcado, os dois foram rendidos por agentes da Secretaria Nacional Antidrogas (Senad) durante a operação denominada “Redención”. Familiares e testemunhas denunciam que não houve confronto: ambos foram submetidos a torturas severas e executados a tiros. Bruno Correa, pai do professor, denunciou que os agentes arrancaram os dentes de seu filho e guardaram dentro da carteira da própria vítima.

  • Fraude e adulteração de provas: Moradores afirmam que os agentes plantaram armas sobre os corpos para justificar uma falsa troca de tiros e alteraram a cena nas fotografias oficiais, colocando o líder Antonio Carrillo no banco do motorista, embora o veículo pertencesse e estivesse sob direção do professor.

  • Ameaças, desaparecimento e prisão ilegal: Moradores que foram ao local logo após os disparos foram expulsos sob ameaça armada por homens em uma caminhonete preta sem placas. A ação dentro da aldeia também resultou no desaparecimento forçado de Fulgencio Carrillo, irmão do líder assassinado, e na prisão arbitrária de Don Bruno López, um idoso doente retirado à força de sua cama.

Familiares dos líderes assassinados denunciam violência armada e cobram apuração de assassinatos. Foto: Divulgação.

NOTA DA CONFERPAR NA ÍNTEGRA

CONFERPAR exige justicia para la comunidad Tekoha Y’apo

Ante los trágicos sucesos ocurridos el pasado 14 de agosto en el distrito de Corpus Christi, que cobraron la vida del líder indígena Antonio Carrillo y del profesor Catalino Correa, la Conferencia de Religiosas y Religiosos del Paraguay (CONFERPAR) emitió un contundente mensaje.

A través de este comunicado, la institución expresa su profundo dolor e indignación, sumándose al clamor de la comunidad que exige la presencia del Estado y una investigación transparente por parte del Ministerio Público.


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