Cianorte (PR). Resultados parciais de uma pesquisa realizada no Noroeste do Paraná reforçam o que técnicos e produtores da região já conhecem na prática, mas agora com números mais precisos: em áreas de solo arenoso, o uso de terraços pode fazer grande diferença para conter a erosão, reduzir o escoamento da água da chuva e proteger nutrientes importantes para a produção agrícola.
Os dados foram divulgados pelos pesquisadores da Rede Paranaense de Agropesquisa (Napi Prosolo), que conduzem estudos em megaparcelas nos municípios de Cianorte e Presidente Castelo Branco, em áreas de Arenito Caiuá, formação conhecida pela alta suscetibilidade à erosão. Segundo os resultados parciais da segunda etapa do trabalho, os terraços podem reduzir a perda de água em até 75% ou mais. Já a perda de solo pode cair de 45% a mais de 90%, a depender da cultura implantada e do tipo de estrutura conservacionista adotada.
O alcance desses números vai além do interesse técnico. Em um cenário de chuvas irregulares, eventos extremos mais frequentes e pressão crescente sobre a produtividade, a pesquisa toca em um ponto central para o campo paranaense: quanto solo, água e dinheiro podem estar sendo perdidos quando a proteção da área é insuficiente.
É justamente essa a próxima etapa do trabalho. O grupo coordenado por Edison Schmidt Filho, professor da Unicesumar e do Instituto Cesumar de Ciência, Tecnologia e Inovação (Iceti), agora busca medir economicamente a perda de solo e nutrientes, sobretudo em áreas sem terraceamento. A intenção é traduzir em valores concretos o impacto do escoamento provocado pelas chuvas.
“Onde os terraços foram removidos, observamos mais perda de sedimentos. O que percebemos é que essas estruturas são importantes para evitar os prejuízos da erosão e da perda de nutrientes do solo.” Edison Schmidt Filho, coordenador da pesquisa na região
Segundo o pesquisador, a perda não é apenas física. Ela também pesa no bolso. Quando a chuva carrega embora partículas do solo, leva junto nutrientes essenciais para o desenvolvimento das lavouras, como nitrogênio, fósforo e potássio, que integram a base dos fertilizantes aplicados pelo produtor.
“O produtor gasta muito com adubo para manter o solo nutrido. Quando chove e não há proteção, esses nutrientes também escoam e, com isso, certamente há prejuízo econômico. É o que queremos, agora, valorar.” Edison Schmidt Filho, professor da Unicesumar/Iceti
Os estudos em Cianorte e Presidente Castelo Branco fazem parte de uma rede mais ampla de pesquisa aplicada no Estado. O Sistema FAEP apoia o Novo Arranjo de Pesquisa e Inovação (Napi), que reúne a Rede Paranaense de Agropesquisa e o Programa Integrado de Conservação de Solo e Água do Paraná (Prosolo), junto à Fundação Araucária e à Secretaria de Ciência, Tecnologia e Ensino Superior (Seti). Além do Noroeste, há pesquisas em outras cinco mesorregiões: Cambé, no Norte; Ponta Grossa, nos Campos Gerais; Guarapuava, na região Central; Dois Vizinhos, no Sudoeste; e Toledo, no Oeste.
A coordenadora de Ciência e Academia da Fundação Araucária, Fátima Padoan, afirmou que a rede tem papel estratégico para fortalecer a pesquisa aplicada no Paraná, especialmente em uma área decisiva para a economia estadual, como a agricultura. O presidente do Sistema FAEP, Ágide Eduardo Meneguette, também relacionou os resultados ao desafio de orientar o produtor diante de perdas causadas por eventos climáticos extremos.
Nos dois municípios do Noroeste, as condições de uso da terra ajudam a mostrar como o problema assume formas distintas dentro da mesma região. Em Presidente Castelo Branco, as áreas observadas são voltadas integralmente para o plantio de cana-de-açúcar. Em Cianorte, a dinâmica é de culturas anuais, com rotação que inclui milho ou soja na primeira safra e aveia na segunda safra, ou safra de inverno.
Desde 2020, um grupo formado por oito professores pesquisadores, 12 bolsistas de apoio técnico, sete bolsistas de iniciação científica, dois mestrandos, dois pesquisadores de pós-doutorado e uma doutoranda externa da Universidade Estadual de Londrina (UEL) acompanha todos os eventos de chuva em três espaços de pesquisa. Em cada município, foram instaladas duas megaparcelas, uma com terraço e outra sem terraço. Além disso, há estruturas de coleta de água na microbacia para análise do comportamento do escoamento.
A pesquisa reúne dados físicos, químicos e biológicos para orientar o dimensionamento de estruturas conservacionistas e ajustes de manejo. Na prática, isso significa produzir informação útil para decisões de campo, não apenas conhecimento acadêmico isolado.
Por enquanto, a recomendação do grupo é direta: manter o solo protegido com terraços e com cobertura permanente, seja verde, seja por meio de palhada. O pesquisador também orienta que o produtor evite revolver o solo periodicamente e não faça uso aleatório de grade, sob risco de aumentar a perda de solo, comprometer a produtividade e reduzir a rentabilidade da área.
Schmidt Filho ressalta ainda que a instalação dos terraços não deve ser feita de forma improvisada. O dimensionamento depende da declividade do terreno, das características do solo e das condições específicas de cada área. A função da estrutura, explica ele, é reduzir o comprimento da rampa, do ponto mais alto do terreno até o fundo do vale, para diminuir a velocidade do escoamento superficial e manter água, solo e nutrientes dentro da gleba.
Em um Estado que tem na agricultura uma de suas bases econômicas e que enfrenta cada vez mais os efeitos de eventos climáticos intensos, a pesquisa ajuda a recolocar o manejo do solo no centro do debate. O dado mais importante talvez não seja apenas quanto os terraços seguram de água ou sedimento, mas o que isso revela: em áreas frágeis, o solo continua sendo um patrimônio produtivo que pode se perder silenciosamente a cada chuva.
Serviço
Pesquisa sobre manejo de solo arenoso no Paraná
Rede: Napi Prosolo, Rede Paranaense de Agropesquisa
Municípios desta etapa: Cianorte e Presidente Castelo Branco
Região: Noroeste do Paraná, em áreas de Arenito Caiuá
Foco atual: medir perdas de água, solo, nutrientes e impacto econômico da erosão



















