Curitiba, PR – Apenas 10% dos negócios rurais brasileiros chegam à terceira geração. Vinte e cinco por cento fracassam por falta de preparo dos herdeiros. Sessenta por cento não sobrevivem aos conflitos familiares. E apenas 15% das propriedades rurais têm plano de sucessão.
Os números foram apresentados pela especialista em governança Mariely Biff durante a 6ª edição dos Encontros Regionais de Líderes Rurais, promovidos pelo Sistema FAEP entre maio e julho. A série percorreu 11 municípios do Paraná: Pato Branco, Toledo, Campo Mourão, Mariluz, Nova Esperança, Arapoti, Cornélio Procópio, Londrina, Guarapuava, Bituruna e Lapa. Reuniu 2.854 produtores e lideranças de 160 sindicatos rurais.
“É preciso começar antes de precisar: se preparar com calma, cuidado, sempre considerando preservar a harmonia da família. Acima de tudo, é preciso ensinar os filhos a tomar decisões. Não existe fórmula mágica. Cada família tem uma configuração, uma maneira de encarar, um tamanho de negócio. É preciso aprender a se comunicar dentro de casa.”
Pela primeira vez, o evento aceitou participantes a partir de 15 anos. A intenção era trazer os herdeiros para o debate antes que a decisão sobre o futuro da propriedade virasse crise. Dezenas de jovens acompanharam os pais nas palestras.
O presidente do Sistema FAEP, Ágide Eduardo Meneguette, defendeu que a sucessão seja tratada como processo estratégico.
“O futuro e a sustentabilidade dos negócios no campo dependem da boa gestão e da preparação dos sucessores. A sucessão familiar precisa ser um processo estratégico, estruturado, para proteger o patrimônio e perpetuar o legado de gerações. Já tivemos muitos bons frutos. Vimos pais passando a gestão da propriedade aos filhos e continuando a trabalhar em conjunto, em harmonia, prosperando.”
Meneguette citou o programa Herdeiros do Campo, criado em 2016. São cinco encontros por turma, divididos em três dimensões: família, empresa e propriedade. O programa termina com a elaboração de um plano de sucessão adaptado à realidade de cada família.
A participação feminina nos encontros chegou a 58% da plateia, em média. O número reforça a presença crescente das mulheres na gestão de propriedades rurais. Novos participantes representaram 23% do público, sinal de renovação da base sindical.
O encerramento na Lapa marcou o lançamento do 3º ciclo do Sindicato Protagonista. No ciclo anterior, a adesão saltou de 70 para 105 entidades, com aumento de 14% no total de associados, de 12.690 para 14.511. O gerente do Departamento de Relações Sindicais, João Lázaro Pires, atribuiu o resultado ao trabalho das lideranças locais.
“Dentro e fora, inclusive nos conselhos municipais, os resultados são perceptíveis. Vamos continuar crescendo e fortalecendo o sistema sindical rural do Paraná.”
O novo ciclo oferece bonificação de até R$ 7 mil para os sindicatos que baterem metas, com quatro novos indicadores de desempenho e a obrigatoriedade de pontuação no Planejamento Estratégico de Mobilização (PEM). As inscrições vão até 17 de julho.
Os dados e iniciativas são relevantes, mas o problema estrutural segue em aberto: como preparar o filho do produtor rural para assumir a terra quando a cidade oferece mais estudo, mais serviços e menos isolamento? A resposta, como lembrou Mariely Biff, começa dentro de casa.



















