Tekoha Y’apo: comunidade denuncia tortura e mortes no Paraguai

Tekoha Y’apo: comunidade denuncia tortura e mortes no Paraguai

Moradores afirmam que vítimas foram atraídas para reunião na Estância Americana e executadas durante festa do Dia das Crianças.

Comunidade indígena Ava Guarani Tekoha Y'apo exige justiça e apuração após a execução de suas lideranças em Canindeyú. Foto: Operación "Redención".
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Canindeyú, Paraguai – A comunidade indígena Ava Guarani da aldeia Tekoha Y’apo vive dias de luto, revolta e medo após a tortura e o assassinato de duas de suas principais lideranças: o líder comunitário Antonio Carrillo Mancuello e o professor Catalino Correa. O crime ocorreu em 14 de agosto, durante uma investida de agentes da Secretaria Nacional Antidrogas (Senad) identificada como operação “Redención”. Moradores e familiares denunciam que não houve confronto, mas sim uma emboscada articulada a mando de representantes da Estância La Americana, com invasão armada ao território tradicional sem ordem judicial, adulteração da cena do crime e execução sumária.

O ataque começou enquanto a comunidade escolar celebrava o Dia das Crianças dentro da aldeia. Segundo Claudelina Saucedo, viúva de Antonio Carrillo, o líder indígena recebeu mensagens e ligações de Christian Aguayo, advogado apontado como representante legal da Estância Americana, solicitando uma reunião na sede da fazenda para tratar do litígio de terras. De acordo com o pai do professor, Bruno Correa, a convocação usou ainda o pretexto de entregar presentes para os alunos. Como Carrillo não tinha condução própria, pediu carona a Catalino Correa, que participava das comemorações vestido com o uniforme de docente e concordou em levá-lo em seu carro pessoal — um veículo simples e de passeio.

Os dois nunca retornaram. Conforme relatos da comunidade, ambos foram rendidos na chegada, submetidos a torturas severas e executados a tiros. Bruno Correa denunciou que os executores arrancaram os dentes do professor e do líder indígena, guardando os dentes de Catalino dentro da carteira pessoal da vítima. Familiares afirmam que as forças de segurança plantaram armas sobre os corpos para forjar uma troca de tiros e alteraram a cena nas fotografias oficiais, colocando o líder comunitário no banco do motorista, embora o veículo pertencesse e estivesse sob direção do educador.

Logo após o ocorrido, Claudelina Saucedo foi até o local da emboscada com outros moradores, mas o grupo foi expulso sob ameaça por homens em uma caminhonete Toyota Fortuner preta, sem placas. A viúva cobrou transparência das autoridades: “Yvy la problema. Ndaha’éi mba’eve. Por que não mostram a evidência?” — frisando em guarani que o motivo da violência é a disputa fundiária. “Queríamos diálogo. Nos deram a morte”, desabafou uma moradora da aldeia.

A ação armada dentro do território tradicional também resultou no desaparecimento forçado de Fulgencio Carrillo, irmão do líder assassinado, e na prisão arbitrária de Don Bruno López, um idoso doente e acamado que foi retirado à força de sua cama pelos agentes.

Em comunicado oficial divulgado em 15 de agosto, a comunidade Ava Guarani repudiou a narrativa policial e destacou que o território possui personalidade jurídica reconhecida pelo Decreto do Poder Executivo nº 3.958, o que torna a incursão sem mandado uma violação flagrante. O documento esclareceu também que Antonio Carrillo respondia a um processo por infração ambiental no qual já havia obtido sobrestamento provisório.

A defesa jurídica da aldeia, liderada pelo advogado Aníbal Alfonso, rechaçou qualquer ligação dos indígenas com a facção do narcotraficante Felipe Santiago Acosta Riveros, o “Macho”, apontando que a acusação serve apenas para mascarar o conflito fundiário. O pai do docente reforçou o repúdio à criminalização: “Que história é essa de ‘Macho’? O problema é a Americana. Foram executados inocentemente”.

A comunidade denunciou ainda uma campanha de difamação promovida pelo portal digital paraguaio Ñanduti, que veiculou acusações ligando as lideranças a grupos armados. Diante dessas investidas midiáticas, em 11 de agosto — três dias antes do ataque —, Antonio, Fulgencio e Dorivaldo Carrillo haviam comparecido voluntariamente ao Instituto Paraguaio do Indígena (INDI) e ao Ministério Público para se colocar formalmente à disposição da Justiça.

O conflito central envolve 11 mil hectares de terras ancestrais reivindicadas pelos proprietários da Estância La Americana, onde vivem cerca de 300 famílias Ava Guarani sob constante ameaça de despejo. Claudelina Saucedo afirmou que a comunidade acionará instâncias internacionais de direitos humanos e garantiu que os indígenas permanecerão no território para resistir às tentativas de expulsão.


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